As plantas conseguem mesmo acompanhar a mudança climática ou algumas já estão ficando para trás? Um grande estudo global acaba de trazer uma resposta mais nítida.
Os cientistas observaram que as plantas podem evoluir mais rápido do que se imaginava, mas o calor extremo ainda pode levá-las à extinção.
Um experimento para testar a sobrevivência
Por muito tempo, a evolução foi investigada por meio de experimentos pequenos e isolados. Eles trouxeram avanços importantes, porém não conseguiam revelar como as plantas reagem em climas reais e variados.
Para contornar esse limite, Moisés Expósito-Alonso, da Universidade da Califórnia, Berkeley, reuniu um grande time internacional.
Em conjunto, eles organizaram a rede GrENE e cultivaram Arabidopsis thaliana em 30 regiões diferentes.
Os locais incluíram a Europa, o Oriente Médio e a América do Norte. Em cada área, vários grupos de plantas cresceram sob condições naturais de tempo e clima.
Com esse desenho, foi possível acompanhar a evolução acontecendo “ao vivo”, em ambientes muito distintos entre si.
Muitas variedades da mesma planta
A Arabidopsis thaliana é uma planta pequena, muito usada em pesquisa. Ela se desenvolve rápido e tem uma genética relativamente simples.
Neste trabalho, os pesquisadores recorreram a 231 variedades naturais diferentes de Arabidopsis thaliana. As sementes foram misturadas e, depois, todas as linhagens foram plantadas juntas.
Isso formou uma população extremamente diversa. A diversidade genética é crucial porque aumenta as chances de adaptação.
“Todas essas espécies que estão sob proteção, por exemplo em parques naturais, ainda vão sofrer com a mudança dos climas locais, e teremos de elaborar algum tipo de estratégia para entender as chances de elas conseguirem uma nova adaptação climática por conta própria ou, talvez, até ajudá-las”, disse Expósito-Alonso.
As plantas evoluem mais rápido do que se esperava
O estudo trouxe um resultado inesperado: em apenas alguns anos, as plantas alteraram sua composição genética. Os cientistas monitoraram essas mudanças analisando DNA de milhares de amostras.
“As nossas grandes perguntas eram: ‘Em que velocidade a evolução acontece?’ e ‘Quando ela não acontece?’. O que conseguimos mostrar é que esse ritmo, se houver diversidade genética suficiente, pode ser de três, quatro, cinco anos”, disse Expósito-Alonso.
Os dados também reforçam que as mudanças genéticas não foram aleatórias. Diversas alterações seguiram padrões claros associados ao clima.
Por exemplo, plantas expostas a climas parecidos apresentaram mudanças genéticas semelhantes, indicando um papel forte da seleção natural.
As plantas evoluem de acordo com o clima
Em muitos locais, as plantas se ajustaram bem - mas não em todos. Nas áreas extremamente quentes, algumas populações não conseguiram se manter. Em vez de mudanças genéticas úteis, esses grupos exibiram alterações aleatórias e, em seguida, desapareceram.
“Nos ambientes mais quentes - talvez os mais representativos dos climas futuros sob o aquecimento global - as populações com mudanças evolutivas previsíveis sobreviveram, enquanto aquelas com mudanças genéticas caóticas foram extintas”, disse Expósito-Alonso.
A pesquisa também mostrou que, em climas duros, as populações tendem a encolher muito. Populações menores carregam menos diversidade genética, o que dificulta ainda mais a adaptação.
Genes ajudam as plantas a evoluir e sobreviver
Durante o experimento, os cientistas examinaram milhões de mudanças genéticas. Eles identificaram genes que se tornaram mais frequentes porque contribuíam para uma sobrevivência maior.
“O que muito provavelmente estamos vendo é adaptação por meio de variação genética pré-existente, que é reutilizada de formas diferentes. Se uma variante é adaptativa em um ambiente, sua frequência aumenta”, disse Xing Wu, autor principal do estudo.
Os especialistas observaram ainda que muitos genes atuaram em conjunto, e não apenas um ou dois. Esse tipo de resposta é chamado de poligênica, quando várias mudanças pequenas se somam para favorecer a sobrevivência.
Alguns genes relevantes estavam ligados ao estresse térmico, ao tempo de floração e ao comportamento das sementes. Esses traços ajudam as plantas a ajustar seu ciclo a variações de temperatura e de estação.
O clima local molda a sobrevivência
Os resultados indicaram que as plantas tendem a ter melhor desempenho em climas semelhantes àqueles de onde vieram. Assim, plantas de regiões mais quentes se saíram melhor em locais quentes, enquanto outras tiveram dificuldades.
Esse padrão aponta para a adaptação local: as espécies já carregam características genéticas adequadas a ambientes específicos.
Ainda assim, o estudo também revelou um sinal preocupante. Algumas plantas originárias de regiões quentes apresentaram desempenho superior em condições um pouco mais frias. Isso sugere que a mudança climática pode já estar avançando mais rápido do que a adaptação.
Nem toda evolução é útil
Em certas populações, ocorreram mudanças genéticas que não aumentaram a sobrevivência. Essas alterações surgiram ao acaso, e não por pressão do clima.
A coautora Tatiana Bellagio explicou de forma direta: “Então houve evolução por deriva genética, apenas mudanças estocásticas, mas não evolução impulsionada pela seleção natural, pelas pressões climáticas naturais.”
Com frequência, essas populações sumiram depois de alguns anos, mostrando que a evolução, por si só, não garante continuidade.
Adaptação das plantas em um clima em aquecimento
Um achado animador é que os cientistas podem começar a prever quem vai resistir. Ao observar as mudanças genéticas iniciais, torna-se possível estimar se uma população terá chance de persistir mais adiante.
O estudo indica que populações com mudanças genéticas claras e consistentes tiveram maior probabilidade de sobreviver ao longo do tempo.
“Com o conhecimento da nossa Arabidopsis, podemos fazer algumas estimativas bem embasadas de quem vai sobreviver em qual local”, disse Expósito-Alonso.
Isso pode apoiar a proteção de espécies ameaçadas e orientar esforços de conservação.
Um mundo em mudança constante
Mesmo quando a natureza parece estável, ela se transforma o tempo todo no nível genético. Expósito-Alonso quer investigar esse processo em plantas silvestres na próxima etapa.
“A natureza tem essa aparência de estabilidade aos olhos de observadores humanos”, disse ele. “Mas os genótipos estão mudando o tempo todo. Então poder ver isso é meio que o meu sonho.”
Este trabalho aponta, ao mesmo tempo, esperança e alerta: as plantas podem se adaptar depressa, mas apenas enquanto as condições não forem extremas demais. À medida que a mudança climática avança, compreender esses limites ficará mais importante do que nunca.
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