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Avaliação Global de Peixes Migratórios de Água Doce da ONU no CMS na COP15 no Brasil expõe queda de 81% desde 1970

Mulher com tablet mostrando mapa de rio sentada na água perto de peixes e uma barragem ao fundo.

Quando se fala em migrações épicas de animais, a imagem que costuma vir à cabeça é a de gnus atravessando o Serengeti ou de aves cruzando oceanos.

Só que algumas das migrações mais longas - e mais determinantes - do planeta estão a acontecer debaixo de água, nos rios. E uma nova avaliação apoiada pela ONU afirma que elas estão a colapsar rapidamente.

O documento, intitulado Avaliação Global de Peixes Migratórios de Água Doce (Global Assessment of Migratory Freshwater Fishes), está a ser lançado pela Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), da ONU, durante a COP15 no Brasil.

Na prática, o relatório funciona como um alerta alto e claro sobre uma crise que passou despercebida com facilidade justamente por se desenrolar abaixo da superfície.

Os peixes migratórios de água doce enfrentam uma situação grave, e a sua proteção exige que os países tratem os rios como sistemas conectados - e não como trechos isolados separados por fronteiras.

Importância para além da biodiversidade

Peixes migratórios de água doce não são apenas um tema de nicho na conservação. Eles ajudam a manter os rios a funcionar. Transportam nutrientes. Sustentam cadeias alimentares. E são a base de grandes pescarias interiores que alimentam e geram sustento para centenas de milhões de pessoas.

Muitas dessas espécies não são “locais” no sentido comum em que se costuma imaginar peixes de rio. O ciclo de vida delas depende de corredores extensos e contínuos - percursos entre áreas de desova, zonas de alimentação e planícies de inundação que servem como berçários - que podem alcançar milhares de quilómetros e atravessar várias fronteiras.

É exatamente isso que as torna mais frágeis. Ao fragmentar um rio com barragens, regimes de vazão alterados, focos de poluição e pressão de sobrepesca, esses peixes não perdem apenas habitat. Eles perdem a possibilidade de completar o próprio ciclo de vida.

Os números principais são duros

A avaliação reúne grandes bases de dados globais e análises da IUCN sobre quase 15.000 espécies de peixes de água doce.

Um dado, em particular, é difícil de ler sem estremecer: as populações de peixes migratórios de água doce, no mundo, diminuíram cerca de 81% desde 1970.

Além disso, o relatório observa que quase todos (97%) os 58 peixes migratórios listados na CMS (incluindo espécies de água doce e de água salgada) estão ameaçados de extinção.

Isso não é um cenário de “vamos acompanhar”. É um cenário de “o sistema está a quebrar”.

Um enorme vazio na proteção global

O relatório também aponta 325 espécies de peixes migratórios de água doce como candidatas a esforços internacionais coordenados de conservação, além das 24 que já contam com listagem e proteção no âmbito da CMS.

A intenção não é oferecer uma sentença definitiva para cada espécie. O objetivo é dimensionar o tamanho do ponto cego.

Esses peixes não ficam efetivamente protegidos com ações de um único país, porque muitos migram por bacias hidrográficas partilhadas.

Se o habitat a montante for protegido, mas uma barragem a jusante impedir a passagem, isso pouco resolve. Se um país adotar regras de pesca sustentáveis, mas o vizinho não o fizer, a população ainda assim cai.

Em outras palavras, a mensagem do relatório é direta: sem coordenação transfronteiriça, essas migrações continuarão a desaparecer.

Onde a pressão é maior

A avaliação destaca bacias hidrográficas em que as quedas e os riscos são particularmente urgentes.

Entre as citadas estão a Amazónica e a La Plata–Paraná na América do Sul, o Danúbio na Europa, o Mekong na Ásia, o Nilo em África e o sistema Ganges–Brahmaputra no subcontinente indiano.

Essas bacias não são apenas vitais do ponto de vista ecológico. Elas também são politicamente complexas, por envolverem muitos países, disputas por água e desenvolvimento pesado de infraestrutura.

A América do Sul ganha destaque especial

Como a COP15 ocorre no Brasil, o relatório dá atenção reforçada a dois grandes sistemas fluviais sul-americanos: a Amazónia e a La Plata–Paraná.

A Amazónia é descrita como um dos últimos grandes redutos para peixes migratórios de água doce, mas o texto alerta que as pressões do desenvolvimento estão a avançar rapidamente.

Um estudo de caso divulgado junto com a avaliação identifica 20 espécies migratórias amazónicas que cumprem critérios para possível inclusão no Apêndice II da CMS.

Não se trata de espécies obscuras. Elas sustentam a pesca na Amazónia. O relatório afirma que peixes migratórios correspondem a cerca de 93% dos desembarques pesqueiros na bacia, apoiando pescarias avaliadas em aproximadamente US$436 milhões por ano.

Um plano de ação para peixes migratórios

Alguns peixes migram numa escala que parece quase inacreditável até estar no papel. Um exemplo é o bagre dourado (gilded) (Brachyplatystoma rousseauxii), um grande peixe de fundo valorizado em pescarias comerciais.

A migração do seu ciclo de vida abrange cerca de 11.000 quilómetros, desde cabeceiras andinas até berçários costeiros - frequentemente citada como a migração de água doce mais longa entre os peixes.

O Brasil e outros governos estão a propor um Plano de Ação Multi-espécies para Bagres Migratórios Amazónicos (2026–2036), com a finalidade de proteger esses migradores de longa distância por meio de cooperação regional.

O Brasil também propõe incluir o sorubim pintado (Pseudoplatystoma corruscans) no Apêndice II da CMS, ligado a preocupações de conservação na Bacia do Prata.

A questão da fragmentação de habitats

O relatório não sugere que as causas sejam difíceis de identificar. Os fatores por trás do declínio são bem conhecidos.

Barragens e outras obras de infraestrutura interrompem rotas migratórias e mudam os regimes de vazão. A fragmentação do habitat corta os corredores extensos de que os peixes precisam. A poluição piora a qualidade da água. A sobrepesca retira adultos mais rápido do que as populações conseguem repor.

Por fim, as mudanças climáticas alteram temperaturas dos rios, padrões de chuva e dinâmicas de inundação - e, para peixes migratórios, esses ritmos sazonais costumam ser os sinais que indicam quando é hora de se mover.

O ponto central é que essas pressões não atuam isoladamente; elas acumulam-se. Uma população que talvez resistisse à pressão da pesca pode colapsar quando as rotas são bloqueadas.

Uma população já enfraquecida por água mais quente pode entrar em colapso quando a poluição também reduz o oxigénio e aumenta o risco de doenças.

O que os governos podem fazer na prática

A avaliação não é apenas pessimista. Ela descreve instrumentos que governos podem começar a aplicar imediatamente.

O relatório reforça a proteção de corredores migratórios e a manutenção de vazões ambientais, para que os rios continuem a comportar-se como rios - e não como simples tubulações. Defende planos de ação à escala de bacia e monitorização transfronteiriça, porque, sem partilha de dados, os países não conseguem reagir a tempo.

Também destaca a gestão coordenada e sazonal das pescarias, já que capturar peixes exatamente durante a migração pode eliminar a reprodução de um ano inteiro.

A lógica de base é simples: não dá para proteger peixes migratórios tratando rios como vias nacionais separadas. É preciso gerir o sistema conectado como um todo.

Um problema que é literalmente ignorado

"Muitas das grandes migrações de vida selvagem do mundo acontecem debaixo de água", observou o autor principal do estudo, Zeb Hogan.

Os especialistas salientaram que se trata de uma prioridade importante de conservação que ainda recebeu pouca atenção.

"Os rios não reconhecem fronteiras - e nem os peixes que dependem deles", disse Michele Thieme, da WWF-EUA.

Essa crise não vem acompanhada de imagens dramáticas. Os rios continuam a parecer rios. Alguns peixes continuam a ser capturados. Mas as redes de migração que mantêm ecossistemas de água doce vivos estão a desfazer-se - e, quando essas conexões se perdem, reconstruí-las torna-se extremamente difícil.

Por isso esta avaliação importa. Ela tenta fazer com que o mundo veja o que está a acontecer abaixo da linha d’água, antes que essas migrações virem algo de que se fala apenas no passado.

O relatório e os documentos associados podem ser encontrados aqui.

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