Europa e a nova realidade do calor extremo
A Europa se tornou, hoje, o continente que aquece mais rápido. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 200 mil pessoas morreram ali nos últimos quatro anos por causa do calor extremo. O Observatório Europeu Copernicus informou ontem que junho foi o mês mais quente já registrado na Europa Ocidental. Trata-se de um novo cenário climático que vem acionando mais os governos locais do que as administrações centrais.
Alertas ajudam, mas não eliminam vulnerabilidades
É verdade que, atualmente, os sistemas de alerta precoce operam com muito mais eficiência do que num passado recente. Em parte por isso, tem sido possível diminuir o impacto imediato das ondas de calor. Só que, embora os avisos ainda possam salvar muitas vidas, eles não atacam as várias causas de vulnerabilidade.
As cidades seguem quentes demais, as escolas não têm estrutura para lidar com temperaturas extremas, as casas não são projetadas para nos proteger de ondas sucessivas e a organização do trabalho continua sem incorporar essas variações climáticas.
Políticas públicas locais: exemplos de Lyon e Braga
Num dossiê dedicado ao tema, a edição desta semana da revista "Courrier International" reúne alguns exemplos positivos de políticas públicas locais pensadas para enfrentar temperaturas extremas. Um deles é a cidade francesa de Lyon, que ampliou a oferta de pontos de água potável em espaços públicos, aumentou áreas verdes em regiões antes impermeabilizadas, diminuiu o espaço dedicado ao tráfego de carros e implantou "percursos frescos" para orientar a população por caminhos mais protegidos do calor intenso.
Em Portugal, Braga - que, nos últimos dias, esteve entre as cidades mais quentes do país - também implementou rapidamente algumas ações de adaptação, como refúgios climáticos e pontos de água fresca no centro urbano.
A ausência dos governos centrais e a necessidade de prioridade contínua
Há gestores municipais que já entenderam que as temperaturas extremas deixaram de ser episódios excepcionais e passaram a fazer parte de uma nova normalidade, que exige outras políticas públicas. Enquanto, no nível local, iniciativas se acumulam, os poderes centrais continuam excessivamente ausentes diante desses desafios.
É fato que, nos dias mais críticos, os governantes - embalados pelo tom do noticiário - até fazem algumas declarações e anunciam medidas pontuais, mas depois voltam a uma amnésia sazonal, cujos efeitos podem se tornar graves em pouco tempo.
O calor não pode ser apenas assunto de notícias de verão e sumir da agenda pública quando a temperatura baixa. Precisa virar uma prioridade política transversal, capaz de orientar o planejamento territorial, a moradia, a saúde, a educação, os transportes, a legislação trabalhista, entre outras áreas. É necessário considerar que prevenir custa muito menos do que responder a uma emergência. E, neste caso, não se trata apenas de dinheiro. Trata-se de vidas.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário