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Gripe aviária H5N1 ameaça focas e leões-marinhos 30 anos após 1996

Pesquisadora realiza coleta de amostra em foca marinha na praia com outras focas e mar ao fundo.

Em 1996, uma cepa de gripe aviária apareceu em uma granja de aves na Ásia. Naquela época, não parecia algo capaz de virar uma ameaça mundial.

Três décadas depois, o mesmo vírus, o H5N1, já se espalhou por quase todo o planeta. Ele infectou mais de 400 milhões de aves de criação e avançou muito além das aves.

O vírus também passou a atingir animais silvestres de maneiras que pouca gente previa. Hoje, mamíferos marinhos entram diretamente nessa história.

Focas e leões-marinhos, em especial, estão sendo fortemente impactados - e os números vêm crescendo de um jeito que preocupa a comunidade científica.

A gripe aviária atinge o litoral da América do Sul

Em áreas da América do Sul, a destruição já é expressiva. Surtos mataram pelo menos 36.000 leões-marinhos-sul-americanos, 17.400 elefantes-marinhos-do-sul e 1.000 lobos-marinhos-sul-americanos.

Não se trata de perdas pequenas. Elas atingem colônias inteiras e podem alterar o funcionamento de ecossistemas ao longo da costa.

E não é um fenômeno restrito a um único lugar. O vírus da gripe aviária já deixou claro que consegue passar entre espécies e percorrer grandes distâncias, o que torna o comportamento do surto mais difícil de prever - e, ainda mais, de controlar.

Um olhar mais atento para o que está acontecendo

Diante desse cenário, pesquisadores recuaram para observar o quadro geral. O trabalho analisa como o vírus se espalha entre pinípedes - o grupo que inclui focas e leões-marinhos - e o que pode ser feito para reduzir os danos.

“Existe um risco de conservação enorme e sem precedentes”, disse Christine Johnson, diretora do Instituto de Percepções sobre Pandemias na Escola Weill de Medicina Veterinária da UC Davis.

“A influenza está em mudança constante, e isso é um grande problema agora que está circulando amplamente em aves e mamíferos marinhos.”

Os resultados da equipe foram publicados em uma revista científica voltada ao manejo de doenças infecciosas em populações de animais silvestres.

Quando os elefantes-marinhos deram o alerta

Os sinais de perigo ficaram evidentes durante um grande surto na Argentina, em 2023. Elefantes-marinhos-do-sul começaram a morrer em grande quantidade. O que parecia uma crise localizada acabou revelando algo muito mais amplo.

Marcela Uhart, veterinária envolvida na pesquisa, acompanhou a situação de perto. “Os elefantes-marinhos-do-sul foram o canário na mina de carvão, nos alertando para um problema maior envolvendo pinípedes no mundo inteiro”, afirmou.

“Podemos fazer algo melhor para estar preparados da próxima vez, antes que se espalhe para outras espécies.”

A fala dela reforça uma ideia central: esses surtos iniciais funcionam como sinais de alerta, e não como episódios isolados.

A detecção precoce faz diferença

Na Califórnia, os cientistas estavam a postos. No fim de fevereiro, elefantes-marinhos-do-norte apresentaram os primeiros casos conhecidos de H5N1 em um mamífero marinho no estado. A reação foi rápida - e essa rapidez teve impacto.

Mais de um ano antes, equipes já haviam implantado um monitoramento de rotina. Elas acompanharam a atividade de aves, observaram colônias de focas e coletaram amostras de animais doentes ou mortos. Quando o vírus apareceu, não foi necessário começar do zero.

Johnson descreveu o episódio como uma “detecção excepcionalmente rápida de um surto em mamíferos marinhos de vida livre”. Um tipo de resposta assim pode reduzir o alcance e a velocidade de propagação do vírus.

O que precisa mudar agora

A pesquisa aponta algumas medidas diretas. O monitoramento de longo prazo da vida silvestre precisa de financiamento contínuo. Acompanhar populações ao longo do tempo ajuda a perceber mudanças cedo, antes que os surtos saiam do controle.

A comunicação também é decisiva. Cientistas, profissionais de saúde pública e governos precisam compartilhar informações com rapidez. Quando diferentes áreas trabalham isoladas, surtos podem crescer sem serem notados.

A tecnologia começa a contribuir. Ferramentas como imagem térmica, monitoramento acústico e dados de satélite podem acompanhar o comportamento dos animais e identificar padrões incomuns. Esses sinais podem indicar que algo está errado antes que ocorram grandes mortandades.

Há, ainda, um problema maior ao fundo. A influenza aviária não atua sozinha. Os animais marinhos já enfrentam perda de habitat, menos alimento e oceanos mais quentes. Populações pequenas ficam especialmente vulneráveis quando uma doença chega.

A gripe aviária coloca espécies marinhas raras em risco

Alguns animais ainda não foram afetados, mas seguem expostos ao risco. A foca-monge-havaiana e o leão-marinho-das-Galápagos são dois exemplos.

“Os vírus H5 de influenza aviária são uma ameaça emergente para populações de focas e leões-marinhos que já enfrentam inúmeras pressões de conservação”, explicou Elizabeth Ashley, primeira autora do estudo.

“Entender como esse vírus se espalha em ecossistemas costeiros é essencial para proteger a vida silvestre marinha vulnerável.”

Uma preocupação crescente que não deve desaparecer tão cedo

A trajetória do H5N1 ainda está em andamento. O que começou em granjas avícolas chegou aos oceanos e a ecossistemas silvestres. O vírus continua se adaptando, e isso dificulta antecipar o que vem pela frente.

A lição é direta, mas grave: observar de perto, agir cedo e trabalhar em conjunto pode fazer diferença. Sem isso, as perdas vistas até aqui podem ser apenas o começo.

O estudo completo foi publicado na revista A Sociedade Real.

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