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Estudo do esmalte dentário em Abu Tbeirah revela dieta sem peixe marinho

Pesquisador em laboratório analisa fragmento ósseo iluminado, com vasos e mapa ao fundo.

Um novo estudo sobre esmalte dentário descobriu que as pessoas sepultadas na cidade suméria de Abu Tbeirah, no sul do Iraque, dependiam de cereais e de animais terrestres - e não de peixes marinhos - apesar de viverem perto de antigas águas costeiras.

Esse achado derruba uma das expectativas mais difundidas sobre o cotidiano no início da Mesopotâmia meridional e coloca a alimentação comum sob uma luz mais nítida.

Evidências no esmalte dentário

O esmalte dentário de Abu Tbeirah guardou um registro químico do que humanos e animais consumiram nas primeiras fases da vida.

Ao interpretar esse registro, Matteo Giaccari, da Universidade Sapienza de Roma, mostrou que estar perto do mar não significou comer peixe marinho com regularidade.

Em vez disso, a população enterrada apresentava uma dieta baseada em cevada, trigo, animais terrestres e apenas um uso limitado de recursos de água doce.

Esse padrão inesperado manteve em aberto uma questão maior: em uma cidade costeira, com acesso à água, seria de se esperar uma alimentação bem diferente.

Um enigma costeiro

Abu Tbeirah ficava próxima da antiga Ur, no sul do Iraque, e as escavações já haviam documentado ali um grande porto.

Esse cenário, somado a registros escritos e a vestígios de animais, fazia o consumo de peixe marinho parecer uma aposta segura.

O esmalte dentário humano, porém, se alinhou mais de perto ao dos porcos e de consumidores de cereais do que ao de pessoas que dependeriam fortemente de pescado do mar.

A surpresa indica que, mesmo em uma cidade de comércio, a comida disponível e a comida de fato escolhida nem sempre coincidiam.

Quando o colágeno desaparece

Na Mesopotâmia meridional, restos humanos raramente preservam colágeno - uma proteína estrutural que costuma carregar pistas alimentares em ossos e dentina.

O sal, a aridez e a contaminação por betume degradam essa proteína aos poucos, antes que pesquisadores consigam analisá-la.

Trabalhos anteriores em Abu Tbeirah conseguiram recuperar colágeno utilizável em apenas três, de 48 amostras, deixando a maior parte das refeições sem voz.

Esse beco sem saída ajuda a explicar por que, durante décadas, a alimentação diária nas cidades do sul permaneceu difícil de definir.

Zinco no esmalte dentário

O zinco ofereceu uma alternativa a essa perda, porque seus isótopos - versões ligeiramente mais pesadas ou mais leves de um elemento - ficam presos no esmalte dentário.

Pesquisas anteriores já haviam mostrado que padrões de zinco no esmalte acompanhavam quem comia sobretudo plantas e quem consumia mais carne.

Em Abu Tbeirah, carbono, oxigénio e elementos-traço tornaram a imagem mais precisa, permitindo que os dentes falassem sobre a alimentação e a infância.

Como o esmalte dentário se forma na infância e não se reconstrói, cada amostra registrou um capítulo inicial - e não uma média ao longo de toda a vida.

Refeições de pessoas comuns

Tudo indica que cevada e trigo sustentavam a maior parte do dia a dia, enquanto alimentos de origem animal ocupavam um espaço menor.

Os valores de zinco colocaram essas pessoas em um nível trófico intermediário - a sua posição na cadeia alimentar -, longe de um consumo extremo de carne.

Sinais de carbono e elementos-traço apontam para a ingestão de porco, com ovelhas, cabras ou laticínios contribuindo de forma mais discreta.

Para uma população não elitizada, esse conjunto combina com uma dieta urbana centrada primeiro em grãos e com proteína quando era possível.

Dieta partilhada entre os sexos

Homens e mulheres não se separaram em grupos alimentares distintos, exibindo uma semelhança dietética notável para uma comunidade urbana antiga.

O padrão sugere que a comida circulava amplamente dentro dessa comunidade funerária, em vez de variar de forma acentuada conforme o sexo.

Ainda assim, algumas pessoas enterradas perto de um edifício administrativo apresentaram indícios químicos de refeições mais ricas ou mais variadas.

Diferenças pequenas como essas mantêm o estatuto social na história, mas não recuperam um cenário dominado por peixe.

O esmalte revela a dieta precoce

Alguns dentes registraram a transição da gestação para a amamentação e, depois, a mudança para cereais e leite animal.

Como o esmalte dentário se forma em sequência, a equipa conseguiu identificar o desmame - a passagem do leite para outros alimentos - ao longo da infância.

Valores mais altos de zinco e oxigénio em dentes formados na infância corresponderam à amamentação e à posterior inclusão de cereais ou leite animal.

Essa evidência é relevante porque, em geral, os primeiros anos de vida desaparecem do registo arqueológico, a menos que os corpos se preservem de modo incomum.

Animais no ambiente doméstico

Dentes de porco sugerem que esses animais comiam como oportunistas de assentamento, vivendo de restos e do que as famílias descartavam.

Ovelhas e cabras, por outro lado, parecem ter pastado ou se alimentado de arbustos em rotinas mais soltas, em vez de um fornecimento institucional rígido.

O gado provavelmente seguiu pelo menos dois padrões de alimentação, o que aponta para um pastoreio flexível, e não para um único plano central.

Essas assinaturas animais enquadram a dieta humana como abastecimento em escala doméstica, e não como um sistema estatal totalmente gerido.

Textos e química

Tábuas escritas e listas de alimentos há muito moldam as ideias modernas sobre o que os sumérios urbanos deveriam ter comido.

Abu Tbeirah mostra que esses registos podem deixar escapar escolhas do quotidiano, e o esmalte dentário agora permite recuperar evidências diretas de indivíduos.

“Essas descobertas nos dão uma visão muito mais íntima do cotidiano na Mesopotâmia urbana inicial”, disse Giaccari.

Esse novo controlo sobre a evidência pode importar muito além de uma única cidade, sobretudo onde os arquivos falam mais alto do que os corpos.

Nova leitura das dietas costeiras

Abu Tbeirah passa a parecer menos uma cidade costeira dominada por peixe e mais uma comunidade baseada em grãos, com consumo modesto de alimentos animais.

À medida que estudos com zinco avancem para outros cemitérios em ambientes secos, eles poderão testar até que ponto esse padrão se repetiu e onde as elites comiam de forma diferente.

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