Quem olha para um conversível costuma pensar: “legal para passear, mas pior para andar forte”. No universo dos hot hatches, essa ideia vira quase uma regra não escrita: carro esportivo pequeno tem que ser enxuto, rígido e direto ao ponto. Tirou o teto? Perde rigidez, ganha peso, pronto - ficou inferior.
Só que, neste caso, a regra não se aplica. O Abarth 500C, versão de capota de lona do pequeno apimentado que apareceu no comparativo de hot hatches do mês passado, acaba sendo - de um jeito meio absurdo - ainda mais “hot hatch” do que o Abarth 500 de teto fixo. E para explicar isso, vai uma metáfora culinária meio torta. Enquanto muitos hatches rápidos (o Clio RenaultSport 200 é o exemplo perfeito) são tipo nouvelle cuisine: equilíbrio delicado, minimalismo e precisão, o Abarth 500 sempre foi mais a cara de um rodízio sem freio, um buffet pan-cuisine em que tudo vem em porções generosas.
Quando o Abarth 500 foi criado, não dá a sensação de que os engenheiros pegaram o carro padrão e pensaram no que dava para tirar. Parece mais que eles ficaram contando quantas peças “de performance” conseguiam enfiar até ele virar um hot hatch (“Giovanni, será que cabe um splitter nos retrovisores?”). Nada sutil, nada delicado - e exatamente por isso, deliciosamente exagerado. Então, mantendo a metáfora: cortar o teto não estraga a “harmonia” do modelo fechado; a Abarth só colocou mais uma rodada nesse banquete que é o 500. Tipo uma colherada de mousse de chocolate em cima de um prato que já estava lotado de salada, carne e batata.
Ajuda o fato de que remover o teto do 500 não traz o mesmo tipo de deficiência estrutural que você encontra, por exemplo, num Mini cabrio. Como no 500C comum, o Abarth usa uma capota de tecido que corre para trás entre trilhos fixos no teto, o que preserva mais rigidez do que um conversível com capota totalmente dobrável. Não que seja fácil “medir” o que está acontecendo com a carroceria quando você está tocando o carro forte, preso no meio de um vendaval de vento, barulho de escapamento e um acerto de suspensão empolgado.
O 500C chega a 123 mph (cerca de 198 km/h). Bem antes disso ele já vira um “buffet” - no sentido de turbulência e vento batendo, não de comida (embora ele também seja isso). E metade da graça está aí. Você não compra um 500C para ficar isolado do mundo, numa bolha à la Mercedes. O Abarth te coloca no centro do espetáculo. Com a capota abaixada - ou melhor, recolhida para trás - você ganha uma trilha sonora generosa do escapamento, meio teatral, e uma boa amostra da fauna local grudando no cabelo.
Alguns hot hatches se orgulham de equilíbrio neutro e previsibilidade linear. O 500C não está nem aí para isso. O conversível compartilha com o Abarth 500 fechado o motor 1.4 turbo de 133 bhp - o upgrade Esseesse de 157 bhp chega mais para o fim do ano - e também o jeito “escorregadio” de fazer curva. Em frenagens fortes ou atacando curva no molhado, o 500C fica divertidamente inquieto, mexendo o corpo em volta do motorista e deixando a traseira assustadoramente leve. O “falso diferencial” eletrônico trabalha muito bem para conter o subesterço, e há bastante aderência, mas o modo padrão do 500C é claramente briguento, não “travado no trilho”. Se isso parece crítica, não é. Ele pode não ser um estudo de precisão milimetricamente pesada - a direção é correta, mas tem pouco feedback -, porém é diversão pura: um hot hatch para ser domado na entrada e na saída de curva, mais na base do braço do que no toque de pluma no limite.
A suspensão do conversível é mais macia que a do 500 de teto fixo. O motivo, nas palavras dos próprios engenheiros, é que o 500C é o primeiro Abarth que eles esperam que agrade ao público feminino. (Na verdade, a Abarth parece até meio assustada com a ideia de Mulheres Humanas de Verdade entrando na concessionária, como se elas fossem começar a passar maquiagem furiosamente ou falar sobre sapatos.) Por mais misógina que seja a justificativa, o acerto mais confortável cai bem. Só tivemos a chance de testar o 500C no asfalto lisinho do campo de provas da Fiat em Balocco, mas ele pareceu menos sujeito ao tradicional “bate-e-pula” dos Fiats esportivos antigos - talvez até um pouco mais fluido que o Abarth 500. Um teste no Reino Unido vai dizer.
Menos bem-vinda é a nova caixa ‘Competizione’, que vem de série no 500C. É um manual automatizado que a Abarth descreve como “inspirado em corrida”, citando a transmissão ‘F1 SuperFast’ da Ferrari 599. O arranjo é parecido: manual automatizado sem pedal de embreagem e com borboletas fixadas na coluna de direção. Também lembra, em conceito, os câmbios sofríveis do Smart ForTwo e do Honda Jazz i-shift - e, na prática, é mais com esses dois que ele se parece.
A caixa Competizione lida bem com reduções, casando giros direitinho, mas - como nos câmbios do Smart e do Honda Jazz - vira uma bagunça lenta e pesada nas trocas para cima com pé cravado. Puxe a borboleta direita perto do corte, e vem uma pausa com tranco e balanço enquanto o Abarth troca de marcha. Dá para ajudar levantando um pouco o acelerador, mas ainda assim não é o que você espera de um carrinho urbano nervoso. O manual do modelo de teto fixo seria muito melhor aqui: a Abarth ainda está decidindo se vai oferecê-lo como opção no conversível. Ofereçam, por favor. Eles também prometem que o upgrade Esseesse trará uma recalibração. Tomara que resolva o problema nas trocas para cima.
Dois defeitos do 500 normal seguem presentes: ainda não existe ajuste de profundidade do volante, e a posição de dirigir continua alta demais. Dá para perdoar isso num carro de £10.000, mas quando você encara um preço inicial de £17.500, passa a incomodar cada vez mais.
Ainda assim, o 500C atropela suas falhas na base do carisma e de uma dedicação descarada ao exagero. Como você provavelmente notou, este é o primeiro 500 que dá para encomendar com pintura em dois tons. Quando dá certo, o pequeno Cinquecento ganha uma presença “Veyron-lite”. Quando dá errado - alguns carros de teste vinham numa combinação duvidosa de cinza-escuro sobre cinza-claro com detalhes vermelhos - parece repintura feita nas coxas. Escolha bem.
Ou melhor: não escolha. Abrace o excesso da Abarth. Cores improváveis, comportamento barulhento e arisco, muito ruído e muito vento - é disso que este carro se alimenta. A maior força do Abarth 500C é que ele não se leva tão a sério.
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