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Estudo com peixe-zebra mostra que o cérebro ensaia interações sociais antes do movimento

Aquário com peixes prateados sobre mesa de laboratório, com microscópio e computador ao fundo.

Imagine que, numa festa, você vê alguém do outro lado do salão e decide ir até lá para puxar conversa. Um novo estudo sugere que, antes mesmo de você dar o primeiro passo, o seu cérebro pode estar “ensaiando” internamente essa sequência de ações.

A pesquisa, feita com peixe-zebra, explora um comportamento natural e crucial observado em todo o reino animal.

De rebanhos de ovelhas e cardumes de peixes a encontros sociais noturnos, aproximar-se de outras pessoas (ou de outros animais) costuma exigir alguma coragem: é preciso avaliar se vale a pena, como fazer isso e quais podem ser as consequências.

Como os cientistas acompanharam o cérebro do peixe-zebra

Para investigar o que acontece antes de uma aproximação social, pesquisadores da Universidade Hebraica de Jerusalém monitoraram a atividade cerebral de peixe-zebra enquanto outros peixes passavam nadando.

O peixe-zebra é muito usado em laboratório como um modelo mais simples para estudar cérebros de outras espécies. Ele é um vertebrado, como nós, e compartilha semelhanças biológicas relevantes.

A assinatura neural que antecede a aproximação social

Os autores observaram que, quando o peixe monitorado decidia se deslocar para se juntar aos seus pares, um padrão claro aparecia: uma explosão identificável de atividade neuronal ocorria antes do avanço.

Esse sinal surgiu no pálio, uma região do cérebro do peixe-zebra associada a comportamentos mais complexos.

Acredita-se que o pálio seja equivalente, em termos funcionais, à amígdala e ao hipocampo no cérebro humano - áreas ligadas ao processamento de emoções, ao armazenamento de memórias e ao uso de contexto, além da avaliação de pistas sociais e emocionais.

"Uma atividade neural distribuída distinta emerge segundos antes dos movimentos de aproximação, caracterizada por aumento de atividade em neurônios do pálio e redução de atividade em populações do mesencéfalo e do rombencéfalo", escrevem os pesquisadores no artigo publicado.

"Essas dinâmicas coordenadas predizem de forma confiável os próximos movimentos de aproximação entre regiões e explicam diferenças individuais no comportamento social."

A chamada assinatura neural era especificamente social: ela não aparecia quando o peixe-zebra se movia para perseguir um ponto em movimento, em vez de outro peixe.

Além disso, as “dinâmicas coordenadas” registradas pela equipa foram mais fortes nos peixes mais sociáveis - aqueles com maior probabilidade de ir atrás de um outro peixe-zebra.

O que acontece ao interferir no pálio

Quando os cientistas usaram lasers para destruir células específicas do pálio ativadas em conjunto com o movimento social, os comportamentos sociais desses peixes cessaram. Isso reforça a importância dessa região cerebral para a aproximação social.

Os pesquisadores também notaram um padrão adicional: interações sociais tendiam a ocorrer com maior frequência quando os dois peixes estavam sincronizados nos movimentos. Ser social, ao que parece, caminha junto com a sincronização motora.

"Este estudo identifica uma assinatura neural em todo o cérebro para a aproximação social que emerge antes de o movimento começar", afirma a neurocientista Lilach Avitan, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

"Essa assinatura prevê não apenas se uma ação futura será social, mas também o quão fortemente o indivíduo é motivado socialmente."

Limites do estudo e o que pode valer para outras espécies

Como essa atividade cerebral foi medida em peixe-zebra, ainda não se sabe se os mesmos processos acontecem em humanos.

Além disso, houve variação individual: alguns peixes do estudo não apresentaram qualquer tipo de movimento social; talvez fossem “introvertidos”.

Ainda assim, considerando o nível de detalhe dos registos cerebrais obtidos e o que já se conhece sobre a biologia do peixe-zebra, há motivos para supor que essas explosões preditivas de atividade neuronal possam ocorrer também em outras espécies e em mamíferos.

Os autores propõem que os resultados podem ajudar a entender por que algumas pessoas são mais sociais do que outras e, mais adiante, orientar formas de apoio a quem tem dificuldade de socializar.

A explosão de atividade observada em determinadas áreas do cérebro do peixe-zebra sugere que exista uma espécie de “acumulação mental” necessária para interações sociais - possivelmente um traço profundamente enraizado ao longo da evolução entre espécies.

O trabalho soma evidências ao conhecimento sobre mecanismos cerebrais ligados ao comportamento social, essencial em muitas dimensões da vida, embora os próprios pesquisadores reconheçam que ainda há muito a explorar.

"Pesquisas futuras são necessárias para revelar como essa distinção neural entre movimentos de aproximação e não aproximação é moldada pelo desenvolvimento, pela experiência social prévia, por neuropeptídeos, pela genética e por estados internos", escrevem os pesquisadores.

"Nosso trabalho estabeleceu uma estrutura robusta para dissecar a contribuição de cada fator no nível funcional neural."

A pesquisa foi publicada na Nature Communications.

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