Big Tobacco nos mostrou que um setor pode seguir lucrando mesmo quando seus produtos estão ligados a milhões de mortes - desde que se proteja financiando estudos contraditórios e semeando dúvida. A pergunta incômoda é se esse roteiro pode estar voltando, agora com Meta, TikTok e outras plataformas.
Em um documento enviado ao governo britânico durante a consulta pública sobre proteção de crianças no ambiente online, a Academy of Medical Royal Colleges - que reúne os 23 colégios e faculdades médicas reais do Reino Unido e da Irlanda - colocou as redes sociais no mesmo nível de preocupação que o tabaco. A comparação é forte de propósito, e funciona exatamente por isso.
Redes sociais e tabaco: por que esse paralelo incomoda tanto?
A escolha da referência à cigarro - e não a qualquer outro risco sanitário - remete ao histórico pesado de uma indústria que, dos anos 1950 aos anos 1990, negou impactos à saúde enquanto as evidências se acumulavam e a regulação demorava a impor limites. E é um espelho difícil de ignorar quando se fala das gigantes de tecnologia, que sabem que seus usuários mais constantes são aqueles fisgados desde muito cedo.
O que os médicos britânicos dizem ver na prática
Na pesquisa citada, mais da metade dos 132 médicos entrevistados afirmou observar, ao menos uma vez por semana, algum caso de prejuízo associado à exposição a telas e dispositivos. Um terço relatou perceber esse tipo de dano várias vezes por semana.
Os problemas descritos vão de traumas psicológicos após o consumo de conteúdos violentos até lesões físicas decorrentes da imitação de práticas extremas assistidas na internet. Depois de um diagnóstico desses, fica difícil continuar tratando o tema como mera divergência de opinião.
Proibir, restringir, ou os dois?
A posição tende a gerar polêmica, mas o tom adotado por profissionais de saúde do Reino Unido aparece num momento em que o cenário legislativo está sob pressão. O país discute um pacote de medidas que pode incluir a proibição de redes sociais para menores de 16 anos, “toques de recolher” digitais, limites de tempo de uso e regras para mecanismos de design embutidos nas plataformas - desenhados para maximizar o engajamento.
O termo “design viciante” já não assusta reguladores ao descrever o conjunto de gatilhos psicológicos colocado na estrutura de um aplicativo para provocar respostas compulsivas. A Austrália já havia cruzado essa linha em 2024, tornando-se o primeiro país a proibir redes sociais para menores de 16 anos, e tudo indica que o Reino Unido quer seguir o mesmo caminho.
Também é verdade que o debate está em ebulição: a controvérsia sobre um vínculo causal entre redes sociais e piora da saúde mental de adolescentes reaparece com frequência na literatura científica.
A Academy of Medical Royal Colleges não afirma ter uma solução pronta para livrar crianças da predação das plataformas, mas faz um alerta direto aos legisladores. Se nada mudar, em breve terá passado a janela em que ainda seria possível agir antes que os danos se tornem irreversíveis e, diferente do tabaco, não haverá como dizer que faltou aviso.
Liz Kendall, Secretária de Estado para Ciência, Inovação e Tecnologia do Reino Unido, disse à BBC News: “Não se trata de saber se vamos intervir, mas quando. Vamos agir, seja por uma proibição pura e simples das redes sociais para menores de 16 anos ou pela limitação de algumas funções essenciais”. E, de fato, seria melhor agir enquanto ainda existem adolescentes capazes de ler um texto com mais de três parágrafos sem se desligar.
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