Há poucos anos, parecia que o caminho estava traçado: várias montadoras anunciavam, com bastante confiança, que teriam gamas 100% elétricas até 2030 (ou muito perto disso). Hoje, a conversa continua a girar em torno da eletrificação - mas já com mais cautela e ajustes pelo caminho.
Na prática, transformar toda a frota em elétrica está a ser mais complicado do que muitos construtores imaginavam. O ponto central é que a procura por carros elétricos não está a crescer no ritmo esperado, o que torna bem menos claro quando (e quão rápido) acontece a viragem total para essa tecnologia.
Nos últimos seis meses, na Europa, o crescimento do mercado de elétricos foi inferior ao crescimento do mercado total (+4,4%), crescendo apenas 1,6% comparativamente com o mesmo período homólogo, segundo dados da ACEA.
Por isso, não surpreende que várias marcas (ou grupos) estejam a recalibrar a estratégia e a olhar com mais atenção para outras soluções - com destaque para as motorizações híbridas.
JLR
A JLR (antiga Jaguar Land Rover) tem planos relevantes de eletrificação em curso, que começam finalmente a ganhar forma. E, olhando apenas para a Jaguar, a ambição é ainda mais elevada, já que a marca britânica anunciou que vai eliminar todos os modelos a combustão do seu catálogo.
Voltando à JLR, apesar de o grupo não ter comunicado que iria desistir da eletrificação total, anunciou ajustes na sua estratégia para os próximos anos.
Com o «arrefecimento» da procura por automóveis elétricos, o grupo integrado na Tata Motors - que inicialmente planeava lançar seis novos modelos elétricos até 2026 - informou, em fevereiro deste ano, que vai reduzir esse número para quatro. Saiba mais:
Volvo
A Volvo mantém a linha da sua estratégia: o futuro da marca será 100% elétrico. No ano passado, Björn Annwall, diretor comercial da Volvo, afirmou que “a partir de 2030 não iria existir um único modelo da marca que não fosse elétrico”. Além disso, a fabricante sueca quer atingir a neutralidade carbónica até 2040.
A Volvo continua centrada na eletrificação, tendo lançado recentemente o EX30 e iniciado a produção do EX90. Ainda assim, Jim Rowan, diretor executivo da marca nórdica, disse que o construtor pode “repensar os híbridos”, sobretudo por questões ligadas à falta de rede de carregamento em alguns mercados, em especial o norte-americano.
Em declarações à Automotive News, Rowan afirmou que este tipo de motorização “pode ser uma ponte sólida para os nossos clientes que não estão prontos para passar para a eletrificação total”.
Mercedes-Benz
A Mercedes-Benz, que apontava para se tornar 100% elétrica até 2030, também já deu sinais de estar a atrasar essa decisão. A marca afirmou que vai “continuar a ter motores de combustão durante a próxima década” e que pretende “oferecer a melhor tecnologia aos seus clientes”.
Na sequência disso, e segundo declarações de Ola Källenius, diretor executivo do Mercedes-Benz Group, à publicação alemã Wirtschaftswoche, a marca alemã aumentou o investimento em motores de combustão.
No entanto, apesar desta aparente mudança de foco, há um objetivo que Källenius não quer mexer: atingir a neutralidade carbónica até 2040.
Porsche
A Mercedes-Benz não é a única alemã a rever planos. Outras fabricantes, como a Porsche, também já se pronunciaram sobre o tema.
A marca de Estugarda, que tinha como meta que em 2030 mais de 80% dos seus carros novos fossem 100% elétricos, já admitiu que esta transição pode “demorar mais tempo do que o previsto”, de acordo com a Automotive News Europe.
General Motors
A General Motors (GM) tinha um dos planos de eletrificação mais ambiciosos da indústria automóvel. Mary Barra, diretora executiva da empresa norte-americana, anunciou no ano passado o objetivo de vender um milhão de elétricos por ano até 2025.
Mas, em janeiro deste ano, Mary Barra reforçou o compromisso da GM em colocar mais modelos híbridos no mercado. E, seis meses depois, anunciou que iria cortar em meio milhão de unidades a sua previsão de vendas de elétricos.
Vale lembrar que, em 2022, a GM e a Honda juntaram-se para criar e produzir “elétricos acessíveis”. Porém, a parceria não avançou como se esperava e foi dissolvida em outubro de 2023.
“Depois de um ano de estudo, decidimos que isto (esta parceria) seria difícil enquanto negócio”, afirmou Toshihiro Mibe, diretor executivo da Honda Motor, citado pela Automotive News.
Ford
No caso da Ford, e segundo o que foi avançado por Marin Gjaja, diretor de operações da divisão Model E, à Autocar, a marca do oval azul já não está a planear deixar de produzir motores de combustão na Europa nos próximos seis anos.
Em vez disso, Gjaja reconheceu que o plano de eletrificação foi “demasiado ambicioso”, reforçando que “estão empenhados em competir agressivamente, independentemente da fonte de energia. Os clientes querem ter a liberdade de escolher o grupo propulsor certo”, explicou.
Aston Martin
A Aston Martin foi uma das primeiras a reagir aos sinais de abrandamento nas vendas de elétricos. Em março deste ano, a construtora britânica anunciou que ia adiar os lançamentos dos seus primeiros 100% elétricos, optando por reforçar a aposta nos híbridos plug-in.
Citado pela Autocar em fevereiro deste ano, Lawrence Stroll, presidente executivo da Aston Martin, afirmou que a “procura dos consumidores não é o que pensávamos há dois anos”.
O «patrão» da marca sediada em Gaydon, no Reino Unido, vê a tecnologia híbrida plug-in não apenas como uma fase de transição, mas também como um investimento para o futuro, prevendo que continue em produção mesmo depois de 2030.
Bentley
A Bentley, por sua vez, também anunciou em março deste ano que iria adiar os lançamentos dos seus primeiros 100% elétricos para 2026-2027, reforçando, por outro lado, a aposta nos híbridos.
Contudo, os motivos que levaram a histórica marca britânica a tomar esta decisão são um pouco diferentes dos exemplos anteriores.
Adrian Hallmark, antigo diretor executivo da Bentley (está a caminho da Aston Martin), justificou o adiamento do primeiro elétrico com problemas técnicos, sobretudo de software, ligados à plataforma PPE do Grupo Volkswagen - o que também provocou atrasos na chegada do Porsche Macan e do Audi Q6 e-tron.
O adiamento do primeiro modelo 100% elétrico obrigou a Bentley a rever todo o plano Beyond 100, que tinha como objetivo final uma gama totalmente elétrica em 2030. O primeiro elétrico deveria chegar em 2025 e seria seguido por mais quatro novos modelos elétricos, ao ritmo de um por ano.
Outros mercados
Não é só na Europa que as marcas estão a ajustar as suas estratégias. Na América do Norte, já são várias as fabricantes a adiar lançamentos totalmente elétricos - e a Volkswagen é uma delas.
A marca alemã adiou o lançamento do ID.7 nos EUA e no Canadá, devido a “alterações na dinâmica de mercado”.
Já na China, o cenário também não parece simples, com algumas marcas a procurarem «fugir» para a Europa.
Fonte: Autocar, Automotive News Europe
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