Há muito tempo o alcatrão de bétula aparece em sítios neandertais como um resíduo preto e pegajoso - quase sempre interpretado como uma espécie de cola pré-histórica usada para manter ferramentas unidas. Só que esse retrato simples pode estar deixando de lado algo relevante.
Um novo estudo da Universidade de Colônia e da Universidade de Oxford indica que a mesma substância que ajudava os neandertais a montar seus instrumentos também pode ter servido para cuidar de feridas.
Ao recriarem alcatrão de bétula com técnicas antigas, os pesquisadores observaram que ele consegue desacelerar o crescimento de bactérias associadas a infecções.
Os resultados não demonstram que os neandertais praticavam medicina. Ainda assim, eles se somam a um conjunto crescente de indícios de que esses humanos antigos foram mais do que caçadores habilidosos - possivelmente também cuidadores pragmáticos, que recorriam aos materiais ao redor para lidar com lesões e doenças.
Alcatrão de bétula aparece por toda parte
O alcatrão de bétula é, ao mesmo tempo, discreto e revelador. Não chama tanta atenção quanto pinturas rupestres ou estatuetas, mas é difícil que surja por acaso.
Para produzi-lo, é preciso aquecer casca de bétula em condições controladas, de modo que ela se decomponha e libere compostos pegajosos - em vez de simplesmente virar cinzas. Isso o coloca numa zona intermediária entre uma substância natural e um produto fabricado.
Arqueólogos já sabem que os neandertais empregavam esse alcatrão como adesivo, fixando partes de ferramentas e viabilizando implementos mais complexos.
Só que uma questão mais ampla vem ganhando força: se os neandertais fabricavam e transportavam alcatrão, faria sentido restringi-lo a uma única finalidade?
Paralelos etnográficos sugerem que não. Povos indígenas no norte da Europa e no Canadá usam alcatrão de bétula há muito tempo para tratar feridas.
Ao mesmo tempo, também vem aumentando a evidência de que os neandertais prestavam mais cuidados e tinham mais práticas de saúde do que se acreditava no passado. Com esses elementos combinados, o alcatrão de bétula passa a parecer um material multifuncional - cola, selante e, talvez, uma forma antiga de primeiros socorros.
Recriando o alcatrão neandertal
Para avaliar o potencial medicinal do alcatrão de bétula, Siemssen e colegas produziram alcatrão a partir de casca de bétula moderna, dando prioridade a espécies registradas em sítios associados a neandertais.
A intenção não era obter “o melhor alcatrão possível” com aparatos modernos de laboratório. O objetivo foi chegar a algo que os neandertais poderiam, de maneira plausível, ter produzido.
A equipe testou diferentes formas de extração, incluindo a destilação do alcatrão em um poço de argila e a condensação do material sobre uma superfície de pedra.
Ambas as técnicas estariam ao alcance dos neandertais - e isso importa porque a química do alcatrão pode mudar conforme a forma de produção. Se a discussão é sobre o que os neandertais poderiam ter usado, o ponto de partida precisa ser o que eles poderiam ter feito.
Um processo bagunçado e cheio de sensações
Os pesquisadores também destacam algo que qualquer pessoa que já tentou tirar resina das mãos entende na hora: produzir isso não é nada limpo.
“Devido à sua bagunça, a produção de alcatrão de bétula merece uma menção especial. Cada etapa da produção é uma experiência sensorial em si, e tirar o alcatrão das nossas mãos depois de passar horas junto ao fogo tem sido um desafio todas as vezes”, explicaram os autores.
Essa observação vai além de reclamar de dedos grudados. Ela aponta para algo fácil de esquecer quando se fala em “tecnologia antiga”.
Não era química estéril. Havia fumaça, calor, cheiros e mãos que permaneciam pegajosas por horas. Uma substância assim seria difícil de ignorar - e, uma vez dominada a técnica, sua presença no cotidiano provavelmente estimularia experimentos.
O que os testes com bactérias mostraram
Depois de obter o alcatrão, o grupo expôs amostras a diferentes cepas de bactérias. De forma consistente, o material atrapalhou o crescimento de bactérias Staphylococcus conhecidas por causar infecções em feridas.
Em outras palavras, não se tratava apenas de uma curiosidade química - ele se comportou como algo capaz de reduzir o risco de infecção quando aplicado sobre pele lesionada.
Essa constatação faz duas coisas ao mesmo tempo: dá respaldo a práticas medicinais indígenas que usam alcatrão de bétula em feridas e reforça a possibilidade de que neandertais tenham percebido o mesmo efeito.
Mesmo sem entender microrganismos, as pessoas observam resultados. Se determinadas substâncias levam a menos inchaço em cortes, menos pus ou cicatrização mais rápida, esse conhecimento tende a se espalhar.
“Nós descobrimos que o alcatrão de bétula produzido por neandertais e humanos antigos tinha propriedades antibacterianas”, escreveram os autores.
“Isso tem implicações importantes para como os neandertais podem ter mitigado a carga de doenças durante as últimas Eras do Gelo e se soma à evidência crescente de cuidados de saúde nessas comunidades humanas antigas.”
A formulação mantém espaço para incertezas, mas a ideia central é direta: se os neandertais conseguiam produzir e usar materiais antibacterianos, a sobrevivência deles provavelmente envolvia algum controle básico de infecções - não apenas habilidade de caça e resistência física.
Medicina, cola ou algo entre as duas
Uma das partes mais interessantes desse quadro é que o alcatrão de bétula não precisa ser rotulado como “medicina” ou “adesivo”, como se fossem gavetas separadas. Um material de múltiplos usos tende a ser aplicado onde for útil.
Se há um alcatrão pegajoso no acampamento para consertar ferramentas e, ao mesmo tempo, alguém com um corte que insiste em reabrir, não é um grande salto tentar colocar a substância na pele - sobretudo se ela também forma uma camada protetora.
O estudo ainda lembra outras funções possíveis para o alcatrão de bétula, como repelente de insetos. Isso importa porque reforça que não devemos presumir comportamentos de uso único. Pessoas - especialmente em ambientes exigentes - costumam extrair valor de tudo o que funciona.
Também existe uma ideia maior ao fundo: além da bétula, os neandertais tinham acesso a muitas outras plantas e materiais naturais.
O alcatrão de bétula pode ser apenas um exemplo visível de um “kit” mais amplo de remédios naturais - parte do qual talvez nunca apareça com clareza no registro arqueológico por não se conservar bem.
Lições para além dos neandertais
O artigo enquadra esse trabalho dentro de um campo em expansão, por vezes chamado de paleofarmacologia, que busca reconstituir práticas medicinais antigas ao combinar arqueologia experimental com conhecimentos de etnobotânica e farmacologia.
“Ao reunir pesquisas sobre farmacologia indígena e arqueologia experimental, começamos a entender as práticas medicinais de nossos ancestrais humanos distantes e de seus parentes mais próximos”, disseram os autores.
“Além disso, este estudo de ‘paleofarmacologia’ pode contribuir para a redescoberta de remédios antibióticos enquanto enfrentamos uma crise cada vez mais urgente de resistência antimicrobiana.”
Esse último ponto toca numa preocupação atual: a resistência a antibióticos. Os pesquisadores não sugerem substituir hospitais por fogueiras com casca de bétula. O que eles destacam é que o mundo natural contém compostos com efeito antimicrobiano - e que humanos vêm experimentando esses compostos há muito tempo.
Observar práticas antigas com cuidado pode, às vezes, abrir novas perguntas sobre remédios tradicionais, especialmente num momento em que a medicina moderna busca estratégias inéditas.
Um neandertal mais humano
Se há um fio discreto atravessando este estudo, é o de tornar os neandertais menos caricatos e mais parecidos com pessoas. Pessoas se machucam e têm infecções. Pessoas procuram o que ajuda.
Se os neandertais usavam alcatrão de bétula para manter uma ferramenta inteira, isso já indica planejamento e competência técnica. Se também o aplicavam para proteger feridas, isso sugere outra coisa: atenção à saúde, ao conforto e à sobrevivência dos membros do grupo ao longo do tempo.
O estudo não afirma ter decifrado a medicina neandertal de uma vez. Mas direciona a discussão com clareza.
O alcatrão de bétula não era apenas um resíduo pegajoso em ferramentas antigas. Ele pode ter integrado um conhecimento prático mais amplo sobre como atravessar frio, lesões e doenças - um experimento por vez, sempre com fumaça, bagunça e uma aderência teimosa.
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