Visitas regulares a cinemas, museus e teatros estão associadas a um envelhecimento biológico mais lento: adultos mais velhos que mantêm esse tipo de hábito chegam a parecer cerca de três anos mais jovens do que pessoas da mesma faixa etária com pouca participação cultural. Ao estimarem o quanto o organismo de cada participante estava, de fato, “desgastado”, os pesquisadores observaram que a frequência de atividades culturais se relacionava a uma idade fisiológica menor.
A idade fisiológica costuma antecipar melhor o risco de doença e de morte do que o simples número de anos desde o nascimento. Por isso, iniciativas capazes de atrasar o envelhecimento fisiológico têm especial valor.
O mais interessante é que se trata de práticas comuns e, para muita gente, acessíveis: ir ao cinema, visitar uma galeria ou assistir a um concerto.
Medindo a idade do corpo
O conceito de idade fisiológica parte de uma constatação simples: duas pessoas que nasceram no mesmo dia podem apresentar níveis de saúde muito diferentes. Cada corpo envelhece no seu próprio ritmo.
Assim, alguém com 70 anos pode ter artérias, pulmões e músculos comparáveis aos de uma pessoa dez anos mais nova, enquanto outra pessoa da mesma idade pode apresentar um desgaste bem acima do esperado para a sua faixa etária.
Para investigar essa diferença, a equipe recorreu ao Estudo Longitudinal Inglês do Envelhecimento, que acompanha desde 2002 adultos com 50 anos ou mais na Inglaterra.
Com base em visitas de enfermagem realizadas em três rodadas do levantamento, entre 2004 e 2009, os pesquisadores extraíram dez medidas corporais e as combinaram em uma única estimativa de idade.
Um relógio mais jovem
Entre os indicadores analisados estavam a pressão arterial e a rigidez das artérias, a força com que os pulmões esvaziam o ar, a glicemia e o colesterol, a massa corporal, a força de preensão e a velocidade de caminhada.
Como cada um desses parâmetros tende a se alterar de forma previsível com o avanço da idade, o conjunto oferece uma leitura mais completa do que qualquer teste isolado.
O professor Yusuke Matsuyama, do Instituto de Ciência de Tóquio (Ciência Tóquio), e seus colegas compararam essa “leitura” com o nível de participação cultural de cada pessoa - e o contraste foi nítido.
Quem saía para esse tipo de programa a cada poucos meses ou com maior frequência apresentou idade fisiológica média próxima de 67, enquanto, entre os que quase nunca iam, a média ficou em torno de 70. Na comparação direta, isso representou uma diferença bruta de aproximadamente três anos.
Eliminando o ruído
Uma distância de três anos chama atenção, mas existe uma ressalva importante. Em geral, quem vai a galerias e concertos tende a ter maior renda, melhor saúde e mais mobilidade desde o início.
Parte da diferença, portanto, pode refletir o perfil de quem consegue participar dessas atividades - e não, necessariamente, um efeito das saídas em si. Para se aproximar mais da causalidade, a equipe de Matsuyama aplicou um método que ainda não havia sido usado nessa questão.
Em vez de comparar pessoas diferentes entre si, uma análise de efeitos fixos acompanha os mesmos indivíduos ao longo do tempo e pergunta se a idade fisiológica muda quando os próprios hábitos culturais dessa pessoa mudam.
Esse desenho ajuda a controlar características que não variam com o tempo, como genética e condições da infância.
Benefícios que persistem
O que sobra, então, é a associação dentro do próprio indivíduo entre sair para atividades culturais e a idade estimada do corpo. Mesmo sob esse critério mais rigoroso, a relação permaneceu.
Os participantes com maior engajamento cultural apresentaram idades fisiológicas pouco mais de um ano mais baixas do que os menos engajados.
O efeito aparece menor porque o método captura mudanças ao longo do tempo. Ao olhar adiante, os pesquisadores também observaram que o nível de participação cultural de uma pessoa se relacionava com sua idade fisiológica quatro anos depois.
A cultura pode influenciar o envelhecimento
Não é óbvio por que ficar sentado em um teatro deixaria um traço mensurável no corpo, e o estudo não consegue comprovar a causa.
Ainda assim, os autores descrevem alguns caminhos plausíveis, sustentados por pesquisas anteriores. Sair de casa com frequência costuma envolver interação social. Em um estudo separado com adultos no Reino Unido, a prática cultural frequente foi associada a menor risco de solidão dez anos depois.
O isolamento está entre os preditores mais consistentes de pior saúde na velhice. Além disso, passeios culturais podem empurrar as pessoas para rotinas mais saudáveis.
Trabalhos em bairros de menor renda identificaram que participantes de atividades artísticas tinham maior probabilidade de se alimentar bem e manter atividade física. Esses hábitos, por sua vez, influenciam pressão arterial e peso. O humor também pode ter um papel.
Saúde mental e idade
O engajamento cultural já foi associado a taxas menores de depressão e de sofrimento psicológico.
Acredita-se que o estresse prolongado acelere o envelhecimento fisiológico ao sobrecarregar os sistemas imunológico e hormonal.
Um estudo acompanhou adultos mais velhos por dez anos e encontrou que visitar museus, concertos ou o teatro uma ou duas vezes por ano se associou a menor risco de depressão.
Essa relação protetora ficou mais forte conforme aumentava a frequência. Nada disso elimina a explicação mais simples: pessoas mais saudáveis podem ter mais facilidade para sair de casa.
O desenho com efeitos fixos reduz essa lacuna sem eliminá-la, e os autores são cuidadosos ao afirmar que a relação pode funcionar nos dois sentidos.
O panorama maior
A contribuição deste trabalho é oferecer uma linha de evidência mais “limpa”. Pesquisas anteriores, usando o mesmo levantamento inglês, já haviam ligado as artes a uma maior longevidade.
Em uma análise de 14 anos, pessoas que participavam de atividades culturais - mesmo que raramente - tiveram menor probabilidade de morrer durante o acompanhamento.
As atividades culturais podem ajudar a desacelerar o envelhecimento biológico, mesmo depois de os pesquisadores levarem em conta características pessoais estáveis. Como o engajamento cultural pode variar ao longo do tempo, ele se torna um alvo prático e viável para intervenções em saúde pública.
Ingressos mais baratos, melhor transporte até os locais e programas comunitários para idosos isolados poderiam ampliar o acesso. Os pesquisadores estimam que os benefícios podem se aproximar daqueles associados à prática regular de atividade física.
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