Se você mora em qualquer lugar do Oeste das Montanhas Rochosas, provavelmente pensou a mesma coisa neste inverno: cadê a neve?
Uma estação mais quente e com pouca neve não só deixa as reservas de água da primavera com cara de incerteza. Um novo estudo indica que isso também pode tornar os incêndios florestais do verão mais severos - não apenas mais frequentes ou mais longos.
Pesquisadores da Western Colorado University analisaram 36 anos de dados de manto de neve e de incêndios florestais em florestas do oeste dos EUA.
A conclusão central é simples, mas pouco animadora: o manto de neve não influencia apenas quando a temporada de incêndios começa; ele também influencia o quão intensamente o fogo queima quando acontece.
Dois problemas diferentes do manto de neve
O estudo separa dois sinais ligados à neve que muitas vezes são tratados como se fossem a mesma coisa.
O primeiro é o derretimento antecipado. Quando a neve some mais cedo, as florestas secam mais cedo, e a temporada de incêndios tende a começar antes. Esse início adiantado também costuma significar mais área total queimada, porque a “janela” para o fogo fica simplesmente maior.
O segundo é quanta água o manto de neve realmente armazena - o conteúdo de água do manto de neve (ou equivalente em água da neve). Em termos práticos, é a “água estocada” presa na neve do inverno. E o estudo constatou que esse segundo fator está fortemente ligado à severidade do fogo.
“Snowpack acts as a kind of seasonal water savings account for forests,” disse o principal autor do estudo, Dr. Jared Balik.
“When that account runs low, soils dry out earlier, vegetation loses moisture, and forests become more vulnerable to severe fire.”
O que significa, de fato, maior severidade
Uma temporada de incêndios mais longa já é ruim por si só. Mas é na severidade que os danos tendem a se acumular no longo prazo.
Quando incêndios florestais queimam com alta severidade, eles derrubam mais árvores, afetam os solos com mais força e podem empurrar ecossistemas para além de um ponto de recuperação.
O artigo observa que incêndios severos podem iniciar uma sequência de problemas depois do fogo: enchentes, fluxos de detritos e erosão. E, num clima mais quente e mais seco, florestas queimadas de forma severa podem ter maior chance de se transformar em áreas de arbustos ou campos de gramíneas, em vez de voltarem a crescer como floresta.
Ou seja, não é só “mais fumaça neste ano”. É “a paisagem pode não voltar a ser a mesma”.
O padrão se manteve ao longo de décadas
Balik e seus colegas examinaram dados de 1985 a 2021 em bacias hidrográficas de florestas do oeste e encontraram uma relação consistente: anos com pouco manto de neve tendiam a registrar maior severidade de queima.
Isso é especialmente desconfortável porque, neste momento, praticamente todas as bacias fluviais do Oeste estão lidando com manto de neve baixo.
O estudo destaca bacias hidrográficas do sudoeste, como as do Rio Grande e da bacia do Rio Colorado, como áreas em que as quedas de longo prazo do manto de neve foram particularmente fortes - o que faz o alerta parecer menos teórico e mais imediato.
Os pesquisadores também mencionam como padrões climáticos de grande escala, como El Niño e La Niña, podem elevar ou reduzir o manto de neve dependendo da região e, depois, influenciar a temporada de incêndios que vem na sequência.
Mas a história maior continua sendo a mesma que muita gente já está percebendo a olho nu: os invernos estão ficando mais quentes, os mantos de neve estão encolhendo, o derretimento está acontecendo mais cedo, e o Oeste está sendo empurrado para incêndios de maior severidade.
O manto de neve como sinal de alerta precoce
Uma das ideias mais práticas do estudo é que as condições do manto de neve no inverno podem funcionar como uma espécie de pista, ainda no começo do ano, sobre o risco de severidade dos incêndios.
Isso importa porque gestores e equipes de manejo precisam tomar decisões com meses de antecedência - por exemplo, onde priorizar desbastes, onde queimadas prescritas podem ajudar, como posicionar equipes e equipamentos, e quais comunidades podem precisar de preparação extra.
“As snowpack continues its long-term decline, we should expect not just more fire, but more severe fire,” disse o coautor Jonathan Coop.
Ele defende que compreender essas conexões ajuda órgãos e agências a se planejarem com antecedência e reforça o valor de intervenções como o fogo prescrito, que pode reduzir os impactos de incêndios florestais.
A primavera ainda faz diferença
Mesmo com tudo isso, os pesquisadores não estão dizendo que o verão está condenado, aconteça o que acontecer. Balik destacou que o cenário ainda pode mudar.
“It's only March, and a wet spring could still make a lot of difference,” disse ele.
Uma primavera chuvosa pode retardar o ressecamento, aumentar a umidade dos combustíveis e reduzir parte da intensidade do comportamento do fogo no começo da temporada.
Ainda assim, a mensagem mais ampla do estudo é difícil de ignorar: quando o manto de neve é pequeno, as florestas perdem seu “amortecedor de água”, e o sistema fica muito mais pronto para incêndios que queimam mais quente, matam mais e deixam cicatrizes mais duradouras.
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