O que aconteceria se o peixe no seu prato trouxesse resíduos “escondidos” de remédios vindos de rios poluídos? Parece improvável à primeira vista, mas cientistas reuniram evidências claras de que isso está a ocorrer.
Uma investigação do Centro de Energia Nuclear na Agricultura, da Universidade de São Paulo, indica que antibióticos estão a chegar aos rios, permanecem no ambiente e podem, inclusive, alcançar os peixes.
Com apoio da FAPESP, a equipa liderada por Patrícia Alexandre Evangelista analisou o Rio Piracicaba, no Brasil. Além de mapear a contaminação, o estudo também avaliou alternativas naturais para diminuir o problema.
Como os antibióticos chegam aos rios
A entrada de antibióticos nos cursos d’água ocorre por várias vias: esgoto doméstico, pecuária, aquicultura e descarte inadequado de medicamentos.
Uma parcela expressiva dessas substâncias nem sequer é degradada no organismo. Estima-se que cerca de 40% a 90% possa ser eliminada sem alterações, indo diretamente para os sistemas hídricos.
O consumo mundial de antibióticos também cresce rapidamente. O uso em humanos aumentou de forma acentuada nas últimas décadas, e a criação animal utiliza grandes quantidades, sobretudo na suinocultura e na avicultura.
Como o tratamento de esgoto não consegue remover totalmente esses compostos, antibióticos continuam presentes em rios, lagos e até na água destinada ao consumo.
Mudanças sazonais agravam a contaminação
Para compreender a variação ao longo do ano, os pesquisadores recolheram amostras tanto no período chuvoso quanto no período seco.
“Os resultados mostraram um padrão claro de sazonalidade. Durante o período chuvoso, a maioria dos antibióticos apresentou concentrações abaixo dos limites de detecção”, disse Evangelista.
“No período seco, porém, quando o volume de água diminui e os contaminantes se concentram, diferentes compostos foram detectados.”
Quando a vazão do rio cai na estiagem, há menos água para diluir os poluentes. Com isso, as concentrações aumentam e a deteção torna-se mais frequente.
O sedimento guarda poluição invisível
Os antibióticos não ficam apenas dissolvidos na água: parte deles deposita-se no sedimento do rio, que funciona como um reservatório.
O estudo mostrou que o sedimento, por conter matéria orgânica e nutrientes, favorece a retenção desses compostos. Com o tempo, essas substâncias podem voltar para a coluna d’água, sustentando uma contaminação prolongada.
Na prática, mesmo que a fonte de poluição seja interrompida, resíduos antigos podem continuar a impactar o ecossistema.
Antibióticos perigosos encontrados em peixes
Um dos achados mais preocupantes envolveu peixes lambari, consumidos com frequência na região.
“Um dos achados mais significativos do estudo foi a detecção de cloranfenicol em peixes lambari (Astyanax sp.) coletados de pescadores locais na região de Barra Bonita”, disse Evangelista.
“O cloranfenicol é um antibiótico cujo uso em animais de produção é proibido no Brasil precisamente devido aos riscos associados à sua toxicidade.”
A identificação desse antibiótico proibido reforça preocupações com a segurança alimentar e com possíveis efeitos sobre a saúde humana.
Como as plantas podem ajudar a limpar a água
Os cientistas testaram uma planta flutuante chamada Salvinia auriculata para verificar a sua capacidade de remover antibióticos da água - um método conhecido como fitorremediação.
“Os resultados mostraram a alta eficiência da Salvinia na remoção de enrofloxacina. Em tratamentos com maior biomassa vegetal, mais de 95% do antibiótico foi removido da água em poucos dias”, observaram os pesquisadores.
“A meia-vida do composto caiu para cerca de dois a três dias. No caso do cloranfenicol, a remoção foi mais lenta e parcial. A planta conseguiu remover 30% a 45% do antibiótico da água, com meias-vidas variando de 16 a 20 dias, indicando a maior persistência do composto no ambiente.”
As plantas podem melhorar a qualidade da água por diferentes mecanismos: as raízes absorvem compostos, microrganismos próximos às raízes ajudam a degradá-los e o próprio vegetal pode armazenar ou transformar essas substâncias.
Peixes absorvem antibióticos de formas complexas
Os dados indicam que, dentro do organismo dos peixes, os antibióticos não se comportam da mesma maneira. O cloranfenicol tende a permanecer por mais tempo nos tecidos e pode acumular-se; a enrofloxacina, por outro lado, é eliminada mais rapidamente.
Os ensaios também apontaram que a exposição não ocorre apenas pela água. O alimento pode ser outra via importante, e alguns fármacos podem migrar da ração para a água em questão de minutos, tornando a dinâmica de contacto ainda mais complexa.
“Isso mostra que usar plantas como ‘esponjas’ para contaminantes não é algo trivial. A presença da macrófita altera todo o sistema, incluindo a forma como o organismo entra em contacto com o contaminante”, disse Evangelista.
Efeitos na saúde dos peixes e no DNA
A equipa avaliou ainda sinais de dano genético nos peixes. O cloranfenicol provocou danos evidentes ao DNA, incluindo alterações em células do sangue.
Em determinadas condições, a presença da planta atenuou esses efeitos.
“A interpretação que propomos é que, no caso do cloranfenicol, a planta pode gerar menos subprodutos genotóxicos ou liberar compostos antioxidantes na rizosfera, reduzindo o estresse oxidativo nos peixes”, observaram os pesquisadores.
“Por outro lado, a enrofloxacina é quimicamente mais estável e pode produzir metabólitos persistentes e potencialmente tóxicos cuja ação não é neutralizada pela macrófita.”
Isso sugere que a proteção oferecida pelas plantas pode existir, mas não se manifesta da mesma forma para todos os antibióticos.
Uma solução com limites
A Salvinia auriculata demonstrou potencial como alternativa de baixo custo. Ela consegue remover uma fração elevada de antibióticos da água e reduzir certos impactos negativos.
Ainda assim, não se trata de uma resposta definitiva. Caso a planta não seja retirada após acumular poluentes, há risco de que eles sejam devolvidos ao ambiente. Além disso, a macrófita pode alterar o comportamento dos antibióticos, em alguns cenários acelerando a absorção pelos peixes.
A contaminação por antibióticos vai além de um problema ambiental: também envolve riscos para a saúde pública.
“A detecção de resíduos de antibióticos na água, nos sedimentos e nos peixes do Rio Piracicaba mostra o quão prejudiciais podem ser as atividades humanas. A resistência de microrganismos a antibióticos pode levar ao surgimento de superbactérias no ambiente”, disse o coautor do estudo Valdemar Luiz Tornisielo.
“A pesquisa obteve resultados positivos com soluções ambientais de baixo custo e permitiu um melhor entendimento do funcionamento integrado dos ecossistemas aquáticos e do uso de técnicas naturais eficazes para mitigação de impactos.”
O estudo indica que a poluição é real e está a aumentar. Melhor gestão de resíduos, uso responsável de medicamentos e estratégias naturais podem ajudar a proteger rios, animais e pessoas.
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