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Estudo com 214,000 idosos em 14 países revela que os fatores de risco de demência variam por local

Grupo de idosos reunidos em mesa com imagens digitais de mapa-múndi flutuando ao centro.

Um estudo com mais de 214,000 pessoas idosas em 14 países mostrou que os fatores de risco evitáveis por trás da demência mudam bastante conforme o lugar onde alguém vive.

Na China, a baixa escolaridade pesa sobre a maioria dos idosos, enquanto nos Estados Unidos ela atinge pouco mais de uma em cada dez pessoas.

Isso torna mais complexa uma ideia antiga em pesquisas sobre demência: a de que as recomendações de prevenção, em geral definidas em países ocidentais ricos, serviriam de forma direta para o restante do mundo.

Se os principais riscos não são os mesmos em todos os lugares, as estratégias para reduzi-los também podem precisar ser diferentes.

Um ponto cego global

Quase tudo o que a ciência sabe sobre como prevenir demência vem de um grupo restrito de locais de alta renda - sobretudo Estados Unidos, Reino Unido e Europa Ocidental.

Enquanto isso, grande parte do planeta foi pouco investigada. E, em larga escala, ainda não se sabia se essas mesmas lições se confirmiriam em outros contextos, em grande parte porque faltavam dados realmente comparáveis.

Emma Nichols, cientista pesquisadora da Universidade do Sul da Califórnia (USC), no Instituto Schaeffer, buscou reduzir essa lacuna.

Para isso, Nichols colaborou com pesquisadores da Universidade Brown e da Universidade Johns Hopkins.

O grupo examinou informações do projeto Portal para Dados Globais do Envelhecimento.

Essa iniciativa harmoniza pesquisas nacionais de longa duração para que respostas de países diferentes possam ser comparadas diretamente.

Um conjunto de dados mundial

Ao reunir as bases, os autores cobriram mais de 214,000 idosos de 14 países e regiões, com dados coletados entre 2009 e 2023.

A amostra foi além da lista usual de nações ricas, incluindo grandes áreas da Ásia, da América Latina e regiões europeias tanto mais abastadas quanto menos favorecidas.

Os pesquisadores avaliaram cada participante quanto a 12 fatores de risco modificáveis descritos em um relatório de referência de 2024.

Entre eles estavam perda auditiva, depressão, inatividade física e isolamento social.

O relatório estimou que enfrentar todos os 12 fatores de risco poderia prevenir ou adiar quase metade dos casos de demência no mundo.

Países diferentes, riscos diferentes

As diferenças entre locais foram marcantes. A baixa escolaridade, um dos determinantes mais precoces e fortes associados à demência em idade avançada, aparecia em cerca de 86% dos idosos na China, mas em apenas aproximadamente 12% nos Estados Unidos.

Essa distância reflete, na prática, um recorte histórico. Os chineses avaliados cresceram em um período em que estudar além de poucos anos era incomum.

Já os participantes norte-americanos, em sua maioria, permaneceram muito mais tempo na escola - e essas disparidades iniciais provavelmente se prolongam e se manifestam na velhice.

O peso corporal seguiu a direção oposta. Quase 45% dos idosos nos Estados Unidos tinham excesso de peso suficiente para ser considerado um risco, medido pelo índice de massa corporal, enquanto na Índia essa proporção ficou em torno de 13%.

Cada fator desenhava uma narrativa geográfica própria. Tabagismo, pressão arterial e perda auditiva variavam bastante de um país para outro, o que reforça que nenhuma mensagem única de prevenção atende todas as populações com a mesma eficácia.

Padrões compartilhados além das fronteiras

O que surpreendeu o grupo não foi a existência de variação, mas a organização interna por trás dela. A equipe acompanhou como os fatores de risco tendiam a coexistir dentro de uma mesma pessoa.

Mesmo em sociedades muito diferentes entre si, os mesmos agrupamentos voltavam a aparecer.

Riscos cardiovasculares caminhavam juntos: colesterol alto frequentemente surgia ao lado de pressão alta.

Comportamentos de maior risco também seguiam um padrão parecido, com tabagismo e consumo excessivo de álcool aparecendo com frequência no mesmo perfil. Um terceiro bloco unia desafios sociais e sensoriais, conectando isolamento social e perda auditiva.

Um novo olhar para a prevenção da demência

“Fiquei menos surpresa com as diferenças e mais surpresa com algumas semelhanças, particularmente na forma como esses riscos se organizam em diferentes cenários”, disse Nichols.

O fato de os riscos se agruparem dessa maneira sugere que a biologia e os hábitos ligados a eles podem ser mais consistentes do que as diferenças entre países, isoladamente, fazem parecer.

Essa estabilidade traz uma vantagem prática. Em vez de tentar reduzir cada fator um a um, os países poderiam criar programas de prevenção voltados a conjuntos inteiros de riscos que tendem a ocorrer em conjunto.

Colesterol alto e pressão alta, por exemplo, costumam representar um problema ligado e, por isso, fazem mais sentido quando tratados de forma integrada.

O risco de demência não é pré-determinado

A importância do tema cresce ano após ano. Segundo uma análise, a quantidade de adultos vivendo com demência no mundo deve quase triplicar até 2050.

A expectativa é que os casos aumentem de cerca de 57 milhões para mais de 150 milhões, com o crescimento mais intenso concentrado em regiões de menor renda.

São exatamente os locais que este estudo conseguiu incluir e que trabalhos anteriores haviam deixado de lado. Quando se conhecem os números locais, a conta muda.

Saber quais riscos predominam na China, na Índia ou no Brasil permite que gestores de saúde concentrem recursos limitados onde o impacto tende a ser maior - em vez de simplesmente importar um plano desenhado para outra realidade.

No nível individual, os resultados trazem um tom encorajador. “O risco para esses desfechos na velhice não é pré-determinado”, afirmou Nichols.

Ela destacou que as pessoas podem influenciar o próprio risco, mesmo quando forças sociais mais amplas também moldam esse quadro.

O futuro da prevenção da demência

Há pesquisadores que defendem ampliar a própria lista de fatores acompanhados. Um artigo recente argumentou que pobreza, desigualdade de renda e perdas repentinas de patrimônio deveriam entrar entre os riscos monitorados em países mais pobres.

Nesses contextos, esses elementos podem pesar sobre a saúde tanto quanto pressão arterial ou alimentação.

A equipe da USC já está expandindo a pesquisa, incorporando riscos mais recentes, como sono ruim, e agregando novos dados do Quênia e do Egito.

O que o estudo deixa claro é que o mapa do risco de demência é realmente local, embora padrões mais profundos se repitam de um país para outro.

Com evidências para sustentar os dois pontos, a prevenção pode avançar ao mesmo tempo respeitando especificidades de cada população e aproveitando os agrupamentos de riscos compartilhados.

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