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Jorge Jesus, novo selecionador nacional, mira o Mundial de 2030 em Portugal

Treinador analisa tática de futebol em campo usando quadro transparente com peças magnéticas coloridas.

Jorge Jesus, recém-anunciado como novo selecionador nacional, contou como vem se preparando para assumir a função, adiantou que não pretende mexer muito na primeira lista de convocados e voltou a frisar um princípio que considera inegociável nas suas equipes: "Se você não defende bem, pode ganhar jogos, mas nunca títulos".

Em entrevista longa ao Canal 11, da Federação Portuguesa de Futebol, o treinador afirmou que "não se ganham jogos só dentro do campo" e explicou que já começou a organizar alguns pontos do trabalho, mesmo sem ter conversado "com nenhum" jogador até aqui.

Ele destacou, porém, que 12 dos jogadores que estiveram no último Mundial já foram comandados por ele, o que vê como "uma grande vantagem". "Já se passaram alguns anos, mas eles conhecem as minhas características", disse, reconhecendo mais adiante que as pessoas também mudam.

"Os anos vão nos moldando. Hoje eu não sou o mesmo Jorge Jesus aos 40 anos. Hoje sou mais tolerante e mais reflexivo, em determinados momentos, entre jogador e treinador. Isso é normal", afirmou, reforçando que o que vem sempre em primeiro lugar é a equipe.

Preparação de Jorge Jesus para a seleção e o "preço a pagar"

O técnico também esclareceu o que quis dizer com a expressão "o preço a pagar", usada na apresentação. "É deixar de fazer o que você gostava de fazer em relação ao que favorece a equipe. O jeito de pensar é o mesmo na seleção ou nos clubes. Depois uns ficam com mais ou menos azia".

Para além de questões técnicas e táticas, Jorge Jesus disse considerar essencial que o grupo esteja unido, ainda que nem todos tenham o mesmo peso dentro do coletivo. "Para você ganhar e ter uma equipe forte, precisa de uma equipe com caráter e amiga. Que entenda que não dá para jogar todo mundo ao mesmo tempo. Mas uns são mais importantes do que outros? São, é verdade. Em todas as equipes é assim".

Segundo ele, esse "caráter" é "muito importante" e só aparece quando a equipe está coesa e não coloca objetivos individuais acima do que é melhor para o coletivo.

Ideia de jogo: saber defender sem ser defensivo

Na sequência, o selecionador nacional, de 71 anos, afirmou que a base da sua ideia de jogo passa por saber defender - sem necessariamente adotar uma postura defensiva - e elogiou o comportamento da Espanha no jogo contra a França. "Quem ganhou? A Espanha, porque soube defender melhor. Eu tento sempre passar isso aos meus jogadores: para conquistar títulos, é preciso saber defender bem. Se você não defende bem, pode ganhar jogos, mas nunca títulos", comentou, acrescentando: "Eu não ensino a jogar, mas a ter a ideia da equipe. Isso para mim é fundamental".

Jorge Jesus ainda garantiu que não pretende se prender a "um sistema" no qual perceba "que as características dos jogadores não são essas". Também reforçou que o melhor meio-campo não se mede apenas pela qualidade individual e que, sob essa ótica, as alternativas podem até diminuir para a configuração de dois homens no setor, algo mais comum nas suas equipes.

Sobre desempenho, ele foi direto: será preciso render mais. "Se a seleção não jogar mais do que no Mundial, eu não vou fazer melhor. A gente tem que jogar mais, porque senão continuamos todos alimentando um sonho de vários anos: temos grandes jogadores, mas nunca ganhamos grandes coisas. Já fomos campeões europeus, isso já é ganhar, mas foi há 10 anos. Já ganhamos duas Ligas das Nações. É uma competição que não é a mais importante, mas é a mais difícil, porque é onde as melhores seleções europeias vão chegar sempre à decisão. A diferença que faz do Campeonato do Mundo para a Europa é a Argentina e o Brasil".

Jorge Jesus tem "grande foco" no Mundial em Portugal

Para ele, a qualidade dos jogadores e o nível dos clubes onde atuam "não dão garantia, mas dão confiança" para acreditar que Portugal tem todas as condições de vencer o Mundial e o Euro - e apontou um objetivo pessoal que pesou na decisão de aceitar o projeto.

"O grande foco é o Mundial de 2030 em Portugal. Tenho orgulho de ser selecionador do meu país, mas também havia esse foco no horizonte, de sonhar com essa possibilidade. Nas equipes em que eu trabalho, normalmente não tenho outra saída. O clube exige que seja assim. E a seleção é a mesma coisa: exige que, onde você esteja, você seja vencedor. Se vai ser ou não, isso é diferente. É o jogo".

Calendário, convocação inicial e regras internas do grupo

Com os primeiros compromissos se aproximando, o novo calendário da Liga das Nações foi avaliado por ele como até favorável. "Vamos fazer quatro ou cinco jogos seguidos, isso para mim ajuda. Esses quatro ou cinco jogos me dão 15 dias para compartilhar com eles".

Sobre a primeira convocação, deixou a garantia de que "o selecionador não vai mudar 'n' jogadores" e falou sobre o tema dos estatutos dentro do elenco. "Os jogadores têm que ter regras iguais, mas há jogadores que precisam ter estatutos diferentes. E os colegas têm que saber que há jogadores diferentes pelo passado, pela importância que têm para as equipes".

Mesmo assim, reforçou que só vai colocá-los "para jogar se estiverem a 100%". Também avaliou que o fato de ter passado por vários clubes portugueses pode ajudar numa maior "aproximação do povo ao selecionador" e afirmou ter "mais certezas do que dúvidas".

Ainda sobre estrutura de trabalho, disse considerar relevante ter um ex-jogador na comissão técnica, algo na linha do que costuma fazer nos clubes por onde passou. "A ideia é essa: encontrar alguém que tenha sido jogador da seleção, que possa fazer parte da minha comissão técnica e seja importante para a qualidade da comissão. Normalmente eu não vou buscar para ficar do meu lado e ir colocar os pinos no campo".

O nervosismo, segundo ele, seguirá presente e faz parte do seu jeito. "No dia em que eu não tiver, é porque alguma coisa está errada. Se a minha paixão e o meu amor pelo jogo não estiverem iguais, aí eu já não serei treinador [risos]".

Apesar da experiência, Jorge Jesus disse não acreditar que saiba tudo. "O futebol está sempre evoluindo. No futebol não há direitos autorais; se tivesse, seria complicado para alguns treinadores. Alguns são criadores e outros copiam", afirmou, mencionando que os "time-outs", se vierem para ficar, serão um desses exemplos.

Por fim, explicou que vem se preparando nos últimos anos para ser selecionador e que, na última passagem pela Arábia Saudita, esse caminho chegou a estar em vista, mas ele acabou voltando ao Al Hilal. Pouco depois, surgiu o convite do Brasil. "Eu pensei que o meu futuro tinha que ser uma seleção, e se fosse a portuguesa, seria a cereja do bolo", concluiu.

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