Quando se fala em colesterol alto, é comum associar o problema, de imediato, ao consumo de comidas gordurosas. Porém, a dieta é só uma parte da história: herança familiar, diabetes, falta de atividade física, excesso de peso e até o avanço da idade também aumentam de forma direta a chance de alterações no colesterol e, por consequência, de doenças cardiovasculares.
De acordo com a Federação Mundial do Coração, o colesterol elevado está ligado a 3,6 milhões de mortes por ano. Isso o coloca como o terceiro principal fator de risco modificável para essas doenças, atrás apenas da hipertensão arterial e dos riscos alimentares. Entre os desfechos mais graves, estão o infarto e o acidente vascular cerebral (AVC).
Neste 8 de agosto, data do Dia Nacional e Mundial de Combate ao Colesterol, o endocrinologista Ramon Marcelino, doutor pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e integrante do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês, chama a atenção para um ponto crítico: a condição costuma evoluir sem dar sinais.
“O colesterol elevado raramente provoca sintomas. Na maioria das vezes, ele só é descoberto em exames de rotina ou quando já houve um evento cardiovascular. Além disso, não tratamos apenas um número, o risco depende de um conjunto de fatores”, alerta.
Veja, a seguir, quais são os principais fatores que elevam o colesterol e deixam a saúde do coração mais vulnerável.
1. Histórico familiar
Ter parentes de primeiro grau com colesterol alto ou episódios precoces de infarto e AVC pode sinalizar uma predisposição genética para a condição. Mesmo mantendo hábitos considerados saudáveis, algumas pessoas ainda podem apresentar colesterol elevado. “Quanto mais cedo identificamos esses pacientes, maiores são as chances de prevenir complicações cardiovasculares”, explica Ramon Marcelino.
2. Diabetes
Pessoas com diabetes frequentemente têm alterações no metabolismo das gorduras e, por isso, carregam um risco cardiovascular maior. Consequentemente, é comum que precisem alcançar metas de colesterol mais rígidas.
3. Sobrepeso e obesidade
O acúmulo de gordura corporal tende a elevar o colesterol LDL (“ruim”) e os triglicerídeos, além de diminuir o HDL (“bom”). Esse cenário favorece a formação de placas de gordura nas artérias.
4. Sedentarismo
Exercitar-se com regularidade contribui para manter o colesterol sob controle e fortalece a saúde cardiovascular de maneira ampla. Já a ausência de atividade física facilita alterações metabólicas e aumenta a probabilidade de problemas cardíacos.
5. Tabagismo e hipertensão
O tabagismo agride os vasos sanguíneos e favorece o depósito de placas de gordura. A hipertensão, por sua vez, acelera esse processo. Em conjunto, esses fatores elevam ainda mais o risco de infarto e AVC.
6. Alimentação inadequada
O consumo frequente de ultraprocessados, frituras, embutidos e alimentos com muita gordura saturada contribui para o aumento do LDL. Ainda assim, Ramon Marcelino ressalta que nenhum item alimentar, sozinho, explica o colesterol alto. “Mais importante do que demonizar um alimento é olhar para o padrão alimentar como um todo”, ressalta.
7. Envelhecimento
Com o passar do tempo, o metabolismo muda naturalmente e o risco cardiovascular tende a subir. Por isso, à medida que a idade avança, torna-se ainda mais importante manter acompanhamento médico e fazer exames regulares.
O colesterol não é o vilão
Apesar da reputação negativa, o colesterol é indispensável ao organismo. Ele participa da formação das células e da produção de hormônios e de vitamina D. A preocupação aparece quando há excesso de colesterol LDL, pois isso favorece o acúmulo de gordura nas artérias e eleva o risco de doenças cardiovasculares.
De forma geral, há dois tipos principais de colesterol. O LDL, conhecido como “colesterol ruim”, leva o colesterol do fígado até os tecidos; quando está alto, pode se depositar nas paredes das artérias, formando placas que estreitam os vasos e aumentam o risco de infarto e AVC. Já o HDL, chamado de “colesterol bom”, faz o trajeto oposto: retira o excesso de colesterol das artérias e o devolve ao fígado para eliminação, contribuindo para a proteção do sistema cardiovascular.
“O colesterol elevado é apenas a ponta do iceberg. Para definir a necessidade de tratamento, avaliamos todo o contexto do paciente, incluindo fatores de risco, histórico familiar e a relação entre LDL e HDL”, explica Ramon Marcelino.
Evolução no tratamento
Além de reforçar o valor do diagnóstico precoce, o Dia Nacional e Mundial de Combate ao Colesterol coincide com um período de avanços na área. Recentemente, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) aprovou o primeiro comprimido da classe dos inibidores de PCSK9, e estudos iniciais apontaram resultados promissores de uma terapia de edição genética capaz de reduzir o colesterol após uma única aplicação.
Embora esses recursos abram uma nova perspectiva para pessoas de alto risco ou com formas hereditárias da condição, Ramon Marcelino destaca que eles não substituem as medidas já estabelecidas. “As novas terapias ampliam nossas opções de tratamento, mas aquilo que mais salva vidas continua sendo o diagnóstico precoce, uma alimentação equilibrada, atividade física, controle das doenças crônicas e o uso de estatinas quando indicado”, finaliza.
Por Samara Meni
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