A vaquita é o mamífero marinho mais raro do planeta. Restam menos de uma dúzia desses pequenos e ariscos botos, e eles vivem num único lugar: as águas quentes e rasas no extremo norte do Golfo da Califórnia, no México.
Quase ninguém vai conseguir ver uma vaquita em liberdade. Por isso, um grupo de cientistas encontrou outra forma de partilhar essa experiência: transformar um esqueleto de vaquita numa cópia digital que qualquer pessoa pode explorar.
Um boto a desaparecer do nosso campo de visão
A vaquita é o menor parente das baleias na Terra e pertence à mesma família de golfinhos e botos. Ela chega a cerca de 1,5 m de comprimento e tem anéis escuros em torno dos olhos, como se estivesse maquilhada.
A existência desse animal só foi reconhecida em 1958. Hoje, porém, ele está a um passo de desaparecer para sempre.
O motivo principal é tão simples quanto triste. Pescadores colocam redes ilegais para capturar um peixe grande chamado totoaba, cuja bexiga natatória é vendida por valores altíssimos no mercado negro.
As vaquitas entram nessas redes por acidente e acabam por se afogar. Há anos os governos proibiram a pesca ilegal, mas redes poderosas de tráfico de vida selvagem mantêm essa prática.
Mais exemplares em museus do que vaquitas vivas
Atualmente, há cerca de 12 esqueletos de vaquita guardados em museus para cada boto que ainda permanece vivo no oceano.
Cada exemplar preservado em coleções científicas traz pistas sobre como a vaquita vivia e se movimentava. A equipa quis proteger esse conhecimento antes que ele pudesse desaparecer.
Esqueleto de vaquita de 1966
A peça central do projeto é uma vaquita fêmea recolhida em abril de 1966. Um jovem investigador chamado Robert L. Brownell Jr. encontrou o animal cerca de 24 km ao norte de San Felipe, na costa da Baixa Califórnia.
Ele doou o exemplar ao Museu de História Natural de San Diego (SDNHM), onde o material ficou protegido por quase 60 anos. O esqueleto é pequeno - mede apenas 139 cm de comprimento - e é delicado demais para circular de mão em mão.
Justamente por ser tão raro e frágil, quase ninguém tem a oportunidade de o manusear. Foi esse o obstáculo que a equipa decidiu contornar.
Digitalização dos ossos em escala microscópica
Cientistas da Universidade Atlântica da Flórida (FAU) lideraram o trabalho em parceria com o museu, a SeaWorld Califórnia e a NOAA Pesca (NOAA Fisheries). Para capturar o esqueleto por completo, recorreram a scanners de alta potência.
Primeiro, os ossos passaram por um tomógrafo de uso médico, do mesmo tipo utilizado em exames clínicos em pessoas. Depois, a equipa fotografou cada osso e realizou uma microtomografia (micro-CT) muito mais detalhada.
Um scanner de micro-CT consegue registar detalhes minúsculos, mais finos do que um único fio de cabelo humano. Com isso, foram geradas milhares de imagens em “fatias”, osso por osso.
“Este projeto exigiu um fluxo de trabalho de imagem excepcionalmente intrincado para capturar o esqueleto da vaquita em múltiplas escalas, desde a estrutura do osso inteiro até ao detalhe interno microscópico”, afirmou Marianne E. Porter, autora sénior e professora do Departamento de Ciências Biológicas da FAU.
“Ao integrar tomografia médica, micro-CT e fotografia de alta resolução, conseguimos reconstruir tanto a morfologia externa quanto a arquitetura interna de cada osso, de uma forma que preserva a fidelidade anatómica e, ao mesmo tempo, permanece totalmente interativa no formato digital”, explicou Porter.
“O resultado não é apenas um modelo, mas um conjunto de dados em camadas que reflete a verdadeira complexidade do exemplar.”
Modelos de vaquita que dá para pegar
Em seguida, um software especializado transformou as digitalizações em modelos 3D de cada osso. Assim, é possível rodar as peças no ecrã e aproximar a imagem para ver detalhes, sem encostar no esqueleto real.
Os mesmos ficheiros também podem ser enviados para uma impressora 3D. Os ossos impressos são resistentes, fáceis de transportar e seguros para o manuseio por estudantes.
“O sucesso deste projeto só foi possível graças às capacidades avançadas de imagem disponíveis no Laboratório de Bioimagem da Família Berlin”, disse Tricia L. Meredith, coautora e diretora de pesquisa das escolas-laboratório da FAU.
“Ter acesso a sistemas de micro-CT de alta resolução, juntamente com a experiência necessária para processar e reconstruir conjuntos de dados grandes e complexos, foi essencial para transformar dados brutos de varredura em modelos 3D utilizáveis.
“É esse tipo de ambiente tecnológico integrado que permite que exemplares como a vaquita sejam preservados e partilhados com um nível de detalhe que simplesmente não era possível até há pouco tempo.”
Acesso aberto para toda a gente
Agora, todos os ficheiros estão disponíveis num site gratuito chamado MorphoSource. Um estudante numa sala de aula - ou um cientista do outro lado do mundo - pode visualizar, descarregar e utilizar o material sem pagar nada.
“Ao combinar tecnologias avançadas de imagem com a partilha de dados em acesso aberto, o esforço não só protege um registo valioso de um dos mamíferos marinhos mais ameaçados do planeta, como também torna essa informação acessível a qualquer pessoa”, afirmou Jamie Knaub, primeiro autor e doutorando no Departamento de Ciências Biológicas da FAU.
Píxeis usados para preservar uma vaquita
Esta cópia digital vai muito além de um contorno básico. Ela guarda medições exatas, lesões antigas já cicatrizadas e até o curioso osso extra no dedo da vaquita - tudo preservado para sempre.
As varreduras também trouxeram uma descoberta para a equipa: pequenos ossos dos dedos que radiografias mais antigas não tinham captado.
“O projeto permitirá a produção de réplicas cientificamente precisas para museus, salas de aula e programas educativos, ajudando a aumentar a consciencialização e a apoiar esforços de conservação de uma espécie que agora está à beira da extinção”, disse Knaub.
A vaquita talvez não resista por muito mais tempo na natureza. Mas, graças a este trabalho, os seus ossos continuam acessíveis em alto detalhe, prontos para qualquer pessoa que queira aprender com eles.
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