Estar grávida na Era Viking dificilmente era uma experiência fácil - mas, ainda assim, esse tema ficou por muito tempo à margem, em parte porque quase não há registros diretos que permitam reconstruí-lo.
Uma análise recente de arte e literatura vikings, liderada pela arqueóloga Marianne Hem Eriksen, da Universidade de Leicester, reúne o que existe de evidência - fragmentada, mas instigante - sobre a história da gravidez na Era Viking.
Gravidez na Era Viking: o silêncio dos enterros
Apesar de arqueólogos terem identificado milhares de sepultamentos vikings, são raríssimos os enterros de mãe com bebê - e os sepultamentos de bebês, de modo geral, também são poucos nesse período, embora as mortes ligadas a parto e gestação provavelmente fossem altas.
Para os autores, isso pode indicar que mães e recém-nascidos não eram enterrados juntos ou, alternativamente, que bebês talvez não recebessem os mesmos ritos funerários.
Freydís Eiríksdóttir em A Saga de Eirik, o Vermelho
Nas narrativas literárias e nas imagens analisadas, observam os autores, mulheres grávidas costumam ficar fora do foco - mas duas representações muito conhecidas nas sagas se destacam, e nenhuma delas pinta um retrato especialmente passivo.
Em A Saga de Eirik, o Vermelho, Freydís Eiríksdóttir, filha de Eirik, aparece no centro de um confronto com povos indígenas da Groenlândia e do Canadá mesmo estando em estágio avançado de gravidez. Segundo a saga, esses guerreiros tinham meios de defesa desconhecidos pelos nórdicos, descritos como fundas de guerra ou catapultas.
Quando os nórdicos começaram a recuar, Freydís gritou: "Deixem-me ao menos ter uma arma, acho que eu lutaria melhor do que qualquer um de vocês" - mas ninguém pareceu dar atenção. Os homens seguiram fugindo, e Freydís, muito grávida, teve dificuldade para acompanhar.
Irritada, ela apanhou a espada de um nórdico morto, virou-se contra os atacantes e "baixou sua sark [vestimenta] e golpeou o próprio peito com a espada desembainhada". Isso, ao que tudo indica, assustou os inimigos a ponto de fazê-los bater em retirada rapidamente. Depois, porém, os nórdicos teriam tratado com pouca celebração a coragem crua de Freydís.
Eriksen ressalta: "Embora tenhamos cuidado para não apresentar narrativas simplificadas sobre mulheres guerreiras grávidas, precisamos reconhecer que, ao menos na arte e nas histórias, circulavam ideias sobre mulheres grávidas com equipamento marcial".
Ela acrescenta: "O comportamento de Freydís é surpreendente, mas pode ter um paralelo na estatueta de prata examinada pelo estudo, em que uma mulher grávida, com os braços envolvendo o ventre saliente, usa o que parece ser um capacete com proteção nasal".
Guðrún Ósvífrsdóttir e a profecia em A Saga do Povo de Laxardal
Outra passagem, em A Saga do Povo de Laxardal, descreve como a grávida Guðrún Ósvífrsdóttir é provocada por Helgi Harðbeinsson, o homem que matou seu marido. Helgi limpa a lança ensanguentada no xale que cobre a barriga grávida de Guðrún e diz: "Acho que, sob a ponta desse xale, habita a minha própria morte" - uma profecia que mais tarde se concretiza, quando o filho de Guðrún vinga a morte do pai.
Como observam os autores: "O feto já está inscrito não apenas no sistema de parentesco da elite dos primeiros islandeses, mas em relações complexas de disputas, alianças e vingança".
Hierarquia social, escravidão e leis sobre a gestação
Esses relatos, naturalmente, refletem experiências e atitudes em torno da gravidez entre mulheres de posição social elevada. O estudo sugere que as percepções variariam muito de acordo com o lugar ocupado pela pessoa grávida numa sociedade profundamente hierarquizada - que também incluía escravizados.
Eriksen aponta: "Junto com legislações como a gravidez ser vista como um 'defeito' em uma mulher escravizada a ser comprada, ou crianças nascidas de povos subordinados serem propriedade de seus donos, isso é um lembrete contundente de que a gravidez também pode deixar corpos expostos à instabilidade, ao risco e à exploração".
Por que investigar a gravidez ajuda a entender sociedades antigas
Para os autores, política não acontece apenas em campos de batalha ou por meio da formação de Estados. Eles defendem que investigar experiências frequentemente ignoradas - como as de mulheres grávidas - pode ajudar arqueólogos a compreender melhor civilizações do passado.
A pesquisa foi publicada no Jornal Arqueológico de Cambridge.
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