Cinco municípios estão recuperando o antigo canal ferroviário entre Peso da Régua e Chaves. O trecho norte já foi finalizado, e a conexão com a região duriense segue em frente com 1,3 milhões de euros.
A Linha do Corgo pode ter deixado de ouvir o apito dos trens, mas o traçado não desapareceu. Entre o Douro classificado como Patrimônio Mundial, em Peso da Régua, e Verín, na Galícia, o antigo corredor ferroviário está sendo convertido na Ecovia Internacional do Tâmega e do Corgo. Trata-se de uma ligação contínua de cerca de 130 quilômetros, pensada para caminhar, correr e pedalar, atravessando o território com a calma que as estradas nem sempre permitem.
Em Portugal, o percurso já está pronto entre a fronteira e o limite do município de Vila Real, nas áreas de Chaves e Vila Pouca de Aguiar. O que falta agora é concluir a ligação ao sul, entre Vila Real, Santa Marta de Penaguião e Peso da Régua, num total de aproximadamente 40 quilômetros. O investimento total fica em torno de 1,3 milhões de euros, repartido em três lotes.
Vila Real concentra a maior fatia da intervenção. O lote municipal cobre 30,35 quilômetros e corresponde a um investimento de cerca de 626 mil euros. O pacote de obras inclui infraestrutura viária, serviços complementares e instalações elétricas, além da regularização do piso, do tratamento de taludes e da recuperação de viadutos.
Para o prefeito de Vila Real, Alexandre Favaios, a obra é "um investimento estruturante para o concelho e para toda a região", por combinar mobilidade ativa, turismo e bem-estar. Ele acrescenta que a ecovia "reforça a ligação entre territórios e cria novas oportunidades de fruição do património natural e paisagístico". A prefeitura também está preparando a requalificação da Estação de Abambres-Gare, onde pretende criar um espaço de "apoio ao ciclismo, ao pedestrianismo, ao trail e às caminhadas".
Potencial turístico
No norte, Chaves já concluiu o trecho entre a fronteira e Vidago, acompanhando o rio Tâmega. O prefeito, Nuno Vaz, vê a estrutura como resposta à demanda de visitantes, "particularmente do Norte da Europa", que "valorizam muito o turismo de natureza e as ecovias". A antiga estação da cidade funciona hoje como centro cultural; a de Vidago está associada ao termalismo e à pesquisa; e as paradas ferroviárias de Vilela do Tâmega e Vila das Paranheiras serão restauradas para receber peregrinos e turistas, com oferta de hospedagem.
Vila Pouca de Aguiar conta com cerca de 20 quilômetros de ecopista pelo Vale de Aguiar. A prefeita, Ana Rita Dias, ressalta uma "paisagem maravilhosa" e recorda que o trajeto pode ser feito "não só de bicicleta, mas também a pé", sendo também utilizado por peregrinos dos Caminhos de Santiago. A estação na sede do município abriga a Universidade Sênior; em Pedras Salgadas há um posto de turismo e uma exposição sobre a antiga linha; em Sabroso de Aguiar foi instalado um albergue; e em Tourencinho foi criado um espaço voltado ao ciclismo. Perto de Zimão, outro edifício está em processo de recuperação.
Em Santa Marta de Penaguião, o lote tem 6,6 quilômetros e um investimento de 288 mil euros. A prefeita, Sílvia Silva, avalia que a ligação entre Verín, o Alto Tâmega, Vila Real e o Douro "pode constituir um produto turístico muito interessante", mas apenas se for pensada "como uma rede integrada entre municípios e não apenas como uma infraestrutura linear". A intenção é que quem atravesse as aldeias "conheça os vinhos, procure a restauração e use o alojamento".
Em Alvações do Corgo, a prefeita admite a importância de valorizar a antiga parada ferroviária, mas condiciona a intervenção à preservação dos acessos agrícolas e dos usos consolidados ao longo dos anos. Ela enfatiza que não quer "uma solução que valorize o território para quem visita a região, mas dificulte a vida de quem cá vive e trabalha".
Porta para o comboio
O lote de Peso da Régua abrange 3,1 quilômetros e corresponde a cerca de 393 mil euros. O prefeito, José Manuel Gonçalves, encara a ecovia como "mais um produto turístico da região" e, ao mesmo tempo, como uma forma de garantir "a salvaguarda do próprio canal ferroviário". O município quer conectar o percurso às Caldas do Moledo, ao Caminho dos Monges e a roteiros como Lamego e Tarouca, criando motivos para "prolongar a permanência de visitantes no Douro".
Os cinco municípios defendem que a ecovia precisa ser mais do que uma faixa de passagem. A meta é implantar pontos de descanso, informação e serviços, com hospedagem e conexões ao comércio, à gastronomia e ao patrimônio. Assim, a antiga linha volta a aproximar territórios - não por trilhos, mas por um corredor de mobilidade ativa.
A lembrança do trem segue presente no projeto. Os prefeitos não descartam uma reativação da Linha do Corgo, mas rejeitam deixar o antigo canal abandonado ao mato enquanto não houver decisão nacional, financiamento e um cronograma. Nuno Vaz afirma que ferrovia e ecovia "são ambições e propósitos que até são conjugáveis". A velha linha pode não voltar como antes, mas começa novamente a levar pessoas, movimento e economia.
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Linha fechada
A Linha do Corgo perdeu a ligação entre Vila Real e Chaves em 1990 e, mais tarde, o trecho entre Vila Real e Peso da Régua em 2009. A volta do trem continua sendo defendida por partidos, movimentos cívicos e por uma petição com mais de mil assinaturas.
Memória real
A ligação ferroviária a Pedras Salgadas ficou marcada pela passagem do rei D. Carlos, durante a inauguração da antiga linha. Essa lembrança segue associada à identidade da vila termal e ao patrimônio que mantém viva a chegada do trem ao Vale de Aguiar.
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