Pesquisas recentes indicam que uma alimentação rica em alimentos ultraprocessados pode não apenas comprometer a saúde de modo geral, como também influenciar a fertilidade e as fases iniciais do desenvolvimento do bebé.
As escolhas à mesa, repetidas dia após dia, podem moldar o futuro de maneiras nem sempre evidentes.
O que são alimentos ultraprocessados?
Alimentos ultraprocessados, ou UPFs, são produtos obtidos por processos industriais intensos. Entram nessa categoria, por exemplo, batatas fritas de pacote, snacks embalados, bebidas açucaradas, refeições congeladas e noodles instantâneos.
Em geral, esses produtos trazem açúcar, sal, gorduras pouco saudáveis e aditivos químicos adicionados, ao mesmo tempo que costumam ter baixo teor de nutrientes importantes, como fibras e vitaminas.
Hoje, os UPFs ocupam uma fatia grande das dietas modernas. Em alguns países, as pessoas chegam a obter até metade do que comem diariamente a partir desses itens.
A praticidade ajuda a explicar a popularidade - são rápidos e fáceis de preparar -, mas os possíveis efeitos sobre a saúde vêm ganhando cada vez mais atenção.
Por que as fases iniciais da vida são tão importantes
O período em torno da conceção e o começo da gestação é decisivo para o desenvolvimento humano. Cientistas frequentemente chamam esse intervalo de parte dos “primeiros 1000 dias”, por exercer forte influência sobre o crescimento e a saúde no futuro.
Nessa etapa, o embrião evolui rapidamente, e alterações discretas podem deixar consequências duradouras. A vesícula vitelina, uma pequena estrutura presente no início da gravidez, fornece nutrientes ao embrião antes de a placenta assumir essa função.
Quando esse momento é afetado, isso pode repercutir mais adiante na vida da criança.
Impacto da alimentação e da fertilidade
Investigadores do Erasmus University Medical Center, em Roterdão, analisaram de que forma os UPFs se relacionam com a fertilidade e o desenvolvimento embrionário inicial.
A equipa acompanhou 831 mulheres e 651 homens no âmbito do Generation R Study Next Programme.
Os investigadores observaram os casais desde antes da gravidez e ao longo do início da gestação. O objetivo foi entender como a dieta se conectava ao tempo até engravidar e a como os embriões se desenvolviam nas primeiras semanas.
“Mesmo sendo tão comuns na nossa alimentação, sabe-se muito pouco sobre a potencial relação dos UPFs com desfechos de fertilidade e o desenvolvimento humano inicial”, explicou a Dra. Romy Gaillard, que liderou o estudo.
Dieta e crescimento do embrião
Os participantes responderam questionários alimentares detalhados, com mais de 200 itens.
Para organizar a análise, os investigadores classificaram os alimentos pelo sistema NOVA, que distingue ultraprocessados de itens naturais ou minimamente processados.
Médicos também realizaram ecografias nas semanas sete, nove e onze de gravidez. Esses exames avaliaram o tamanho do embrião e o volume da vesícula vitelina - um elemento relevante para o crescimento no início da gestação.
Em média, os UPFs representaram cerca de 22 por cento da dieta das mulheres e 25 por cento da dieta dos homens.
Alimentação das mulheres e crescimento do embrião
Segundo o estudo, não houve evidência clara de que os UPFs alterassem o tempo necessário para as mulheres engravidarem. Ainda assim, apareceram associações com o desenvolvimento inicial.
“Observámos que o consumo de UPFs em mulheres não se relacionou de forma consistente com o risco de subfertilidade e o tempo até a gravidez, mas esteve associado a um crescimento embrionário e a um tamanho da vesícula vitelina ligeiramente menores até à sétima semana de gestação”, afirmou a coautora do estudo, Celine Lin.
“Essas diferenças no desenvolvimento humano inicial foram pequenas, mas são importantes do ponto de vista científico e em nível populacional, pois mostramos pela primeira vez que o consumo de UPFs não é apenas relevante para a saúde da mãe, como também pode estar relacionado ao desenvolvimento da descendência.”
O achado reforça a ideia de que a alimentação materna pode influenciar diretamente o embrião desde muito cedo.
Alimentação dos homens afeta a fertilidade
Entre os homens, o padrão foi diferente. Uma maior ingestão de ultraprocessados esteve ligada a menor fertilidade.
Homens que consumiam mais UPFs demoraram mais para alcançar a gravidez e apresentaram maior risco de problemas de fertilidade.
Uma possível explicação é a sensibilidade dos espermatozoides à dieta. Quando a nutrição é inadequada, a qualidade do sémen pode piorar, o que dificulta a conceção.
Crescimento do embrião e vesícula vitelina têm peso
O crescimento embrionário precoce é um indicador relevante de saúde futura. Um desenvolvimento mais lento no primeiro trimestre já foi associado a parto prematuro e baixo peso ao nascer.
A vesícula vitelina também é fundamental por fornecer nutrientes ao embrião no começo da gravidez. Alterações no seu desenvolvimento podem aumentar o risco de aborto espontâneo ou de parto antecipado.
Mesmo diferenças pequenas no início da gestação podem ganhar importância quando analisadas em grandes populações.
Como alimentos ultraprocessados podem causar prejuízos
Os investigadores apontam vários caminhos pelos quais os UPFs poderiam interferir na fertilidade e no desenvolvimento. Esses alimentos frequentemente têm menos nutrientes essenciais para um espermatozoide saudável e para o crescimento adequado do embrião. Além disso, uma dieta de pior qualidade pode elevar o stress oxidativo, que danifica células.
Outro ponto é a possível presença de substâncias químicas oriundas de embalagens, como ftalatos e bisfenóis, capazes de interferir em hormonas.
Em grávidas, uma ingestão insuficiente de nutrientes pode afetar a forma como o embrião se desenvolve, sobretudo no começo, quando a vesícula vitelina desempenha um papel central.
Uma nova visão sobre alimentação e fertilidade
“Os nossos resultados sugerem que uma dieta com baixo teor de UPFs seria a melhor opção para ambos os parceiros, não apenas para a saúde deles, mas também para as chances de gravidez e a saúde do bebé ainda não nascido”, disse a Dra. Gaillard.
“O nosso estudo mostra pela primeira vez que o consumo de UPFs em homens e mulheres está associado a desfechos de fertilidade e ao desenvolvimento humano inicial, mas também tem limitações”, acrescentou.
“É importante destacar que, como este é um estudo observacional, os nossos resultados mostram associações, mas não podem provar efeitos causais diretos do consumo de UPFs sobre esses desfechos do início da vida.”
A pesquisa também reforça um ponto essencial: fertilidade não diz respeito apenas à saúde da mulher. Os dois parceiros influenciam o resultado.
O que isto significa no dia a dia
O recado do estudo é direto: as escolhas alimentares antes e durante a gestação fazem diferença. Mesmo reduções pequenas no consumo de ultraprocessados podem favorecer a fertilidade e ajudar a sustentar o desenvolvimento inicial.
Manter hábitos alimentares saudáveis pode apoiar ambos os futuros pais e dar ao embrião um começo mais promissor. Optar por alimentos frescos e menos processados pode ser um passo simples rumo a uma geração futura mais saudável.
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