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Baleias-jubarte cruzam oceanos entre Austrália e Brasil após 22 anos

Mulher em barco mostra fotos de baleia com cauda levantada, com baleia real no mar ao fundo.

Cientistas acompanham baleias-jubarte no leste da Austrália há mais de 40 anos, formando um vasto acervo de fotografias das caudas desses animais.

Um esforço equivalente acontece no litoral do Brasil desde a década de 1980. Somando os dois programas, quase 20.000 baleias individuais já foram identificadas.

Até pouco tempo, porém, nenhuma baleia tinha sido registrada nos dois lugares ao longo de quatro décadas de pesquisa - e entre bacias oceânicas inteiras.

Isso mudou quando surgiram duas imagens de cauda que se encaixaram perfeitamente: elas correspondiam a uma baleia fotografada 22 anos antes e a meio mundo de distância.

Duas baleias-jubarte, dois oceanos

A descoberta é fruto de uma colaboração internacional liderada pela Dra. Cristina Castro Ayala, da Fundação Baleia do Pacífico.

O grupo reconheceu duas baleias-jubarte que atravessaram oceanos completos entre áreas reprodutivas. Uma delas foi registrada pela primeira vez em Hervey Bay, na Austrália, em 2007.

Ela voltou à mesma baía em 2013 e, seis anos depois, reapareceu no litoral de São Paulo, no Brasil.

A distância em linha reta entre essas áreas de reprodução é de cerca de 14.200 km, embora o trajeto real provavelmente tenha sido bem maior. Só se conhecem o ponto de partida e o de chegada; o caminho percorrido continua desconhecido.

A segunda baleia foi fotografada em 2003 no Banco dos Abrolhos, uma faixa de águas rasas que funciona como o principal berçário de jubartes no Brasil. Na ocasião, ela nadava num grupo com nove adultos.

Em setembro de 2025, 22 anos depois, o mesmo animal foi observado sozinho em Hervey Bay, na Austrália. A distância coberta foi de pelo menos 15.100 km, estabelecendo um novo recorde de deslocamento para uma baleia-jubarte identificada individualmente.

Como a parte de baixo da cauda revela a identidade

Cada baleia-jubarte exibe um padrão próprio de pigmentação e cicatrizes na parte inferior da cauda - a face inferior da nadadeira caudal. Essas marcas permanecem distinguíveis por toda a vida e permitem identificar cada indivíduo.

A equipa de Castro reuniu fotografias dessa região da cauda a partir de uma base que integra as duas áreas, com imagens enviadas por cientistas profissionais e observadores de baleias entre 1984 e 2025.

Um sistema automatizado assinalou pares potencialmente compatíveis; em seguida, uma pessoa conferiu cada correspondência visualmente. Essa verificação humana é importante para confirmar o achado.

Computadores conseguem apontar caudas parecidas, mas é o olhar treinado que elimina coincidências. O processo de correspondência foi feito por meio do Happywhale, uma plataforma para a qual qualquer pessoa com uma câmara pode contribuir.

Uma confirmação inédita

Há muito tempo, cientistas suspeitavam que, ocasionalmente, algumas baleias poderiam trocar entre populações reprodutivas muito distantes.

Até este estudo, contudo, ninguém tinha registado essa troca nos dois sentidos: nem da Austrália para o Brasil, nem do Brasil para a Austrália.

Duas baleias, dentro de todo esse conjunto de dados, não configuram um padrão migratório. As travessias são raras - mesmo para uma espécie que já migra mais do que quase qualquer outro mamífero.

A novidade, portanto, não é a frequência com que as baleias fazem esse percurso, e sim a confirmação de que elas conseguem fazê-lo.

Baleias efectivamente transitam entre Austrália e Brasil, e isso abre novas perguntas sobre como e onde esses encontros acontecem.

Encontros no sul

Pesquisadores propõem que baleias-jubarte de diferentes populações reprodutivas, por vezes, se encontrem em áreas de alimentação partilhadas na Antártida.

Uma baleia que se alimente ao lado de indivíduos “estranhos” poderia acompanhá-los de volta - não para o seu próprio local de reprodução, mas para o deles. A nova evidência encaixa-se nessa ideia.

Uma baleia nascida na população do Brasil a aparecer na Austrália, e outra originária da Austrália a surgir no Brasil, é exactamente o que a hipótese do Intercâmbio no Oceano Austral prevê.

Outros trabalhos sobre o canto das baleias-jubarte também reforçam essa interpretação. Os cantos se espalham entre bacias oceânicas, o que sugere que animais de populações distintas se encontram em algum ponto do caminho.

Baleias-jubarte num ambiente em mudança

Essas travessias podem tornar-se mais comuns. O krill antártico - pequenos crustáceos semelhantes a camarões, consumidos pelas jubartes em enormes quantidades - depende do gelo marinho para viver.

À medida que o aquecimento reduz esse gelo, o krill tem recuado para o sul. Estudos recentes indicam que as zonas de alimentação podem sobrepor-se com mais frequência se o krill continuar a deslocar-se para latitudes mais altas.

As baleias seguem o alimento. Populações que historicamente se mantinham separadas podem passar a encontrar-se em áreas novas, aumentando a probabilidade de um indivíduo trocar de área reprodutiva.

Os autores fazem uma ressalva importante: ainda não é possível afirmar que essas travessias raras estejam a ocorrer mais vezes; apenas que as condições que podem favorecê-las parecem estar a mudar.

Implicações futuras para as baleias

Durante décadas, as populações do leste da Austrália e do Brasil foram geridas como grupos totalmente separados.

A espécie quase foi extinta pela caça comercial, e ambas as populações recuperaram-se bem. Considerá-las completamente distintas sempre foi uma suposição razoável.

Agora, essa suposição precisa de uma pequena nota de rodapé. Alguns indivíduos, de facto, se movem entre essas populações, em ambas as direcções, atravessando milhares de quilómetros de mar aberto.

Mesmo numa proporção de um em 10.000, essa troca pode transportar genes e estilos de canto entre hemisférios. Cientistas que modelam a recuperação das populações terão de incorporar essas viagens nos seus cálculos.

Planos de conservação que tratam as duas populações como totalmente isoladas passam a basear-se num retrato incompleto. Já para observadores comuns de baleias, o impacto é mais simples.

O registo de 2025 em Hervey Bay abriu uma janela para a mais longa jornada já documentada de uma baleia-jubarte individual.

Sem aquela fotografia, a viagem de 22 anos desse animal provavelmente teria permanecido invisível.

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