Muita gente imagina que a história da evolução humana começa em terra firme. É comum ver, em livros e documentários, a cena de animais saindo da água e rastejando para a praia.
Só que o ponto de partida está bem mais fundo, nos oceanos antigos. Muito antes de qualquer ser vivo andar em solo, peixes pequenos já acumulavam características que, mais tarde, ajudariam a vida a conquistar a terra.
Há décadas, cientistas tentam esclarecer como surgiram os primeiros peixes ósseos. Eles são peças-chave porque muitos animais atuais - humanos incluídos - têm ligação com esses ancestrais.
Agora, novas descobertas de fósseis na China estão permitindo que pesquisadores enxerguem esse estágio inicial da evolução com muito mais nitidez.
Fósseis de peixes antigos descobertos
Uma equipe do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia, ligado à Academia Chinesa de Ciências, encontrou dois fósseis de peixes considerados decisivos para o tema.
O grupo de pesquisa contou com o Professor ZHU Min, a Professora LU Jing e o Professor ZHU You’an.
Os peixes ósseos fazem parte dos vertebrados, um grande conjunto de animais caracterizado pela presença de coluna vertebral. Nesse grupo entram peixes, répteis, aves, anfíbios e mamíferos.
Com o passar do tempo, os peixes ósseos se dividiram em duas linhagens principais. Uma delas originou os peixes de nadadeiras raiadas, que reúnem a maioria dos peixes atuais. Salmão, atum e peixe-dourado são exemplos conhecidos, e os cientistas já catalogaram mais de 30.000 espécies.
A outra linhagem deu origem aos peixes de nadadeiras lobadas. No período Devoniano, um ramo desse grupo começou, lentamente, a passar do ambiente aquático para o terrestre - uma mudança que mais tarde influenciaria o rumo da vida na Terra.
Da vida no mar aos animais terrestres
A transição da água para a terra não aconteceu de uma vez: foi um processo extremamente gradual. A evolução costuma exigir milhões de anos para gerar transformações marcantes. Aos poucos, nadadeiras foram se convertendo em estruturas semelhantes a membros, capazes de sustentar a locomoção fora d’água.
Em algum momento, surgiram os primeiros animais com quatro patas. Vieram primeiro os anfíbios e, depois, os répteis. Muito mais tarde, evoluíram as aves e os mamíferos. Os humanos também conseguem rastrear sua ancestralidade até aquela antiga passagem do mar para a terra.
Por essa ligação direta, os peixes ósseos mais antigos são essenciais para entender a evolução dos vertebrados. Durante muitos anos, pesquisadores buscaram fósseis que ajudassem a revelar como esses peixes apareceram no início.
Fósseis encontrados no sul da China
Após mais de dez anos de trabalho de campo, os cientistas localizaram fósseis importantes no sul da China. Eles vieram de camadas de rocha formadas no período Siluriano.
Um dos achados ocorreu em Xiushan, em Chongqing. A espécie recebeu o nome de Eosteus chongqingensis. Esse fóssil é, hoje, o mais antigo peixe ósseo completo já descoberto em qualquer lugar do mundo.
O outro veio da Formação Kuanti, em Qujing, na província de Yunnan. Os pesquisadores reconheceram a espécie como Megamastax amblyodus.
Para investigar estruturas que estavam ocultas no interior dos fósseis, a equipe recorreu a tecnologias avançadas de varredura e a modelos computacionais tridimensionais.
Um peixe minúsculo, mas decisivo
O Eosteus chongqingensis viveu há cerca de 436 milhões de anos. Era um peixe muito pequeno, com apenas cerca de três centímetros de comprimento. Ainda assim, o fóssil preservou o corpo inteiro.
O animal apresenta uma combinação de traços. O corpo liso e a nadadeira única no dorso lembram peixes de nadadeiras raiadas bem antigos. A cauda também exibe escamas especiais conhecidas como fulcros caudais.
Ao mesmo tempo, esse peixe não tem certos ossos de nadadeira que aparecem em peixes ósseos de períodos posteriores. O fóssil ainda indica uma espinha próxima à nadadeira anal. Essa mistura de características sugere que muitos atributos típicos dos peixes ósseos surgiram mais cedo do que se imaginava.
Um peixe gigante dos mares antigos
O Megamastax amblyodus viveu mais tarde no Siluriano, por volta de 423 milhões de anos atrás. Ao contrário do pequeno Eosteus, essa espécie atingia dimensões bem maiores e podia passar de 1 metro de comprimento.
Os pesquisadores analisaram esse fóssil por quase 10 anos. A varredura avançada e as reconstruções em três dimensões ajudaram a expor detalhes do crânio e da dentição.
O Megamastax possuía duas fileiras de dentes dentro da boca. A fileira interna tinha dentes arredondados, apoiados em bases rombas. Essa anatomia oferece pistas sobre como os primeiros peixes ósseos se alimentavam nos mares antigos.
Fósseis revelam a evolução inicial
Eosteus chongqingensis e Megamastax amblyodus estão entre os peixes ósseos mais antigos já identificados. Eles viveram antes de ocorrer a separação entre as duas grandes linhagens de peixes ósseos.
Esses fósseis permitem que os cientistas reconstruam como eram os primeiros peixes ósseos. As descobertas também ajudam a compreender como mandíbulas e dentes começaram a se formar em animais com coluna vertebral.
Os resultados indicam que o sul da China é uma área estratégica para o estudo das formas de vida iniciais. Para os autores do estudo, essa região pode ter sido um dos primeiros locais onde surgiram os peixes ósseos e outros vertebrados com mandíbulas.
Esses peixes viveram há centenas de milhões de anos. A trajetória deles faz parte do longo caminho evolutivo que, muito depois, levaria ao aparecimento de animais terrestres, inclusive os humanos.
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