Por muitos anos, o intestino foi tratado como um órgão voltado somente à digestão. Hoje, a ciência deixa claro que ele se conecta diretamente ao cérebro por meio de uma troca contínua de sinais chamada eixo cérebro-intestino. Essa comunicação ajuda a entender por que fases de estresse, ansiedade e tensão emocional costumam vir acompanhadas de mudanças digestivas, como sensação de barriga inchada, gases, dor abdominal, diarreia, prisão de ventre ou até a alternância desses sintomas.
Dentro desse contexto, uma das condições mais associadas a essa via de comunicação é a Síndrome do Intestino Irritável (SII), um distúrbio funcional que modifica o funcionamento do intestino sem necessariamente apresentar lesões visíveis. Para o gastroenterologista Dr. Michel Fernandes, reconhecer essa relação é peça-chave para conduzir um cuidado mais completo e personalizado.
“O intestino e o cérebro estão em constante comunicação. O sistema nervoso influencia a movimentação intestinal, a sensibilidade à dor, a produção de secreções e até a composição da microbiota. Quando existe um desequilíbrio emocional, essa comunicação pode ser alterada e favorecer o surgimento ou a piora de sintomas gastrointestinais”, explica.
Sintomas da Síndrome do Intestino Irritável
A Síndrome do Intestino Irritável pode se manifestar de maneiras diferentes e com intensidades variadas de pessoa para pessoa. Entre as queixas mais frequentes estão dor ou desconforto abdominal, sensação de inchaço, excesso de gases, distensão abdominal, diarreia, prisão de ventre ou períodos em que os dois quadros se alternam.
Como nem sempre há alterações nos exames convencionais, muitas pessoas passam anos convivendo com os sintomas sem compreender o que está por trás deles. “A Síndrome do Intestino Irritável é um diagnóstico clínico. O médico avalia a história do paciente, os sintomas, a frequência e a relação deles com alimentação, rotina e fatores emocionais. Também é importante investigar sinais de alerta que possam indicar outras doenças que precisam de tratamento específico”, explica o especialista.
Condição não é apenas emocional
Um obstáculo comum para pacientes com SII é a ideia equivocada de que os sintomas seriam “apenas psicológicos”. Ainda que as emoções interfiram no funcionamento intestinal, as manifestações físicas existem, são reais e envolvem mecanismos biológicos.
De acordo com o Dr. Michel Fernandes, entender o eixo cérebro-intestino amplia a qualidade do cuidado oferecido. “A Síndrome do Intestino Irritável não é ‘coisa da cabeça’. Os sintomas são reais e têm uma explicação fisiológica. As emoções influenciam o corpo de diversas maneiras, e reconhecer essa conexão permite oferecer um tratamento mais eficaz e completo”, ressalta.
Estresse pode afetar diretamente o funcionamento intestinal
A pressão emocional não impacta apenas o cérebro: o corpo inteiro responde ao estresse, e o intestino está entre os órgãos mais sensíveis a essas variações. Em momentos de ansiedade, preocupação ou tensão, podem acontecer mudanças no ritmo dos movimentos intestinais, aumento da sensibilidade à dor e alterações na forma como os sintomas digestivos são percebidos.
Segundo o Dr. Michel Fernandes, é justamente essa interação que explica por que tantas pessoas notam piora do intestino em momentos emocionalmente difíceis. “Muitos pacientes chegam ao consultório relatando que o intestino parece acompanhar diretamente o estado emocional. Em fases de maior estresse, ansiedade ou preocupação, os sintomas aumentam. Isso acontece porque o intestino possui uma extensa rede de neurônios e responde rapidamente às alterações do organismo”, afirma.
Microbiota intestinal impacta todo o organismo
O intestino abriga trilhões de microrganismos que participam de múltiplas funções essenciais. Esse conjunto, chamado de microbiota intestinal, influencia a digestão, o metabolismo e até a comunicação com o cérebro. Quando há um desequilíbrio nessa comunidade - a chamada disbiose -, podem ocorrer alterações na barreira intestinal e no funcionamento geral do organismo.
“A microbiota participa de diversos processos metabólicos e produz substâncias que influenciam o funcionamento do corpo, inclusive o cérebro. Uma alimentação inadequada, privação de sono, uso indiscriminado de alguns medicamentos e estresse crônico podem prejudicar esse equilíbrio”, destaca o Dr. Michel Fernandes. Manter hábitos saudáveis é uma forma de favorecer a diversidade e o equilíbrio das bactérias intestinais.
Alimentação requer planejamento
Diante de sintomas intestinais, é comum que algumas pessoas adotem por conta própria cortes alimentares radicais. No entanto, excluir muitos grupos sem orientação pode prejudicar ainda mais a microbiota. Por isso, o tratamento da Síndrome do Intestino Irritável deve levar em conta os gatilhos individuais e priorizar uma estratégia possível de manter no dia a dia.
“O objetivo não é cortar alimentos indiscriminadamente, mas entender quais fatores desencadeiam sintomas naquele paciente e construir uma estratégia sustentável. O intestino precisa de equilíbrio, não de restrições extremas”, orienta o gastroenterologista. Assim, a alimentação deve ser ajustada conforme as necessidades e as particularidades de cada pessoa.
Hábitos aliados no tratamento da condição
A saúde intestinal é influenciada por vários fatores além do prato. Dormir bem, praticar atividade física com regularidade, controle do estresse e manter uma rotina mais equilibrada fazem parte tanto da prevenção quanto do controle das crises. Na visão do Dr. Michel Fernandes, cuidar do intestino exige considerar o contexto geral de vida de cada paciente.
“Não existe um único tratamento que funcione para todos os pacientes. A Síndrome do Intestino Irritável precisa ser individualizada. Em alguns casos, ajustes alimentares têm grande impacto; em outros, controlar a ansiedade e melhorar a relação com o estresse é uma etapa fundamental”, afirma.
Procure avaliação médica
Apesar de a Síndrome do Intestino Irritável ser uma condição funcional, sintomas repetidos não devem ser deixados de lado. A consulta médica ajuda a identificar padrões, descartar outras doenças e definir a abordagem mais adequada. Dor persistente, mudanças importantes no hábito intestinal, perda de peso sem causa aparente ou sangramentos são sinais que exigem investigação.
“O diagnóstico correto é importante porque nem todo desconforto intestinal significa Síndrome do Intestino Irritável. Precisamos avaliar cada caso individualmente e identificar quando existe necessidade de exames complementares”, explica o especialista.
Por Sarah Carvalho
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