Pular para o conteúdo

Orcas e tubarões-brancos nas Ilhas Neptune: desaparecimentos desde 2015 e o recorde de 92 dias

Orca nadando perto do fundo do mar com leões marinhos e barco na superfície sob raios de sol.

Quando orcas atacaram um tubarão-branco perto das Ilhas Neptune, na Austrália do Sul, em 2015, o episódio virou notícia rapidamente.

Depois do ataque, os tubarões-brancos sumiram da região por 69 dias. Para muita gente, a explicação foi direta: o medo das orcas teria afastado os animais.

Só que pesquisas recentes indicam que os tubarões-brancos também deixam a área por períodos ainda mais longos - e, em alguns desses intervalos, não há qualquer registro de orcas por perto.

Esse resultado coloca em xeque uma narrativa viral sobre predadores e aponta que a história é mais complexa do que “medo” por si só.

Uma década de registros de tubarões

Há mais de dez anos, cientistas acompanham a presença de tubarões-brancos nas Ilhas Neptune com duas fontes robustas de informação: os registos diários de avistamentos feitos por operações de mergulho em gaiola e etiquetas eletrónicas fixadas nos tubarões.

Ao comparar esses dados ano após ano, a Dra. Isabella Reeves, da Flinders University, encontrou um padrão inesperado. O sumiço de 69 dias em 2015 não foi o maior intervalo já observado - nem sequer foi o mais fora do comum.

Os dados mostram outras ausências que duraram semanas e até meses sem qualquer encontro documentado com orcas.

Isso leva a uma pergunta mais difícil: se as orcas não são sempre as responsáveis, que outros fatores podem estar por trás desses desaparecimentos prolongados?

O famoso ataque de orcas a um tubarão-branco

Em 2 de fevereiro de 2015, cerca de seis orcas atacaram um tubarão-branco a aproximadamente 20 metros de um barco de mergulho em gaiola.

Três orcas encurralaram o tubarão enquanto as outras o golpeavam. O episódio terminou quando uma mancha oleosa se espalhou pela superfície - um indício de que o tubarão provavelmente tinha sido morto.

Na sequência, os tubarões-brancos evitaram a área por 69 dias. Observadores atribuíram rapidamente o afastamento ao receio de orcas, e a hipótese parecia combinar com relatos semelhantes em outras regiões do mundo.

Mas uma história marcante não basta para comprovar uma explicação. Intervalos longos chamam atenção no calendário, porém os tubarões naturalmente entram e saem de determinadas áreas ao longo do ano.

Como os tubarões-brancos costumam regressar aos mesmos pontos de forma sazonal - um comportamento conhecido como fidelidade ao local - a equipa comparou cada ausência com os padrões normais de movimento.

Em vez de dar peso a interrupções curtas, os pesquisadores consideraram apenas lacunas raras, que se estendiam muito além do vaivém típico. Essa definição mais cuidadosa ajudou a separar deslocamentos rotineiros de desaparecimentos realmente atípicos.

Como os cientistas acompanharam os tubarões

Vários tubarões receberam pequenos transmissores inseridos no tecido muscular. Essas etiquetas emitem pulsos sonoros codificados que são captados por receptores subaquáticos - técnica conhecida como telemetria acústica.

Nas Ilhas Neptune, os receptores registavam cada sinal com data e hora, criando um histórico contínuo mesmo quando não havia embarcações na água.

Ainda assim, a ausência de deteções não prova, por si só, que o tubarão esteja longe. Ele pode simplesmente ter nadado para além do alcance de escuta. É aí que os registos do turismo se tornam essenciais.

Operadores de mergulho em gaiola são obrigados a manter registos diários de avistamentos de tubarões. As equipas frequentemente identificam indivíduos por cicatrizes e marcas, o que permite confirmar se animais específicos realmente deixaram a área.

Ao cruzar os registos de avistamento com os dados das etiquetas, os cientistas também identificaram pontos cegos. Tempo instável e mar agitado podem impedir observações humanas mesmo quando tubarões etiquetados continuam nas proximidades.

A verificação em duas fontes reduziu o risco de que simples falhas de observação fossem interpretadas como grandes “sumiços”.

O maior desaparecimento de tubarões

Em 2024, foi registado o maior intervalo até agora: 92 dias sem qualquer deteção de tubarões etiquetados nas Ilhas Neptune. Nesse período, não houve avistamentos de orcas. Se as orcas não estavam envolvidas, o que explicaria a ausência?

Tubarões seguem alimento. Alterações na quantidade de focas, no deslocamento de atuns, na temperatura da água ou até a presença de carcaças distantes podem mudar as oportunidades de caça. Quando a presa se desloca, os tubarões tendem a acompanhá-la.

Isso não significa que as orcas não tenham impacto. No fim de outubro de 2024, um avistamento de orca foi seguido por uma saída breve de tubarões - mas a lacuna durou apenas cinco dias.

Poucos dias depois, um tubarão etiquetado provavelmente morreu, e sinais químicos libertados pela decomposição - conhecidos como necromônios - podem ter provocado outro afastamento curto, de quatro dias.

“Os nossos resultados mostram que as orcas podem, sim, desencadear uma resposta imediata dos tubarões-brancos, mas elas nem sempre explicam sozinhas os desaparecimentos de longo prazo”, explicou Reeves.

Os tubarões parecem equilibrar risco e recompensa. Em alguns momentos, vão embora. Em outros, regressam depressa.

O perigo de narrativas simplistas

Ataques de orcas rendem manchetes, e um único evento dramático pode moldar a perceção pública durante anos.

Padrões parecidos já foram notados perto das Ilhas Farallon, na Califórnia, onde visitas de orcas coincidiram com saídas temporárias de tubarões.

Porém, quando se depende apenas de avistamentos, é fácil exagerar por quanto tempo uma área fica vazia. Séries históricas combinando etiquetas, observações e contexto ambiental oferecem um retrato mais equilibrado.

Em vez de procurar um único “vilão”, os cientistas propõem acompanhar a teia alimentar como um todo - incluindo focas, atuns e condições do oceano - para compreender melhor o movimento dos tubarões.

Ao olhar para mais de uma década de registos, os desaparecimentos de tubarões-brancos nas Ilhas Neptune parecem menos um sinal de pânico e mais parte de padrões naturais de deslocamento.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário