Comprar algo pela internet ou entrar numa loja pode parecer apenas uma transação simples. Na prática, porém, cada compra depende de uma cadeia extensa que envolve transporte de cargas, embalagens, armazenagem, entregas, operação de lojas, atividade digital e até os deslocamentos do consumidor.
Uma nova pesquisa propõe uma forma padronizada de medir as emissões de gases de efeito estufa e de poluentes atmosféricos ao longo de toda a jornada do varejo.
O método permite acompanhar como o custo ambiental associado às compras mudou ao longo de mais de três décadas.
O estudo abrange tanto as compras pela internet quanto as compras tradicionais em lojas físicas. Ele apresenta parâmetros nacionais para a China de 1990 a 2023, cobrindo 16 grandes categorias de mercadorias.
A intenção é tornar as avaliações ambientais das compras mais completas, transparentes e comparáveis entre diferentes produtos, regiões, formas de compra e períodos.
Poluição escondida por trás das compras
“Muitas vezes, as emissões relacionadas às compras são avaliadas considerando apenas algumas atividades mais visíveis”, disse o autor correspondente Ruibin Xu, da Southern University of Science and Technology.
“Fontes importantes como frete aéreo, materiais de embalagem, devoluções de produtos e deslocamento do consumidor podem ser ignoradas.”
“Nosso protocolo oferece uma forma consistente de acompanhar as emissões em toda a cadeia de abastecimento do varejo e identificar onde reduções relevantes podem ser alcançadas.”
Essa abrangência diferencia a proposta de avaliações anteriores, que em geral se limitavam a poucos focos óbvios de emissão e acabavam deixando de fora contribuições menos aparentes.
Rastreando as emissões do início ao fim
Os investigadores dividiram todo o processo de compra em seis grandes fases da cadeia de abastecimento.
As fases incluem: transporte do atacadista, transporte de longa distância, entrega de última milha ou viagens do consumidor para fazer compras, uso de embalagens, operação de lojas ou de dispositivos eletrónicos, e armazenamento.
Dentro desse enquadramento, foram avaliados gases de efeito estufa como dióxido de carbono, metano e óxido nitroso.
Além disso, o estudo analisou outros poluentes importantes do ar, incluindo material particulado fino, óxidos de nitrogênio, dióxido de enxofre, monóxido de carbono, amoníaco, carbono negro, carbono orgânico e compostos orgânicos voláteis não metano.
Ao contrário de abordagens mais simples que consideram apenas caminhões, carros ou embalagens de papelão, este protocolo trabalha com um leque bem mais amplo.
Ele incorpora aviões, trens, navios, furgões, carros particulares, transporte público, motocicletas, bicicletas elétricas e deslocamentos a pé.
O método também contempla oito tipos distintos de embalagem usados especificamente no varejo pela internet.
Para estimar a incerteza inerente a esses cálculos, o protocolo recorre a simulações de Monte Carlo.
A poluição difere entre compras pela internet e em lojas físicas
Para mostrar como o protocolo funciona na prática, os autores aplicaram a estrutura ao consumo de artigos de necessidades, têxteis e produtos alimentares em toda a China.
Em 2023, as emissões totais de gases de efeito estufa associadas a essas categorias chegaram a uma estimativa de 11 milhões de toneladas métricas para artigos de necessidades, 8.2 milhões de toneladas métricas para têxteis e 23 milhões de toneladas métricas para produtos alimentares.
Quando se separou o resultado entre compras pela internet e compras em lojas físicas, surgiram diferenças marcantes.
As compras pela internet responderam pela maior fatia das emissões em artigos de necessidades e têxteis, com cerca de 60 percent e 77 percent, respetivamente.
Já nas compras em lojas físicas, a maior parte das emissões esteve ligada aos produtos alimentares, em torno de 74 percent.
As fontes por trás dessas emissões também não foram as mesmas. Nas compras pela internet, o frete de longa distância e as embalagens apareceram como os principais geradores de gases de efeito estufa.
Só as embalagens representaram 54 percent das emissões das compras pela internet em artigos de necessidades e expressivos 70 percent em têxteis.
Nas compras tradicionais, por outro lado, o fator dominante foram os deslocamentos do consumidor até as lojas físicas: 80 percent das emissões em artigos de necessidades, 77 percent em têxteis e 70 percent em produtos alimentares.
Estimativas anteriores deixavam muito de fora
A análise também mostrou o quanto avaliações simplificadas podem subestimar a pegada ambiental real do varejo.
Quando os investigadores incluíram frete aéreo, diferentes materiais de embalagem e múltiplos modos de transporte, as estimativas de emissões de gases de efeito estufa aumentaram de forma significativa.
Os valores ficaram cerca de 50 percent a 400 percent mais altos do que aqueles obtidos com um método de cálculo anterior, mais limitado.
Essa diferença expressiva sugere que muitas estimativas existentes sobre o impacto climático do varejo podem estar contabilizando muito abaixo do custo real de levar produtos da produção até as mãos do cliente.
As emissões das compras continuaram a subir
O protocolo permite acompanhar como a poluição associada às compras evoluiu em paralelo a mudanças no transporte, nas entregas, na eletricidade e em normas de emissão. Assim, em vez de um retrato isolado, obtém-se uma visão mais ampla.
Entre 1990 e 2023, as emissões de gases de efeito estufa cresceram de forma acentuada nas três categorias do estudo de caso, à medida que a procura do consumidor se expandiu de maneira constante.
Padrões mais rígidos de emissão veicular geraram quedas temporárias em vários poluentes do ar em determinados períodos.
No entanto, esses avanços não bastaram para compensar a tendência geral de alta impulsionada pelo aumento do consumo.
Para apoiar um sistema de varejo mais verde, o setor deveria apostar em veículos de carga mais limpos e em opções de transporte mais eficientes e com menores emissões.
Embalagens mais leves e sustentáveis e menos viagens de compra dependentes do carro também podem reduzir emissões de forma relevante.
A IA pode ajudar a rastrear a poluição das compras
A equipa de pesquisa também desenvolveu um modelo de IA capaz de aplicar esse protocolo ao nível de eventos individuais de compra.
Esse tipo de modelo consegue simular diferentes comportamentos do consumidor e configurações da cadeia de abastecimento, ao mesmo tempo que rastreia as emissões pelas seis fases do enquadramento.
Ao oferecer dados estruturados e uma lógica de cálculo verificável, a estrutura pode servir como uma referência fiável para futuros sistemas de inteligência artificial destinados a avaliar emissões no varejo.
No fim, os autores esperam que o protocolo ajude cientistas, empresas, formuladores de políticas públicas e consumidores a construir estratégias mais direcionadas e baseadas em evidências.
Essas estratégias podem contribuir para reduzir a pegada ambiental do varejo como um todo.
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