Uma dose mais alta do medicamento para perda de peso semaglutida (mais conhecido pela marca Wegovy) pode ajudar pessoas a emagrecerem até 25% do peso corporal - sem aumentar o risco de efeitos colaterais graves. Essa conclusão vem dos resultados de dois ensaios clínicos publicados recentemente.
A semaglutida já demonstrou boa eficácia para emagrecimento. Porém, a redução de peso costuma estabilizar depois de cerca de um ano de uso - mesmo com a maior dose aprovada do medicamento. Na prática, isso pode impedir que alguns pacientes alcancem as metas de perda de peso.
Diante disso, pesquisadores buscaram verificar se uma dose superior poderia manter (ou ampliar) o efeito, sem trazer um risco maior de eventos adversos importantes.
O que os ensaios clínicos com semaglutida avaliaram
No primeiro estudo, os pesquisadores analisaram o efeito de 7,2mg de semaglutida em adultos com obesidade. Essa quantidade é três vezes maior do que a dose aprovada atualmente de 2,4mg usada no Wegovy. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente para receber, uma vez por semana e durante 72 semanas, a dose mais alta, a dose padrão ou um medicamento placebo.
Além do tratamento, os participantes foram orientados a reduzir a ingestão diária em cerca de 500 calorias por dia e a aumentar a atividade física semanal (com meta de aproximadamente 150 minutos).
Resultados em pessoas com obesidade (sem diabetes)
Entre aqueles que seguiram integralmente o esquema proposto, o grupo que recebeu 7,2mg perdeu, em média, quase 21% do peso corporal - em comparação com 17,5% no grupo da dose padrão. Já os participantes que tomaram placebo tiveram uma perda de apenas 2,4% do peso.
Cerca de 33% dos participantes que usaram a dose mais alta também atingiram níveis muito elevados de emagrecimento - perdendo 25% ou mais do peso corporal total. Esse percentual é aproximadamente o dobro do observado no grupo com dose padrão, em que pouco menos de 17% chegaram a esse grau de perda de peso.
Quem usou semaglutida também apresentou melhorias mais expressivas na saúde cardiometabólica do que aqueles que receberam apenas placebo.
Como era esperado, os efeitos colaterais apareceram com mais frequência entre as pessoas que tomaram a dose mais alta de semaglutida do que entre as que receberam a dose menor. As reações mais comuns foram gastrointestinais, como náusea ou diarreia.
Por causa desses sintomas gastrointestinais, cerca de 3% dos participantes no grupo de dose mais alta e 2% no grupo de dose padrão interromperam o uso do medicamento.
Resultados em obesidade com diabetes tipo 2
O segundo ensaio investigou o que uma dose maior de semaglutida provocaria em pessoas com diabetes tipo 2.
É bem conhecido que pessoas com diabetes tipo 2, em geral, emagrecem menos com semaglutida do que aquelas sem diabetes. Ainda não se sabe ao certo por que isso acontece. Assim, o objetivo do segundo estudo foi avaliar se uma dose mais alta de semaglutida também poderia produzir uma redução de peso relevante em pessoas com diabetes tipo 2.
Dessa vez, foram recrutados 512 participantes com obesidade e diabetes tipo 2. O desenho do estudo foi exatamente o mesmo do ensaio anterior.
Os participantes tratados com 7,2mg de semaglutida perderam pouco mais de 13% do peso corporal. No grupo de dose padrão, a perda foi de cerca de 10% do peso, enquanto o grupo placebo perdeu pouco menos de 4% do peso total.
Além do emagrecimento, a dose de 7,2mg de semaglutida trouxe ganhos mensuráveis na saúde metabólica. Em média, a circunferência da cintura diminuiu 6,5cm em relação ao grupo placebo. Os níveis de glicose no sangue (HbA1c, uma medida do controle do diabetes) também caíram quase 2% entre os que receberam a dose mais alta.
De novo, os problemas gastrointestinais foram os efeitos colaterais mais frequentes em quem tomou semaglutida - e cerca de 6% dos participantes do estudo deixaram o ensaio por causa dessas reações.
Benefício para o paciente
A semaglutida favorece a perda de peso ao imitar o hormônio natural GLP-1 do organismo, que ajuda a regular a glicemia e o apetite. Esses medicamentos atuam em vias cerebrais que controlam o equilíbrio energético e a ingestão de alimentos, o que reduz a fome e aumenta a sensação de saciedade (plenitude) mais cedo após comer. Com isso, a pessoa tende a comer menos, contribuindo para o emagrecimento.
Doses mais elevadas de semaglutida promovem maior perda de peso porque ativam com mais intensidade as áreas do cérebro responsáveis por controlar o apetite, diminuindo a fome e ampliando a sensação de saciedade. Elas também retardam de forma mais eficaz o esvaziamento do estômago, o que ajuda a reduzir a ingestão total de alimentos.
No conjunto, os resultados desses dois ensaios indicam que uma dose mais alta de semaglutida é segura e altamente eficaz. A possibilidade de usar doses maiores amplia as alternativas para pacientes no manejo do peso e no controle da glicemia. Também oferece uma opção para quem não responde bem à dose padrão de 2,4mg ou para quem percebe a perda de peso estabilizar.
Esses achados também mostram que a semaglutida pode competir com outros medicamentos para emagrecimento, como a tirzepatida (Mounjaro).
Em um ensaio anterior de comparação direta, uma dose de 10gm-15mg de tirzepatida levou a uma perda de 20% do peso corporal nos participantes - enquanto uma dose padrão de semaglutida resultou em aproximadamente 14% de perda de peso.
No entanto, esses estudos recentes indicam que uma dose mais alta de semaglutida pode alcançar níveis de emagrecimento comparáveis.
Esses resultados também podem levantar a questão de se a escalada de dose pode se tornar um padrão futuro de cuidado no tratamento da obesidade.
Martin Whyte, professor associado de Medicina Metabólica, University of Surrey
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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