Pular para o conteúdo

Ouriço-europeu: descoberta sobre ultrassom pode ajudar a protegê-lo nas estradas

Pesquisador em jaleco analisa dados sonoros de um ouriço próximo a estrada, com placa de aviso.

Todas as noites, ouriços percorrem jardins, parques e campos à procura de alimento. Em muitas dessas andanças, esses animais pequenos acabam precisando atravessar estradas.

Infelizmente, uma grande parte não consegue. Todos os anos, carros matam muitos ouriços. Agora, cientistas investigam uma ideia nova que pode contribuir para protegê-los.

Uma descoberta recente mostrou que os ouriços conseguem ouvir sons muito agudos, chamados de ultrassom. Esse achado pode orientar a criação de dispositivos de alerta capazes de manter ouriços longe de vias e de outros riscos.

O estudo foi liderado por pesquisadores da Universidade de Oxford, em parceria com várias instituições europeias. A equipe avaliou como o ouriço-europeu escuta e como suas orelhas são estruturadas. Os resultados podem apoiar ações de proteção dessa espécie, que está em declínio.

O número de ouriços está caindo

O ouriço-europeu é um animal silvestre bastante conhecido em muitas regiões da Europa. É comum que pessoas vejam ouriços visitando jardins ou se deslocando por arbustos durante a noite. Ainda assim, a espécie vem enfrentando problemas sérios.

Nos últimos anos, as populações de ouriços diminuíram de forma acentuada. Essa queda está ligada a diversos fatores, mas um dos maiores perigos é o tráfego de veículos. Muitos ouriços morrem ao cruzar estradas enquanto procuram comida.

Cientistas estimam que atropelamentos podem matar até um terço dos ouriços em algumas áreas. O risco aumenta na época de acasalamento. Nesse período, os ouriços percorrem distâncias maiores para encontrar parceiros, o que eleva a chance de encontrarem carros pelo caminho.

Outras máquinas também representam ameaça. Aparadores de grama e cortadores de grama robóticos podem feri-los ou matá-los quando eles se escondem na vegetação.

Ouriços ouvem ultrassom

Pesquisadores confirmaram recentemente que os ouriços conseguem ouvir ultrassom, incluindo sons que os humanos não percebem. Em geral, a audição humana vai de cerca de 20 a 20.000 hertz.

A equipe constatou que o ouriço-europeu pode captar sons de aproximadamente 4 a 85 quilohertz, com maior sensibilidade em torno de 40 quilohertz.

Com isso, os ouriços conseguem detectar uma variedade de sons de alta frequência que passam despercebidos para as pessoas.

Importância da descoberta

A professora Sophie Lund Rasmussen, da Wildlife Conservation Research Unit, da Universidade de Oxford, e da Universidade de Copenhague, explicou por que o resultado é relevante.

“Having discovered that hedgehogs can hear in ultrasound, the next stage will be to find collaborators within the car industry to fund and design sound repellents for cars,” observou Rasmussen.

“If our future research shows that it proves possible to design an effective device to keep hedgehogs away from cars, this could have a significant impact in reducing the threat of road traffic to the declining European hedgehog.”

Essa capacidade pode permitir que cientistas desenvolvam sons de aviso que os ouriços tendam a evitar.

Como os cientistas testaram a audição dos ouriços

No estudo, os pesquisadores testaram 20 ouriços. Esses animais estavam em recuperação em centros de resgate de fauna na Dinamarca.

Cada ouriço havia sido resgatado anteriormente por motivo de doença, ferimento ou abandono. Após se recuperarem, estavam prontos para voltar à natureza.

Os cientistas aplicaram um teste chamado resposta auditiva do tronco encefálico. Pequenos eletrodos foram colocados em cada ouriço para registrar sinais elétricos entre o ouvido e o cérebro.

Durante o procedimento, sons curtos eram reproduzidos por um alto-falante. Os registros mostravam como o cérebro reagia a cada estímulo. Os experimentos ocorreram à noite, para acompanhar o período natural de atividade dos ouriços.

Depois dos testes, veterinários avaliaram todos os animais. Pouco tempo depois, os ouriços foram soltos novamente na natureza.

Estrutura da orelha do ouriço

A equipe também analisou a estrutura da orelha do ouriço. Para isso, os cientistas usaram exames de microtomografia computadorizada (micro-CT) de alta resolução para estudar um crânio de ouriço. Esses exames geraram um modelo tridimensional detalhado do ouvido.

As imagens revelaram características que favorecem a percepção de sons muito agudos. Os ossos do ouvido médio são pequenos e densos, e conduzem as vibrações sonoras do tímpano até o ouvido interno.

A cóclea, no interior do ouvido, também é compacta. Essa estrutura em espiral ajuda a processar as vibrações do som. Nos ouriços, a cóclea forma cerca de 1,7 voltas, um desenho que sustenta a detecção de frequências muito altas.

Em conjunto, esses aspectos permitem que os ouriços ouçam sons ultrassônicos.

Por que os ouriços podem ouvir ultrassom

Os cientistas ainda buscam entender por que os ouriços evoluíram essa capacidade. Uma hipótese envolve a audição direcional: o ultrassom pode ajudar os ouriços a identificar com mais precisão a direção de onde os sons vêm.

Outra possibilidade está relacionada à caça. Alguns insetos emitem sons ultrassônicos, e os ouriços poderiam captar esses sinais enquanto procuram presas.

Os pesquisadores também investigam se os ouriços se comunicam por meio de ultrassom. Muitos pequenos mamíferos usam sons ultrassônicos para se comunicar de formas que os humanos não escutam.

“Our novel results revealed that European hedgehogs are designed to, and can, perceive a broad ultrasonic range. A fascinating question now is whether they use ultrasound to communicate with each other, or to detect prey – something we have already begun investigating,” comentou Rasmussen.

Uma nova ferramenta para conservação

Como os ouriços conseguem ouvir ultrassom, os cientistas acreditam que essa habilidade pode ser usada para protegê-los.

Dispositivos específicos poderiam emitir sons ultrassônicos que os ouriços evitam. Esses sinais poderiam alertar os animais antes que se aproximem de estradas ou de máquinas perigosas.

As pessoas não ouviriam esses sons, e muitos animais de estimação também não os perceberiam. Isso torna o ultrassom uma ferramenta promissora para a conservação.

“It is especially exciting when research motivated by conservation leads to a fundamental new discovery about a species biology which, full circle, in turn offers a new avenue for conservation,” disse o professor David Macdonald, da Universidade de Oxford.

“The critical question now is whether the hedgehogs respond to ultrasound in ways that might reduce the risks of collisions with robotic lawnmowers or even cars.”

Agora, os cientistas vão observar como os ouriços reagem a sons ultrassônicos. Se a abordagem funcionar, esses sons poderão salvar muitos ouriços todos os anos.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário