Um estudo recente indica que muitos insetos - sobretudo nos trópicos - já vivem perto do limite de calor que conseguem suportar. Mesmo com o aquecimento do planeta, uma parcela grande das espécies talvez não consiga “treinar” o organismo para lidar com temperaturas mais altas.
A preocupação vai além da possibilidade de desaparecimento de insetos. O problema é o que pode acontecer com os ecossistemas quando serviços como polinização, decomposição e controlo natural de pragas começam a falhar.
Uma equipa internacional avaliou a tolerância térmica em mais de 2,000 espécies de insetos e comparou esses dados com pistas genéticas sobre o quanto as suas proteínas permanecem estáveis sob stress.
Os testes abrangeram ambientes muito distintos, desde florestas montanhosas frias até áreas quentes de baixa altitude na África Oriental e na América do Sul, permitindo delinear onde a adaptação parece viável e onde se mostra fortemente limitada.
Insetos de montanha e insetos de baixa altitude
O trabalho contesta uma ideia que parece óbvia: a de que insetos de regiões mais quentes seriam, por definição, melhores a suportar calor e que as espécies conseguiriam ajustar a tolerância à medida que o clima muda. Segundo os autores, a realidade é bem menos uniforme.
“As avaliações atuais da tolerância ao calor de insetos como mariposas, moscas e besouros desenham um quadro diferenciado - e ao mesmo tempo alarmante”, afirmou a autora principal Kim Holzmann, investigadora da Julius-Maximilians-Universität Würzburg (JMU).
Para Holzmann, a capacidade de lidar com temperaturas elevadas não acompanha de forma direta o clima local.
De acordo com o estudo, a tolerância dos insetos ao calor não se ajusta automaticamente ao ambiente em que cada espécie vive.
“Embora espécies em altitudes mais elevadas consigam aumentar a tolerância ao calor, pelo menos no curto prazo, muitas espécies de baixas altitudes em grande medida não têm essa capacidade”, disse Holzmann.
Essa diferença é crucial porque as zonas tropicais de baixa altitude concentram um número enorme de espécies de insetos. Se muitas delas não conseguirem elevar os seus limites térmicos, o aumento da temperatura pode empurrá-las para condições perigosas mais depressa do que se imaginava.
Consequências para além dos insetos
Os investigadores enfatizam que insetos não são um tema periférico. Eles ocupam uma posição central no funcionamento de muitos ecossistemas. Quando as populações de insetos mudam, efeitos em cadeia podem atingir desde a reprodução das plantas até a saúde do solo.
Os cientistas descrevem os riscos de forma particularmente dura para regiões tropicais, onde a biodiversidade é alta e o aquecimento pode ser persistente.
O estudo, publicado na Nature, deixa claro que insetos tropicais têm uma capacidade muito limitada de se adaptar às alterações climáticas.
“O aumento das temperaturas pode ter um impacto enorme nas populações de insetos, especialmente em regiões com a maior biodiversidade do mundo”, afirmou Marcell Peters, ecólogo animal da Universidade de Bremen.
“Como os insetos cumprem funções centrais nos ecossistemas como polinizadores, decompositores e predadores, há uma ameaça de consequências de grande alcance para ecossistemas inteiros.”
A lógica é direta. Se os insetos não suportarem o calor, as populações podem diminuir, os padrões de atividade podem mudar e os ciclos de vida podem ser desorganizados.
Qualquer uma dessas alterações pode repercutir no ambiente. A polinização pode ficar menos consistente. A decomposição pode abrandar ou tornar-se irregular. Relações entre predadores e presas podem evoluir para padrões novos e instáveis.
Limites podem estar fixados na biologia dos insetos
Um dos pontos mais preocupantes do estudo é que a tolerância ao calor talvez não seja tão maleável quanto se costuma supor.
Os autores identificaram diferenças nítidas entre grupos de insetos e sugerem que isso não depende apenas do local onde vivem. Essas variações podem refletir restrições biológicas profundas.
Há também diferenças marcantes entre diferentes grupos de insetos. Os especialistas atribuem essas diferenças à estrutura e à estabilidade térmica das proteínas.
“Essas propriedades são relativamente conservadas na árvore evolutiva dos insetos e só podem ser alteradas de forma limitada”, disse Peters.
“Os resultados sugerem que características fundamentais da tolerância ao calor estão profundamente enraizadas na biologia e não podem ser rapidamente adaptadas a novas condições climáticas.”
Se a tolerância ao calor estiver intimamente ligada à estabilidade das proteínas - e se essa estabilidade mudar lentamente ao longo do tempo evolutivo -, o aquecimento acelerado do clima torna-se um descompasso sério. As espécies podem enfrentar temperaturas que avançam mais rápido do que a sua capacidade de adaptação.
Isso ajuda a explicar por que alguns insetos podem sair-se melhor do que outros mesmo no mesmo ambiente. Não se trata apenas de “esforço”, comportamento ou aclimatação. Pode ser uma questão de como a biologia está construída ao nível molecular.
A Amazónia parece especialmente vulnerável
Os cientistas apontam a região da Amazónia como um local onde o calor futuro pode tornar-se um fator de stress crítico para uma grande fração da vida de insetos.
O alerta não significa que todo inseto vá desaparecer. A preocupação é que muitas espécies ultrapassem limites a partir dos quais atividades normais se tornam difíceis ou a sobrevivência cai.
“Se os ecossistemas globais continuarem a aquecer sem controlo, as temperaturas futuras esperadas levarão a stress térmico crítico para até metade das espécies de insetos de lá”, disse Holzmann.
“Stress térmico crítico” indica condições em que os insetos podem não conseguir funcionar normalmente, reproduzir-se de forma confiável ou evitar superaquecimento letal durante os períodos mais quentes.
Numa região tão interligada como a Amazónia, a perda de grandes parcelas da diversidade de insetos pode remodelar os ecossistemas de maneiras difíceis de prever e difíceis de reverter.
Uma razão central para os autores tratarem o tema como urgente é que a tolerância ao calor dos insetos ainda é pouco medida, sobretudo nos trópicos. Isso chama a atenção, considerando o quanto os insetos dominam a diversidade animal.
Há poucos dados disponíveis
Os insetos representam cerca de 70% de todas as espécies animais conhecidas, e a maioria vive nos trópicos. Ainda assim, sabe-se pouco sobre o quanto os insetos tropicais conseguem lidar com o aumento das temperaturas.
Um dos motivos é a escassez de dados experimentais de medição sobre limites de tolerância à temperatura e a falta de investigação suficiente sobre muitos grupos de insetos até agora.
Para este estudo, os cientistas analisaram os limites de tolerância à temperatura de mais de 2,000 espécies de insetos.
Os dados foram recolhidos em 2022 e 2023 em várias altitudes na África Oriental e na América do Sul, indo de florestas montanhosas frias a florestas tropicais quentes e savanas de baixa altitude.
A equipa também avaliou os genomas de numerosas espécies para examinar a estabilidade das proteínas e compreender melhor por que alguns grupos de insetos toleram o calor melhor do que outros.
A parte genética é importante porque não se limita a descrever o que acontece. Ela tenta esclarecer por que acontece, conectando diferenças de tolerância ao calor a uma base biológica que pode não ser facilmente “treinada” para se tornar outra.
O que isto significa daqui para a frente
A pesquisa transmite uma mensagem clara. O aquecimento não é apenas um tema de deslocamento de áreas de ocorrência para o norte ou para altitudes maiores. Para muitos insetos tropicais, pode haver pouca “subida” disponível e quase nenhuma margem de tolerância sobrando.
Se as espécies de baixa altitude não conseguirem elevar os seus limites térmicos, proteger habitats por si só talvez não baste. O próprio clima passa a ser a barreira.
Na prática, os autores pedem mais atenção à fisiologia dos insetos, mais medições em regiões pouco estudadas e uma visão mais realista sobre a rapidez com que sistemas vivos conseguem ajustar-se.
Nos trópicos, onde os insetos sustentam tantas formas de vida, a margem para erro pode ser menor do que pensávamos.
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