O dióxido de carbono é um gás que a maioria das pessoas associa diretamente às mudanças climáticas. Ele retém calor na atmosfera e contribui para o aquecimento do planeta. Só que pesquisadores passaram a investigar outra questão relevante: o aumento do dióxido de carbono também estaria alterando o corpo humano?
Um estudo recente indica que isso pode estar acontecendo. Os autores observaram que, à medida que a concentração de dióxido de carbono no ar sobe, certos componentes químicos do sangue humano também apresentam mudanças.
Se esse padrão se mantiver, um marcador importante do sangue pode atingir o limite superior do que médicos consideram saudável nos próximos 50 anos.
Isso pode ser ainda mais significativo para crianças e adolescentes, porque são corpos jovens que permanecerão por mais tempo vivendo nessa atmosfera em transformação.
Como o dióxido de carbono muda o sangue
O corpo humano produz dióxido de carbono naturalmente todos os dias. Quando as células usam oxigénio para gerar energia a partir dos alimentos, o dióxido de carbono surge como um resíduo do processo. O sangue transporta esse gás até os pulmões, e a respiração o elimina.
Dentro do sangue, a maior parte do dióxido de carbono se transforma em outra substância, chamada bicarbonato. Uma enzima conhecida como anidrase carbónica participa dessa conversão.
O bicarbonato tem uma função essencial: além de ajudar no transporte do dióxido de carbono, ele evita que o sangue fique ácido demais ou básico demais.
Para manter o pH do sangue estável, o organismo faz um controle rigoroso. Alterações pequenas no pH já podem repercutir em órgãos, músculos e no cérebro. E, quando os níveis de dióxido de carbono aumentam, os níveis de bicarbonato normalmente também sobem.
Mudanças no sangue ao longo do tempo
Cientistas do Instituto de Pesquisa Infantil da Austrália analisaram dados de saúde dos Estados Unidos. As informações vieram da Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição.
Nessa pesquisa, amostras de sangue de cerca de 7.000 pessoas foram testadas a cada dois anos, entre 1999 e 2020.
Ao longo desse intervalo, o dióxido de carbono na atmosfera passou de cerca de 369 partes por milhão para mais de 420 partes por milhão.
Os pesquisadores identificaram que a média de bicarbonato no sangue aumentou aproximadamente 7% nesses 20 anos. No mesmo período, a concentração de cálcio caiu em torno de 2%, e a de fósforo diminuiu cerca de 7%.
“"O que estamos vendo é uma mudança gradual na química do sangue que espelha a alta do dióxido de carbono atmosférico, que está impulsionando as mudanças climáticas"”, afirmou o professor Alexander Larcombe.
Possíveis riscos futuros para a saúde
Em 2019 a 2020, o nível médio de bicarbonato chegou a 25,3 mEq/L. Para médicos, 30 mEq/L é considerado o limite superior saudável no sangue venoso.
Se o bicarbonato continuar aumentando no mesmo ritmo, ele pode alcançar esse limite por volta do ano de 2076.
Cálcio e fósforo também são fundamentais para a saúde. O cálcio contribui para a formação de ossos e dentes resistentes, além de participar do movimento muscular, do ritmo cardíaco e da transmissão de sinais nos nervos.
Já o fósforo é importante para a produção de energia nas células. Ele compõe o ATP, que sustenta praticamente todas as actividades internas das células. Também participa da formação do ADN e auxilia a entrega de oxigénio pelos glóbulos vermelhos.
Quando há mais dióxido de carbono no corpo, o sangue pode ficar ligeiramente mais ácido. Para compensar isso, o organismo pode mobilizar cálcio e fósforo dos ossos. Com o tempo, esse mecanismo pode interferir na força óssea e no equilíbrio de minerais.
Os humanos conseguem se adaptar?
Há especialistas que consideram que o corpo pode se ajustar sem grandes dificuldades a concentrações mais altas de dióxido de carbono. Outros, porém, veem a situação com mais cautela.
“"Eu realmente acho que o que estamos vendo é porque nossos corpos não estão se adaptando. Parece que estamos adaptados a uma faixa de CO2 no ar que talvez já tenha sido ultrapassada"”, disse o coautor do estudo, Dr. Phil Bierwirth.
“"A faixa normal mantém um equilíbrio delicado entre quanto CO2 existe no ar, o pH do nosso sangue, nossa taxa de respiração e os níveis de bicarbonato no sangue."”
“"Como o CO2 no ar agora está mais alto do que os humanos já experimentaram, parece que ele está se acumulando em nossos corpos. Talvez nunca consigamos nos adaptar, de modo que é vitalmente importante limitar os níveis atmosféricos de CO2."”
Durante a maior parte da história humana, o dióxido de carbono se manteve em torno de 280 a 300 partes por milhão. Os níveis atuais estão muito acima do que os primeiros humanos vivenciaram.
Efeitos no cérebro e na saúde em geral
Estudos indicam que até aumentos moderados de dióxido de carbono em ambientes internos podem prejudicar o raciocínio e a concentração. Em alguns grupos, níveis entre 1.000 e 2.500 partes por milhão foram associados a decisões mais lentas e a mudanças na actividade cerebral.
Pesquisas com animais sugerem que a exposição prolongada a concentrações mais altas de dióxido de carbono pode alterar a estrutura dos pulmões, o comportamento e até a actividade de genes.
Outros trabalhos apontam que o dióxido de carbono elevado pode aumentar hormonas do stress e provocar stress oxidativo, capaz de danificar células.
Ainda assim, os cientistas destacam a necessidade de estudos humanos de longo prazo para compreender plenamente o que pode ocorrer se, no futuro, o dióxido de carbono atmosférico chegar a 500 a 800 partes por milhão.
Uma preocupação crescente de saúde pública
Esses achados não significam que as pessoas vão adoecer de repente quando o dióxido de carbono atingir um determinado número. A indicação, na verdade, é de mudanças lentas e contínuas que podem já estar ocorrendo dentro do organismo.
Caso o dióxido de carbono continue subindo, os níveis de bicarbonato no sangue podem alcançar faixas não saudáveis em algumas décadas. Ao mesmo tempo, cálcio e fósforo podem se aproximar do limite inferior considerado saudável.
Diminuir as emissões de dióxido de carbono é importante para proteger o planeta. Este estudo sugere que isso também pode ser relevante para preservar a saúde humana.
O ar ao nosso redor não interfere apenas no clima: ele também pode influenciar a química que acontece dentro do nosso próprio corpo.
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