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Penas e pelos revelam roupas em sepultamentos da Idade da Pedra na Suécia, em Skateholm

Pessoa agachada coleta ossos e penas em uma praia rochosa durante o dia.

Por décadas, diversos sepultamentos da Idade da Pedra na Suécia foram descritos como simples - quase austeros. Nada de objetos funerários chamativos. Nenhuma roupa preservada. Apenas ossos misturados ao solo.

Agora, pesquisadores perceberam que o próprio chão guardava uma pista. Fragmentos minúsculos de penas e fios de pelo - ignorados por anos - indicam que muitas dessas pessoas foram enterradas vestidas, por completo.

Esses vestígios microscópicos estão mudando a leitura arqueológica desses rituais, trazendo de volta às evidências a presença de roupas macias e adornos pessoais em túmulos que antes pareciam totalmente desprovidos deles.

Túmulos que pareciam nus

Nos cemitérios de Skateholm, no sul da Suécia, amostras de solo de dezenas de enterramentos, armazenadas por muito tempo, preservaram restos discretos de trajes que desapareceram.

Ao analisar esse material arquivado, a arqueóloga Tuija Kirkinen, da Universidade de Helsinque, registrou fragmentos de pena e de pelo incrustados no sedimento junto aos esqueletos.

Em 35 sepultamentos do sítio, esses sinais surgiram inclusive em enterros que haviam sido descritos como sem quaisquer objetos funerários.

Como a evidência sobrevive apenas na forma de fibras dispersas - e não como roupas inteiras -, os resultados pedem cautela e uma leitura atenta do que esses fragmentos permitem (e não permitem) afirmar.

Recuperando vestígios antigos de têxteis

A equipe usou água para soltar fibras minúsculas de cada amostra de solo, separando o que um dia tocou a pele do sedimento que as encobriu. Depois de peneirar e secar, os pesquisadores triavam o material recuperado ao microscópio.

Pelos e penas quase sempre se decompõem em solos comuns, o que ajuda a explicar por que tantos enterros antigos parecem não ter vestimenta. Ainda assim, cabelos e penas são ricos em queratina, uma proteína resistente que tende a durar mais do que a pele ou tecidos vegetais, oferecendo uma pequena vantagem de preservação.

Mesmo com essa resistência, reconhecer a espécie a partir de fragmentos microscópicos foi um desafio. Pedaços muito pequenos de pena e pelo raramente mantêm estrutura suficiente para uma identificação segura.

“A identificação em nível de espécie de fragmentos microscópicos de penas e pelos é difícil, e esse aspecto do método de análise ainda pode ser desenvolvido mais”, afirmou Kirkinen.

Apesar disso, a estratégia de enxaguar e peneirar revelou fibras até mesmo em solos com condições ruins de preservação. “Com o nosso método, é possível encontrar fibras microscópicas mesmo em áreas com condições de preservação ruins”, acrescentou.

A mesma abordagem pode ser aplicada a muitos solos arqueológicos, não apenas a covas funerárias. Porém, embora as fibras confirmem que roupas existiram, elas não permitem reconstruir trajes completos nem indicar cores, padrões ou tipos de costura.

Penas em roupas funerárias

Fragmentos de pena e pelos finos de pequenos mamíferos apareceram concentrados ao redor de crânios, sugerindo adornos de cabeça que já tinham desaparecido muito antes das escavações. Vestígios de penas de gavião ou águia, de coruja e de outras aves próximos às cabeças combinam com o padrão de cocares usados em vida.

Em alguns sepultamentos, penas também surgiram perto dos braços, o que aponta para a fixação de partes de aves em mangas ou coberturas para as mãos. Embora as formas exatas permaneçam desconhecidas, a distribuição com forte predominância na região da cabeça sustenta a hipótese de um adereço visualmente marcante.

Além do uso decorativo, o estudo associou certas fibras a peles de aves aquáticas usadas para vestir os mortos. Penas de aves de ambientes aquáticos foram encontradas ao longo do tronco e das pernas, insinuando casacos, mantos ou forros confeccionados com peles de pássaros.

Raramente havia ossos de aves nas covas, o que sugere que as penas vieram de peles já processadas - e não de aves inteiras depositadas junto ao corpo no momento do enterro. Esse padrão indica uma escolha intencional de materiais, combinando animais terrestres e aquáticos para compor a indumentária do falecido.

Pelo nos pés

Um sepultamento trouxe a evidência mais direta de que esses enterros estavam longe de ser “vazios”, apesar de assim terem sido descritos por escavadores no passado.

Aos pés de uma mulher com mais de 60 anos, os pesquisadores localizaram pelos de doninha com coloração branca de inverno, pelos felinos marrons e fragmentos minúsculos de penas misturados ao solo.

Essas fibras não pareciam estar ali por acaso. A posição em que apareceram indica com força que ela foi enterrada usando algum tipo de calçado feito de pele, de penas ou de pele de ave.

Não dá para visualizar o desenho exato. Ainda assim, alguns fios sobreviventes bastam para mostrar que houve cuidado ao vesti-la. A idade não significou anonimato - nem descaso - após a morte.

Corda, casca e amarração

Os vestígios não se limitaram a fibras de origem animal. O grupo também encontrou fibras vegetais - sinais sutis de cordões, amarrações ou envoltórios que, de outra forma, teriam desaparecido por completo.

Parte dos fragmentos veio de fibras da casca interna, materiais que as pessoas costumavam torcer para fazer cordas usadas em amarrar ou carregar. A presença perto das mãos e das costas sugere que os corpos podem ter sido envolvidos, presos ou apoiados sobre superfícies macias dentro da sepultura.

Como fibras vegetais se degradam rapidamente, não foi possível apontar a espécie exata. Mesmo assim, a simples ocorrência desse material acrescenta mais uma camada ao processo funerário - uma camada que teria permanecido invisível sem análise microscópica.

Museus guardam pistas ocultas

Uma das descobertas mais inesperadas não dizia respeito diretamente a penas ou pelos, e sim ao próprio solo. Amostras guardadas por décadas em prateleiras de museu, mantidas em temperatura ambiente, mostraram-se cientificamente úteis.

Com financiamento do Conselho Europeu de Pesquisa, o projeto Animais Constroem Identidades revisitou solos arquivados de múltiplos sítios funerários e constatou que essas coleções negligenciadas ainda continham evidências.

Museus no mundo inteiro armazenam milhares de amostras semelhantes. Se forem manuseadas com cuidado, elas podem se tornar um recurso valioso para estudos futuros sobre fibras.

Isso aumenta a responsabilidade de arqueólogos em campo hoje: deixar de coletar uma porção de solo pode significar perder, para sempre, sinais de roupas antigas.

Pelos e penas reescrevem o registro funerário

Ainda há incertezas nessas reconstruções. Fibras podem se deslocar no solo com o tempo, e pelos modernos podem acabar infiltrados em camadas mais antigas.

Raízes, água e animais escavadores conseguem transportar filamentos para baixo; por isso, pistas baseadas em localização tendem a ser mais confiáveis quando as amostras estão muito próximas aos ossos.

A amostragem irregular e as décadas de armazenamento também tornam o registro menos nítido, mesmo quando controles de laboratório indicam pouca contaminação moderna por penas.

Por enquanto, muitos fragmentos não têm identificação, e qualquer afirmação sobre espécies específicas precisa ser cautelosa e estritamente amarrada ao contexto arqueológico.

Mesmo assim, as fibras microscópicas devolveram às evidências parte da camada perdida entre ossos e objetos funerários, permitindo que a roupa do enterramento volte a contar na interpretação.

Com amostragem mais sistemática, guias de identificação mais refinados e testes genéticos no solo, os pesquisadores podem tornar essas narrativas mais precisas - sem prometer além do que um punhado de fragmentos realmente consegue demonstrar.

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