Os Vales Secos de McMurdo, na Antártida, estão entre os ambientes mais remotos e preservados do planeta - mas nem mesmo os seus solos estão mais livres de plásticos.
Pesquisadores identificaram microplásticos e nanoplásticos em amostras de solo recolhidas em diferentes pontos do território antártico, inclusive partículas encontradas abaixo da superfície.
Os resultados deixam claro até onde a poluição por plástico já se espalhou, alcançando uma das paisagens mais isoladas da Terra.
A constatação também traz novas preocupações sobre o que isso pode significar para ecossistemas polares particularmente frágeis.
O trabalho foi realizado por uma equipa internacional de cientistas liderada pela Universidade de Lancaster.
As amostras, recolhidas em janeiro de 2023, apontaram uma variedade de plásticos no solo dos Vales Secos.
Foram detetados polipropileno, polietileno, PET, poliestireno, policloreto de vinila (PVC) e até partículas provenientes do desgaste de pneus.
O problema de plástico pouco discutido na Antártida
A poluição por plástico é um problema global bem documentado há anos, e os cientistas já tinham encontrado tanto plásticos maiores quanto microplásticos nas águas ao redor da Antártida.
O que recebeu bem menos atenção, porém, foi o próprio chão. O solo continuava a ser, em grande medida, um ponto cego para a investigação.
Isso criou uma lacuna real para entender até onde a contaminação por plástico tinha avançado na parte terrestre do continente - e não apenas no oceano que o circunda.
E essa lacuna era mais relevante do que parece.
O solo antártico é um dos exemplos mais próximos que existem de um ambiente sem influência direta da atividade humana.
Por isso, funciona como um teste concreto: a poluição por plástico ainda encontra limites ou já não existe praticamente nenhum lugar do planeta que permaneça intacto?
Plásticos minúsculos aparecem por toda parte
Os investigadores encontraram plásticos na camada superficial do solo em treze locais distintos, e nanoplásticos, em particular, apareceram em 54% dessas amostras superficiais.
Ao analisar camadas mais profundas, a equipa também identificou nanoplásticos nas porções inferiores do solo em metade dos pontos avaliados - embora em quantidades menores do que as observadas mais perto da superfície.
Nada disso teria sido percebido sem melhorias relativamente recentes na tecnologia laboratorial.
O grupo aplicou um método desenvolvido recentemente chamado espectrometria de massa por dessorção térmica com reação de transferência de prótons.
A técnica permite detetar partículas de plástico tão pequenas que passariam completamente despercebidas por ferramentas de deteção mais antigas.
Como os plásticos chegaram à Antártida
Ainda não se sabe com certeza como esses plásticos foram parar ali. Os cientistas consideram que a poluição provavelmente resulta de uma combinação de fontes.
Uma parte da contaminação pode ter origem nas próprias bases de pesquisa na Antártida. Outras partículas podem ter percorrido distâncias enormes pela atmosfera antes de, por fim, se depositarem no solo.
Determinar quanto cada fonte contribui e o que isso representa, de facto, para um ecossistema com quase zero exposição prévia ao plástico exigirá muito mais investigação.
A autora principal do estudo, Nhu Phan, realizou a pesquisa durante o seu doutorado na Universidade de Lancaster.
“Esta evidência mostra que os solos em um dos ambientes mais preservados da Terra não estão isentos da contaminação por plástico”, disse Phan.
“Essas descobertas destacam a necessidade urgente de estudar o destino do plástico, o seu transporte e os impactos ecológicos em regiões polares.”
Os riscos para a vida polar
Os autores demonstram preocupação genuína com o que isso pode significar para os ecossistemas da Antártida.
Ambientes polares podem ser ainda mais vulneráveis à contaminação por plástico do que regiões mais quentes. Os invertebrados que vivem ali tendem a ter metabolismos mais lentos e um crescimento mais demorado.
Essas características, em geral, tornam os animais menos adaptáveis e mais suscetíveis a novos estressores químicos com os quais nunca precisaram lidar.
“Nossas descobertas levantam preocupações sobre o alcance global da contaminação por plástico”, afirmou o coautor Crispin Halsall, da Universidade de Lancaster.
“Não está claro se as partículas ultrafinas de nanoplástico surgiram por transporte atmosférico direto de longa distância, vindo de longe, ou pelo intemperismo de detritos plásticos maiores encontrados em áreas marinhas ao longo da costa antártica.”
Se o plástico for sobretudo local, medidas como limpar melhor as bases de pesquisa e reforçar as práticas de gestão de resíduos no continente podem ajudar de forma concreta.
Por outro lado, se o material estiver a chegar carregado pelo vento a partir de várias partes do mundo, nenhuma ação local, isoladamente, será suficiente.
Nesse caso, a solução precisa ocorrer numa escala muito maior - em todos os lugares de onde o plástico está a ser emitido desde o início.
A poluição por plástico não respeita fronteiras
Para os investigadores, os resultados apontam para a necessidade urgente de uma cooperação internacional mais forte para reduzir emissões de plástico em todo o mundo.
Ao mesmo tempo, eles defendem uma gestão de resíduos mais rigorosa dentro da própria Antártida.
Esse apelo em duas frentes é coerente com o que foi encontrado. Uma descoberta como essa não fica restrita a um vale remoto da Antártida.
Ela funciona como um alerta sobre o quão profundamente o plástico já se incorporou aos sistemas do planeta, chegando a lugares onde a maioria das pessoas nunca pisará.
O achado evidencia que a poluição por plástico deixou de ser um problema local.
Passou a ser algo mais próximo de uma característica permanente do mundo moderno - da qual nem mesmo os cantos mais isolados e congelados da Terra conseguem escapar.
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