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Esporotricose: estudo revela Sporothrix em animais silvestres atropelados no Brasil

Veterinário examina gato-do-mato na beira da estrada com equipamentos científicos ao redor durante o dia.

A esporotricose é uma doença fúngica que, em geral, começa como uma ferida na pele e pode avançar para camadas mais profundas do organismo. A transmissão de gatos infectados para pessoas ocorre com facilidade, e o Brasil observa há anos um crescimento no número de casos.

Até aqui, a maior parte do foco recaiu sobre os gatos domésticos como principal origem. Um novo levantamento com animais silvestres, porém, indica que o cenário pode ser muito mais amplo.

Ao analisar corpos de animais mortos em duas rodovias, uma equipa identificou o fungo associado à doença em locais inesperados. Ele apareceu em aves, em mamíferos e até num réptil.

Atropelamentos viram ferramenta de vigilância

O Brasil perde uma quantidade enorme de animais silvestres no trânsito todos os anos. Estima-se que ocorram 1,3 milhão de mortes por atropelamento por dia, o que ultrapassa 475 milhões ao ano.

Na prática, a maior parte dessas carcaças é apenas removida da pista. Para esta equipa, no entanto, elas representam uma fonte contínua e barata de informação sobre a saúde da fauna.

O estudo nasceu de um projecto de longa duração coordenado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), com análises realizadas na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

As campanhas de recolha aconteceram ao longo de duas rodovias no Paraná - BR-376 e PR-445 - ambas atravessando áreas de Mata Atlântica.

Os corpos foram recolhidos poucas horas após cada colisão. Essa rapidez foi decisiva, porque órgãos preservados têm menos probabilidade de apodrecer ou de receber fungos do solo ao redor.

Fungo Sporothrix é encontrado em animais

Entre 2017 e 2023, a equipa reuniu 81 animais: 39 mamíferos, 36 aves e seis répteis. A partir deles, foram obtidas 178 amostras de tecido do coração, do fígado, dos pulmões e do baço.

Cada amostra passou por um teste rápido de ADN capaz de rastrear, de uma só vez, três espécies nocivas de Sporothrix. O fungo foi detectado em 11 animais, ou 13,6% do grupo, distribuídos pelas três classes.

Coração e fígado foram os locais mais frequentes: seis animais positivos no coração e cinco no fígado. Esse desenho sugere infecção interna, e não apenas contacto superficial.

Esporotricose: o fungo chegou aos órgãos internos

“Conseguimos detectar o ADN do fungo em tecidos internos, como fígado e coração, o que indica que ele está a circular no corpo”, afirmou Steffanie Skau Amadei, doutoranda na Universidade McGill e primeira autora do estudo.

“Além disso, avaliámos apenas órgãos anatomicamente intactos que não estavam expostos ao ambiente, o que poderia ser uma fonte de contaminação.”

O padrão de localização também ajuda a afastar uma via comum de infecção. A presença de ADN no coração e no fígado, em vez de nos pulmões, torna menos provável que os animais tenham simplesmente inalado esporos.

As três espécies não apareceram na mesma proporção. S. schenckii foi a mais comum, encontrada em oito amostras de sete animais diferentes. Já as outras duas espécies surgiram em menos hospedeiros, mas em animais surpreendentes.

Aves desafiam a barreira do calor

“Há uma visão predominante de que as aves estão protegidas de fungos patogénicos simplesmente porque têm uma temperatura corporal elevada, até 42°C, o que tornaria impossível a sobrevivência desses fungos. Vimos neste estudo que espécies patogénicas de facto toleram altas temperaturas corporais”, disse Amadei.

Sporothrix brasiliensis, a espécie por trás da maioria dos casos no Brasil ligados a gatos, apareceu em duas aves: uma rolinha-picui e um inambu-tataupa.

Como muitas aves percorrem longas distâncias, elas podem transportar o fungo muito além do local onde o adquiriram. Isso tornaria qualquer expansão futura bem mais difícil de controlar.

Uma serpente entre os hospedeiros

Uma cobra falsa-coral também testou positivo - o primeiro réptil conhecido a carregar essas espécies. O animal apresentava ADN de duas espécies diferentes de Sporothrix ao mesmo tempo.

Em levantamentos anteriores, répteis quase nunca eram investigados para esse fungo. A serpente pode tê-lo adquirido ao alimentar-se de presas infectadas ou por simples contacto através da pele.

Sporothrix globosa, a mais rara das três espécies no Brasil, também foi detectada numa cutia. Esse roedor, que vive junto ao chão e enterra sementes, provavelmente encontra o fungo enquanto procura alimento no solo.

Predadores carregam o fungo

Um achado chamou atenção do ponto de vista da conservação. Um gato-do-mato-pequeno-do-sul ameaçado de extinção apresentava o fungo no coração, e não na pele.

O local da detecção é relevante. Em gatos, a doença costuma manifestar-se como feridas cutâneas; por isso, um registo no coração aponta para uma infecção mais profunda e disseminada num predador silvestre vulnerável.

Outros mamíferos adaptáveis também tiveram resultado positivo, incluindo a lebre-europeia e o gambá-de-orelha-branca.

Animais com esse perfil circulam com frequência entre floresta e áreas urbanas, podendo funcionar como ponte entre a transmissão silvestre e a urbana.

Onde o silvestre encontra o humano

O fungo foi detectado com maior frequência perto de zonas de transição entre áreas silvestres, rurais e urbanas. Esses limites são justamente os pontos onde animais domésticos e selvagens têm mais chance de se cruzar.

“Estamos a testemunhar o surgimento de Sporothrix em novos hospedeiros. A pressão humana sobre o ambiente está a desfocar as fronteiras entre o que é rural, urbano e silvestre”, disse Anderson Messias Rodrigues, coordenador do estudo.

A detecção esteve associada ao tipo de estrada e ao contacto com animais domésticos, e não à espécie do animal nem ao seu estado de conservação.

Acompanhar o próximo surto

Para a equipa, a avaliação de animais atropelados pode funcionar como um sistema de alerta precoce de baixo custo. A lógica encaixa-se no conceito de Saúde Única, que liga de forma estreita a saúde humana, animal e ambiental.

Esse método também permite alcançar espécies discretas - como felinos silvestres - que são difíceis de estudar por outros meios. Ainda assim, uma questão central permanece em aberto.

“Não foi possível determinar se os fungos estavam na sua forma patogénica nos animais silvestres, mas está claro que eles estão a circular de forma mais ampla do que imaginávamos, representando um risco potencial para a saúde humana e animal”, afirmou Rodrigues.

Para confirmar se esses animais estavam de facto doentes, serão necessárias análises futuras mais detalhadas dos tecidos. De qualquer maneira, a borda da floresta parece hoje um ponto de encontro muito mais movimentado para esse tipo de fungo do que se esperava.

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