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Reflexos infantis e risco de demência: estudo em idosos aponta alerta precoce

Paciente idosa sendo examinada no pé por médico com martelo de reflexos em consultório clínico.

Passar um dedo pela palma de alguém faz a mão se fechar em torno dele. Um toque perto da boca provoca o biquinho dos lábios. Esses são reflexos típicos de bebés, que desaparecem por volta dos dois anos - mas podem reaparecer em pessoas com demência.

Um estudo que acompanhou adultos mais velhos por até duas décadas identificou esses mesmos reflexos surgindo também em pessoas sem qualquer queixa de memória.

O achado mais inquietante: quando esses sinais aparecem em indivíduos cujo desempenho cognitivo ainda é considerado normal, eles antecipam problemas muitos anos antes dos primeiros sintomas.

Reflexos que desaparecem

Recém-nascidos já vêm com um conjunto de reflexos iniciais que os ajuda a mamar e a agarrar-se antes de conseguirem fazer muito mais.

O “aperto” de preensão, a virada da cabeça em direção a um toque na bochecha e o franzir dos lábios vão sumindo conforme o cérebro amadurece.

Quando voltam na vida adulta, neurologistas chamam esses achados de sinais de liberação frontal - reflexos da infância que ressurgem à medida que o cérebro envelhece ou sofre algum tipo de lesão.

Entre eles está o reflexo de preensão; outros podem causar tremor no queixo ou um piscar persistente.

Um único sinal pode aparecer em até uma em cada cinco pessoas saudáveis; isoladamente, portanto, diz pouco. Já a presença de dois ou mais ao mesmo tempo é incomum num cérebro saudável.

Foi exatamente esse padrão que a Dra. Lauren G. Bojarski, do Sanders-Brown Center on Aging, da University of Kentucky, decidiu investigar.

Um exame rápido à beira do leito

Verificar esses reflexos leva menos de dois minutos para um neurologista e não exige mais do que as mãos e um pequeno martelo de reflexos.

Uma revisão ampla de estudos anteriores já havia associado esses sinais à demência, com o reflexo de preensão mostrando a ligação mais forte.

O que ainda não estava esclarecido era se eles conseguiriam antecipar risco em pessoas que, nos testes padrão, ainda pareciam pensar normalmente.

A equipa de Bojarski reuniu registos de mais de 870 adultos mais velhos, todos com 70 anos ou mais, acompanhados em avaliações anuais por até duas décadas.

Os investigadores consideraram “positivos” os voluntários com dois ou mais reflexos e “negativos” aqueles com um ou nenhum.

No início do acompanhamento, todos estavam cognitivamente saudáveis ou apenas com comprometimento leve. Ninguém tinha demência quando o rastreamento começou.

O que os números mostram

A diferença observada foi difícil de ignorar. Entre os participantes que começaram cognitivamente saudáveis, cerca de um em cada quatro com dois ou mais reflexos acabou desenvolvendo demência.

Já entre os que não apresentavam esses reflexos, a proporção ficou mais próxima de um em cada sete.

Mesmo depois de ajustar por idade, sexo e escolaridade, a presença dos reflexos esteve associada a aproximadamente 1,8 vezes o risco de demência.

O mais surpreendente é que esses sinais indicaram risco elevado enquanto todos os testes cognitivos tradicionais ainda pareciam normais.

Não se tratava de pessoas a esquecer nomes ou a confundir datas. Elas iam muito bem nas avaliações, mas uma verificação de reflexos de 30 segundos já captava um sinal silencioso do que poderia vir.

Declínio mental mais lento

Os reflexos não apenas anteciparam quem avançaria para demência. No grupo inicialmente saudável, quem os apresentava também piorou mais depressa ao longo dos anos em testes de memória e flexibilidade mental.

Houve queda em memória de trabalho, atenção, velocidade de processamento e controlo motor, enquanto a linguagem permaneceu estável.

Para os investigadores, isso sugere um problema mais profundo em circuitos situados na porção frontal do cérebro, em vez de uma lesão que se espalha pela sua superfície.

Por que esses reflexos acompanham tão de perto esse declínio ainda não está claro. É possível que reflitam as mesmas alterações cerebrais precoces provocadas pela doença.

Também pode ser que apenas caminhem junto com o processo. O estudo demonstra a associação, mas não esclarece a causa.

Uma ideia antiga, reavaliada

Muito antes de existirem exames de imagem do cérebro, médicos usavam esses reflexos como ferramenta clínica; com a popularização da neuroimagem, eles foram em grande parte deixados de lado.

Antes deste trabalho, apenas um estudo anterior havia testado se esses sinais previam declínio em adultos com pensamento preservado - e não encontrou relação.

Esse projeto mais antigo acompanhou menos pessoas, com idade média menor, e focou sobretudo habilidades mentais que, neste estudo, não parecem ser influenciadas pelos reflexos.

Os resultados atuais também têm uma limitação clara: entre voluntários que já estavam com comprometimento leve, os reflexos não ajudaram a distinguir quem depois evoluiria para demência.

Além disso, os dados vieram de um único centro de pesquisa. Os voluntários tendiam a ser mais velhos, com escolaridade acima da média, e quase todos eram brancos.

Sozinhos, esses reflexos deixam de identificar muitas pessoas, portanto não são propostos como substitutos de testes de memória ou de exames de imagem. A equipa de Bojarski descreve o achado como uma pista rápida e barata entre várias outras.

De volta à clínica

O momento torna o resultado ainda mais relevante. Estão surgindo novos tratamentos voltados aos estágios mais iniciais do Alzheimer, e eles tendem a funcionar melhor quando a doença é detectada antes de causar muito dano.

Em 2025, o primeiro exame de sangue para a doença recebeu aprovação federal, o que abre caminho para rastreamento mais barato e mais cedo.

Uma checagem de reflexos em dois minutos pode ajudar médicos a decidir quem deve passar por testes adicionais muito antes de qualquer sintoma aparecer.

O que este trabalho deixa claro é simples: em adultos mais velhos com memória ainda normal nos testes, dois ou mais desses reflexos infantis que reaparecem elevam em cerca de duas vezes as chances de demência no futuro.

Eles podem surgir bem antes de qualquer avaliação cognitiva soar o alarme. Um sinal que muitos médicos passaram a ignorar talvez mereça voltar ao exame de rotina.

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