A Spirit Airlines, conhecida por operar os aviões mais amarelos do mundo, encerrou suas operações nesta noite, depois de várias semanas de tentativas malsucedidas de resgate.
Origem e expansão da Spirit Airlines
Fundada em 1983, no estado de Michigan, com o nome Charter One Airlines, a empresa começou como uma operadora de fretamentos turísticos. Na fase inicial, voava com turboélices regionais Convair 580 para destinos procurados por famílias que queriam escapar do inverno rigoroso do meio-oeste dos Estados Unidos.
A virada veio em 1992, quando passou a operar jatos e a transformar voos fretados em rotas regulares. Primeiro, inaugurou serviços com os jatos regionais Douglas DC-9 e, mais tarde, com os maiores McDonnell Douglas MD-80 - período em que também adotou a marca Spirit Airlines.
Desde então, a companhia se promoveu como “companhia aérea de 1.99”, isto é, uma operação enxuta, porém com tarifas muito agressivas, direcionada principalmente a passageiros de menor renda que buscavam viajar e aproveitar o tempo livre com a família.
Com essa estratégia, a Spirit cresceu e ampliou sua malha: deixou de atender apenas destinos de praia e passou a incluir também opções turísticas populares, como Nova York e Las Vegas. Ainda assim, a expansão mais marcante aconteceu quando a empresa decidiu apostar na Flórida, espalhando voos a partir do interior dos EUA para o estado mais ensolarado do país.
Modelo ultrabaixo custo: publicidade, taxas e cabine
Entre as apostas comerciais, a Spirit levou ao limite a venda de espaços de publicidade: havia anúncios em praticamente todo lugar disponível, inclusive na fuselagem e também nos bagageiros internos da cabine.
Outra decisão que marcou a empresa foi a cobrança por bagagem de mão - prática em que a Spirit foi pioneira nos EUA e que hoje é comum tanto em companhias de baixo custo americanas quanto em empresas semelhantes na Europa.
No entanto, nem tudo ajudava a imagem da marca. A adoção de assentos ultraleves, conhecidos por serem bastante desconfortáveis, também gerou repercussão negativa.
Relação com tripulantes e o ambiente de trabalho
No lado mais sensível da operação, a Spirit era conhecida por pagar menos aos seus pilotos, mesmo operando jatos considerados de porte médio no mercado americano, que conta com uma aviação regional altamente desenvolvida.
Esse contexto ajudou a alimentar diversas greves ao longo da história da empresa. Ao mesmo tempo, a Spirit também ficou marcada por impor menos exigências para pilotos recém-formados, competindo por profissionais com companhias regionais que operam jatos Bombardier CRJ e Embraer E-Jets.
O início da derrocada
A crise da Spirit não surgiu de um único evento, mas de uma cadeia de problemas, alguns internos e outros fora do controle da companhia. Um dos elementos era a má reputação associada ao público que a empresa atraía.
Ainda que isso possa soar elitista, a percepção se sustentava em episódios recorrentes de passageiros indisciplinados. Parte do público americano dizia que era “o tipo de gente que só voava por causa do preço mais baixo e não sabia se portar em voo”, citando as promoções frequentes de passagens entre US$ 30 e 50 dólares - as mais baratas do país.
Com o tempo, o estigma acabou ligado a rótulos pejorativos como “Karen”, usado para descrever uma mulher branca americana revoltada e fora de controle, e “Florida Man”, referência a homens do estado que cometem loucuras em público e viram notícia com frequência.
Nesse cenário, viajantes com um pouco mais de poder aquisitivo passaram a evitar a empresa. Embora as tarifas fossem claramente mais atrativas do que as das concorrentes, esse público não queria confusão e esperava mais conforto ao viajar.
Problemas operacionais com A320neo/A321neo
Apesar do desgaste de imagem, os golpes mais decisivos vieram da operação. Dezenas de aeronaves novas da companhia, dos modelos A320neo e A321neo, ficaram paradas por falhas nos motores Pratt & Whitney PW1100G. A Spirit foi uma das empresas americanas mais afetadas pelo problema - o mesmo que já havia levado uma companhia da Índia à falência.
Dispensou a única que a queria
Somando essas dificuldades aos impactos da pandemia (que drenaram o caixa), além de uma administração considerada aquém do ideal, a Spirit passou a buscar investidores e a trabalhar ativamente por uma fusão ainda em 2022.
Um entendimento inicial chegou a ser fechado com sua principal concorrente direta, a Frontier Airlines, integrante do grupo Indigo Partners (que também controla a JetSmart do Chile e tem participação na Wizz Air e na Volaris, da Hungria e do México, respectivamente).
Embora fosse um pouco menor, a Frontier era vista como melhor administrada e com foco em mercados mais consolidados - e, por isso, menos dependentes de demanda turística - o que a deixou com menos turbulência após a pandemia do coronavírus.
Ao perceber a possibilidade de união entre duas empresas de tarifas muito baixas, a JetBlue Airways, fundada pelo brasileiro David Neeleman, decidiu entrar na disputa e apresentou uma oferta superior pela Spirit. No início, a Spirit rejeitou a proposta agressiva, argumentando que, apesar de ser mais interessante financeiramente, teria baixa chance de aprovação regulatória. A justificativa era que a JetBlue, sendo uma empresa de baixo custo, compraria uma ultrabaixo custo; assim, a companhia que cobra mais caro prevaleceria sobre a que pratica as tarifas mais econômicas, com prejuízo ao consumidor.
No fim, a oferta da Jetblue acabou prevalecendo. Ainda que tenha havido várias alegações em sentido oposto, a equipe da JetBlue defendeu nos tribunais antitruste que a fusão era necessária para enfrentar empresas ainda mais caras, como American Airlines, Delta e United. O governo dos EUA, porém, barrou a fusão entre Spirit e JetBlue em janeiro de 2024.
A decisão foi ruim para as duas, mas principalmente para a Spirit, que já acumulava problemas e, por isso, entrou com pedido de recuperação judicial (Chapter 11) em novembro do mesmo ano. Ao final desse primeiro processo, a Frontier voltou com uma nova proposta de fusão, quase US$ 1 bilhão mais baixa, e a administração da Spirit rejeitou novamente, alegando que a empresa valeria mais.
Segunda recuperação judicial e o colapso em 2026
As recusas à Frontier se mostraram fatais. Sem atrair novos investidores e mesmo tendo saído do Chapter 11 em março de 2025, a Spirit voltou a pedir recuperação judicial em agosto do mesmo ano, tornando-se a única companhia aérea na história dos EUA a entrar duas vezes em Chapter 11 em menos de um ano.
Na segunda reestruturação - bem mais dura -, milhares de comissários foram demitidos e centenas de pilotos dispensados. A empresa devolveu diversas aeronaves novas da família A320neo para reduzir os custos de arrendamento dos jatos e cortou várias rotas. Ainda assim, as perdas continuaram e o interesse de investidores não apareceu.
No começo de 2026, a Spirit ainda se mantinha de pé, mas em condições extremamente instáveis. O “afogamento” veio com a escalada do preço do petróleo após o início do conflito direto dos EUA e de Israel contra o Irã, que fechou o estreito de Ormuz e levou o barril a patamares históricos.
Em uma manobra desesperada, a direção da Spirit pediu ao governo de Donald Trump um resgate inédito de US$ 500 milhões em troca de até 90% das ações da empresa.
Embora tivesse responsabilidade pela alta do petróleo, Trump, como empresário, sinalizou que até gostaria de ajudar a companhia, mas apenas se fosse algo realmente viável - não uma caridade para ganhar apoio público, preservar empregos ou abafar a situação económica.
Com a Casa Branca exigindo prioridade no pagamento da dívida pública por meio de DIP (o que foi rejeitado por boa parte dos credores) e com concorrentes também pedindo apoio estatal, o plano não avançou. As dívidas voltaram a vencer, o tempo acabou, e a empresa realizou seus últimos voos na noite do dia 1º para o dia 2 de maio de 2026.
O destino da frota e efeitos para passageiros e mercado
Dos 95 aviões operacionais (de uma frota que já chegou a 220 aeronaves, maior do que qualquer companhia aérea brasileira atualmente), ao menos os 28 jatos A320neo e A321neo devem ter a pintura amarela removida assim que possível. Esses aviões tendem a ser disputados por companhias aéreas americanas e estrangeiras, considerando a procura atual por aeronaves novas - consequência tanto da pandemia quanto do cenário no Oriente Médio.
As demais aeronaves, dos modelos A320ceo e A321ceo, também devem ter boa procura, já que são unidades mais recentes e fazem parte das últimas centenas produzidas pela Airbus, com idade média de 10 anos.
Apesar dos inúmeros problemas, é difícil negar o quanto a Spirit ajudou a reduzir o preço das passagens nos EUA - algo admitido até por críticos que preferiam voar em concorrentes mais “premium”.
Sem a Spirit, o segmento de ultrabaixo custo no mercado americano passa a ficar restrito a Allegiant Air, Frontier Airlines e Sun Country Airlines. Isso tende a pressionar para cima o preço médio das tarifas, justamente num momento em que os valores já sobem por causa do conflito no Irã.
À medida que as rotas forem absorvidas pelas concorrentes (apenas em parte, já que muitos voos não davam lucro), os funcionários da Spirit devem encontrar novas oportunidades, o que é facilitado pelo fato de a empresa ter operado o avião comercial mais popular da atualidade: o Airbus A320.
Para os passageiros afetados, quem comprou bilhetes no cartão de crédito deve conseguir reembolso; os demais provavelmente ficarão a ver navios e terão de organizar por conta própria o retorno para casa.
O legado da Spirit é o de uma companhia extremamente popular que nunca “traiu” seus consumidores ao abandonar a política de tarifas baixas e que, apesar de muitos problemas, nunca registrou um acidente ou incidente grave em seus 36 anos de serviços ininterruptos.
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