Se o Avensis antigo fosse um biscoito, ele seria um Digestive. Sem graça, entediante, com preço honesto e extremamente seguro. Com um Digestive, é difícil errar.
O problema é que existem biscoitos bem mais interessantes à venda. Um Jammie Dodgers, por exemplo...
Com carros acontece exatamente a mesma coisa. O Avensis de antes parecia sem sal diante de concorrentes mais apetitosos: Mondeo, Accord, Passat e por aí vai. Era competente, mas apagado - quase como um Vectra. A Vauxhall percebeu isso e elevou o nível com o Insignia. A Toyota tentou seguir esse caminho com o novo Avensis. Mas ele “leva o biscoito”?
Design do Toyota Avensis: não dá vontade de olhar duas vezes
Não. Basta encarar o carro. Ele te empolga? Você ficaria espiando pela janela à noite só para ver o Avensis parado na sua entrada? Talvez você fizesse isso com um Mondeo, um Insignia ou um C5, mas com este aqui não - o desenho parece desajeitado em comparação. Se você olhar muito rápido, ou se enxergar um pelo retrovisor, a dianteira até lembra um pouco um Lexus, o que tem seu charme; a perua tem linhas mais agradáveis, porém ainda fica alta demais e quadradona demais.
E estas fotos ajudam bastante. Ao vivo, na lata, ele não é exatamente um carro bonito.
Interior e acabamento: o lado “Lexus” do Avensis
A inspiração de Lexus continua por dentro. O painel de instrumentos pega referências do IS, o que dá uma sensação de qualidade - uma boa mistura de famílias, que acaba tornando a cabine o ponto mais forte do carro.
E como é um Toyota feito no Reino Unido, a montagem passa uma impressão sólida. Além disso, pelo dinheiro pedido, você leva bastante equipamento: “valor” é uma das palavras da moda por aqui.
Segurança e assistências: cheio de recursos (talvez até demais)
Outra palavra-chave é segurança. E nisso o Avensis vem carregado.
Há itens como o Assistente de Direção, que compensa automaticamente subesterço ou sobresterço em situações escorregadias - aquelas em que o motorista já ficou sem repertório uns 300 metros antes - e ele vem de série em todas as versões.
Também existe o Assistente de Faixa, que de fato gira o volante para te colocar de volta na trajetória caso você passe das linhas brancas. Funciona, mas é mais invasivo do que o equivalente da Honda.
E há um sistema de pré-colisão que aperta o cinto, dispara alertas sonoros e, por fim, aciona uma frenagem forte se achar que você vai acertar um muro (ou algo igualmente imóvel). É parecido com o do Volvo XC60, só que um pouco menos intrometido - e sem garantia de parar o carro.
O controle de cruzeiro e os faróis também são adaptativos. Mas será que você precisa mesmo de tudo isso? Uma caixinha de opcional com a palavra “cérebro” talvez resolvesse melhor.
Ao volante: competente, mas sem graça
Toda essa tecnologia pressupõe, claro, que você esteja usando o carro para algo mais do que simplesmente se deslocar. E se você gosta de dirigir, talvez nem se anime.
Em movimento, ele é realmente chato. Enquanto Mondeo e Insignia passam sensação de prontidão e envolvimento, o Avensis não. O diesel 2,2 litros é barulhento, o câmbio automático tem respostas um pouco lentas, e nas curvas você precisa “puxar” o carro para fazê-lo obedecer. Tentar andar forte com isso é como obrigar uma preguiça a dançar numa pista de disco: não há interesse.
A suspensão também entra na conta. Em pisos ruins - algo com que no Reino Unido se convive o tempo todo - ele se mostra áspero e pouco refinado, batendo seco. Considerando que a Toyota mandou 35 engenheiros europeus ao Japão durante o desenvolvimento do modelo para garantir que ele atendesse ao nosso tipo de uso, isso soa um tanto decepcionante.
O câmbio automático não melhora o cenário. Ele traz aletas atrás do volante, mas elas viram enfeites alongados e redundantes - ou, dizendo de forma direta, quase inúteis. As trocas para cima são até razoavelmente suaves, porém a redução (kickdown) é demorada, trazendo aquela sensação de câmbio antigo, “pastoso”. Há a opção de um CVT de 7 marchas, o Multidrive, mas apenas nos motores a gasolina. É melhor, porque a resposta fica mais imediata e previsível - ainda assim, provavelmente o mais sensato é ficar com um manual simples.
Na estrada, ele se comporta melhor. O ritmo natural do Avensis é rodar perto do limite legal, e ele alisa melhor lombadas e ondulações. A chatice fica por conta de um ruído de vento um pouco intrusivo - culpa da frente chapada, com aerodinâmica comparável à do rosto de Wayne Rooney. No geral, porém, ele vai bem, o que é bom, porque é nas rodovias que ele deve “pagar o almoço” (com o porta-malas cheio de amostras e o banco ocupado pelo traseiro de um representante).
Vendas para frotas e custos: o Avensis no habitat natural
Falando em representantes: a Toyota acredita que as vendas para frotas vão superar as vendas para pessoas físicas numa proporção de cinco para um.
A desvalorização deve ser baixa (veja só: a Top Gear também dá dicas de consumo), então é bem provável que ele apareça nas listas de carro corporativo mais rápido do que você consegue dizer “declaração de missão”. As emissões de CO2 são relativamente baixas em toda a linha, o que também deve deixar feliz o diretor financeiro (CFO) da empresa.
No fim, tudo isso é muito entediante. Muito Toyota.
Como já dissemos num teste do Aygo Crazy algum tempo atrás, seria bom ver a marca colocar um pouco mais de diversão nos seus carros. Vale lembrar: é a mesma turma que fez o Supra, o MR2, correu com Celica no WRC e ainda toca uma equipa de Fórmula 1. Se um pedacinho dessa veia esportiva escorresse para carros como o Avensis, ele atrairia quem precisa de toda a praticidade/segurança/preço justo de um sedã, sem ter de se contentar com uma condução mediana. É isso que Ford e Vauxhall vêm fazendo - então por que a Toyota não consegue?
Voltando ao mundo maravilhoso dos biscoitos: “Once a Digestive, always a Digestive.” Se a Toyota tivesse colocado uma camada de caramelo, ou um pouco de chocolate, este novo Avensis poderia ter incomodado a concorrência.
Até aparecer uma versão mais esportiva, o jeito vai ser mergulhar no chá. Ou num lago.
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