A promessa é tentadora: um compacto 100% elétrico com preço “para entrar no jogo” e equipamento de gente grande. O Dongfeng Box chega com esse discurso e a ambição clara de incomodar os nomes mais fortes do segmento - mas, na prática, ainda tropeça em detalhes que pesam no uso diário.
A Dongfeng, uma das maiores fabricantes chinesas, acaba de desembarcar em Portugal com o Box, um utilitário elétrico do segmento B com preços a partir de 26 750 euros.
Apesar de espaçoso e bem servido de equipamentos, o Dongfeng Box falha em alguns pontos básicos: não tem rádio FM/AM, as velocidades de carregamento são baixas e o painel de instrumentos é praticamente impossível de ler (os grafismos são mesmo muito pequenos).
Será suficiente para ditar o destino deste modelo no nosso país? Ou há margem para o Dongfeng Box conquistar o seu espaço num segmento que em 2025 será inundado de propostas como o Renault 5 E-Tech, Citroën ë-C3 e Hyundai Inster? A resposta no vídeo:
Ares de Smart #1
Não devo ser o único a notar: visto de frente, o Dongfeng Box faz lembrar o Smart #1, basta reparar na assinatura luminosa que atravessa toda a largura do carro.
Ainda assim, não dá para falar do visual do Box sem apontar uma crítica que se repete em muitos modelos vindos da China: o desenho é genérico, sem um elemento marcante que “conte” que estamos perante uma nova marca no mercado nacional.
É verdade que os puxadores de porta embutidos e os vidros sem moldura superior são soluções pouco comuns - quase inéditas neste tipo de utilitário -, mas, no conjunto, o Box acaba por ser demasiado convencional.
Equipamento de sobra
Por dentro, o Box consegue impressionar mais, sobretudo quando lembramos que é uma proposta do segmento B.
As várias superfícies revestidas em pele sintética com pespontos chamam a atenção, tal como os plásticos duros e de qualidade baixa que aparecem no topo das portas e do tabliê.
Outro ponto negativo que salta à vista são os botões dos vidros elétricos nas portas, que funcionam ao contrário do que estamos habituados. E aqui só dá vontade de perguntar: o que é que os engenheiros da Dongfeng estavam a pensar?
Ainda nos pontos fracos, é preciso destacar o facto de existir apenas uma porta USB do tipo A - em 2025, isso não faz sentido - e de, no sistema de infoentretenimento, não haver qualquer leitor de rádio FM/AM.
Sim, é isso mesmo: se quiser ouvir rádio, só mesmo via smartphone, que felizmente pode ser ligado ao Box por cabo através de Android Auto e Apple CarPlay.
Contudo, a Dongfeng oferece em Portugal um dongle (de série em todas as versões do modelo) que, quando emparelhado por Bluetooth com o smartphone, desbloqueia a integração sem fios com o Android Auto.
Este pequeno dispositivo, oferecido gratuitamente com todas as unidades do Box vendidas no nosso país, simplifica a ligação do smartphone ao sistema de infoentretenimento e permite, por exemplo, contornar a ausência de rádio FM/AM: passa a ser possível ouvir rádio através de aplicações instaladas no smartphone.
Por fim, é impossível não falar do painel de instrumentos, que praticamente não dá leitura quando estamos a conduzir. Isto precisa mesmo de ser revisto.
Nem tudo é mau. Há pontos positivos. Além do pacote de sistemas de ajuda à condução, o Box destaca-se por trazer um ecrã central de 12,5’’ no tabliê e por oferecer banco do condutor com aquecimento, arrefecimento, ajustes elétricos e memórias.
Espaço satisfatório
O Box não é o mais amplo do segmento, mas segura bem a onda. Nos bancos traseiros, por exemplo, há bastante espaço para pernas e cabeça, mas a posição do corpo é estranha. O piso do habitáculo é alto e os bancos afundam bastante, o que tira suporte da zona das coxas.
A versatilidade também fica limitada por ter um banco traseiro corrido. Se precisar rebater o banco para aumentar a capacidade do porta-malas, perde todos os lugares traseiros. Os concorrentes permitem rebatimento em duas partes (40/60).
Mas talvez nem seja preciso rebater o banco com frequência: o porta-malas do Box está entre os maiores do segmento, com 326 l. São mais 16 litros do que o do Citroën ë-C3 e mais 50 litros do que o do Renault 5 E-Tech.
Só uma versão
O Dongfeng Box chega a Portugal com apenas uma motorização, baseada num motor elétrico de 70 kW (95 cv) e 160 Nm de binário.
Por isso, não espere desempenho empolgante: o 0 a 100 km/h é feito em 12,5 s. Para a cidade, é mais do que suficiente, mas uma das primeiras coisas que notei foi que, depois dos 60/70 km/h, o Box começa a sentir um pouco essa exigência.
Fora do ambiente urbano, estes números ficam curtos e, em alguns momentos, senti falta de mais potência e disponibilidade, especialmente nas idas à autoestrada.
Direção precisa de trabalho
A suspensão é bem macia e claramente calibrada para o conforto. Com isso, a carroçaria mexe bastante, embora a estabilidade nunca chegue a ser um problema.
Já a direção é vaga, leve e muito artificial. Além disso, quase não muda quando alternamos entre os vários modos de condução disponíveis.
Não esperem, portanto, qualquer vocação mais desportiva do Box: ele está muito mais à vontade em ritmos tranquilos e relaxados, sobretudo na cidade.
E os consumos?
O Box compensa na eficiência do conjunto elétrico e nos consumos baixos. Fiz mais de 500 quilómetros e terminei com uma média de 14,6 kWh/100 km.
É um resultado interessante, principalmente considerando que o meu percurso diário é realmente misto: cerca de 50% em autoestrada e os outros 50% divididos por vias rápidas, estradas secundárias e zonas urbanas.
Quando andei apenas em cidade, dá para fazer melhor: é relativamente fácil ficar à volta dos 12,5 kWh/100 km.
Se usarmos como referência a média de 14,6 kWh/100 km e considerarmos os 42,3 kWh da bateria LFP, dá para fazer cerca de 290 quilómetros por carregamento. Não fica muito longe dos 310 km oficiais em ciclo combinado WLTP. Mas em cidade, usando os 12,5 kWh/100 km que obtive, este número sobe para perto dos 340 km.
Mas, como já referi acima, um dos maiores contras aparece na hora de carregar. Isso porque o Box está limitado a 6,6 kW de potência de carga em corrente alternada (AC) e 87,8 kW em corrente contínua (DC).
Faz sentido comprar?
Com preços a partir de 26 750 euros, o Dongfeng Box não está entre os elétricos mais baratos do mercado: existe o Dacia Spring (menos de 20 mil euros) e o Citroën ë-C3 (23 300 euros, mas vai ter versão por menos de 20 mil euros). O Renault 5 E-Tech também está prestes a receber uma versão que vai ficar por cerca de 25 mil euros.
Além disso, este ano vamos ver uma verdadeira enxurrada de modelos 100% elétricos, todos na casa dos 25 mil euros: Hyundai Inster, CUPRA Raval, Skoda Epiq, Volkswagen ID.2, Fiat Grande Panda e Kia EV2. Por isso, o Dongfeng Box não deverá ter vida fácil no nosso mercado.
Quando começamos a passar pela lista de equipamento de série do Box, dá para perceber que estes 26 750 euros (ou 28 600 euros no caso da versão testada) não estão completamente fora de contexto.
Ainda assim, é preciso que o potencial comprador valorize esse equipamento acima de coisas como uma condução mais dinâmica ou um design menos anónimo.
Além disso, na versão que testei - que já passa dos 28 mil euros -, é difícil justificar pormenores como a ausência de rádio ou o comando invertido dos botões dos vidros elétricos.
Ainda assim, a marca já deixou claro que, na próxima atualização do modelo em Portugal, tanto o rádio como o Android Auto passarão a estar presentes de série no sistema de infotainment, e também será resolvida a questão da ausência de chapeleira. A próxima atualização, ou o novo Model Year do Dongfeng Box, chega dentro de alguns meses.
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