O MuséoParc Alésia, dedicado a recontar a batalha que levou o mesmo nome, aposta em tecnologia para atrair público. Afinal, como usar o digital para tornar a arqueologia interessante para os mais novos? Fomos ver de perto.
Em 52 antes de Jesus Cristo, a revolta de Vercingétorix contra as tropas romanas fracassa. O jovem líder gaulês se refugia no oppidum de Alésia, uma fortificação no topo de uma colina de planalto. Júlio César mantém a cidade sob cerco por seis semanas. Em uma manobra tão ousada quanto brilhante, o procônsul manda erguer duas linhas de fortificações paralelas ao redor de Alésia e posiciona as legiões entre elas. Assim, consegue conter tanto as investidas de Vercingétorix, vindas de dentro, quanto as de numerosos reforços celtas, que atacam de fora. Encurralado, o gaulês acaba por entregar as armas e é feito prisioneiro. A Gália passa, de forma definitiva, ao domínio romano.
Mais de 2070 anos depois, o cenário daquele confronto sangrento virou uma pradaria tranquila. Aos pés da colina - hoje chamada de monte Auxois (Côte-d’Or) - está o MuséoParc Alésia. O local reúne muitas descobertas arqueológicas encontradas ali mesmo, mas não se limita a expor peças. O museu se apoia na tecnologia para “reanimar” essa página da história, com propostas que usam realidade aumentada e projeções de luz. Visitamos esse conjunto de experiências.
Um museu que quer interessar todos os públicos
De acordo com números informados pelo diretor, Laurent Bourdereau, o MuséoParc recebe entre 80 000 e 85 000 visitantes por ano. Entre eles, há “muitas famílias que passam o dia no local”. E um museu de arqueologia, para os mais jovens, pode facilmente virar um martírio: nem toda criança quer ficar horas observando peças gaulesas ou restos de lanças romanas.
Por isso, o MuséoParc escolhe a tecnologia como ferramenta para agradar a todos. Na prática, a proposta funciona para diferentes idades, como resume Laurent Bourdereau:
“Visitar um museu é como uma sinfonia, com movimentos lentos e rápidos. No MuséoParc, estamos em algo dinâmico. Na parte clássica (nota do editor: as exposições de objetos), estamos nos movimentos lentos, com leitura de legendas. Nas animações, em algo rápido. É preciso integrar o digital ou mesmo a IA aos museus, mas não pode ser só isso; deve apenas complementar a experiência”.
Animações que colocam o visitante dentro do acampamento de César
Para alcançar o maior número possível de pessoas, o museu oferece várias animações tecnológicas. Do lado de fora do edifício, um trecho das fortificações de César foi reconstruído. Ao longo do percurso, há diversos QR codes. Ao escaneá-los com o smartphone, o visitante é enviado a um site que, com realidade aumentada, permite enxergar Alésia como era na época, em 360 graus. A experiência foi desenvolvida pela Overlap Factory e é uma estreia em um museu arqueológico. Custo da operação: 230 000 euros.
Na tela, aparece um pântano aos nossos pés; no horizonte, surgem fortificações em uma paisagem então sem árvores (ao contrário da região atual, bastante arborizada). No monte Auxois, vê-se o oppidum sitiado. Caminhando com o telefone na mão, encontramos dois legionários romanos - Rufus e Félix. QR code após QR code, eles encenam o cotidiano: como um legionário se prepara para a batalha, organiza a intendência do acampamento ou trata seus ferimentos… Durante a visita, cruzamos com uma turma escolar e as crianças estavam encantadas: a história se materializava diante delas, de um jeito muito mais direto do que ruínas ou objetos em vitrines.
Um dispositivo especial por um mês
Dentro do museu, outros ateliers digitais também foram criados. No terraço, por exemplo, é possível caminhar enquanto se ouve o relato da batalha narrado por Vercingétorix. Do ponto de vista científico, o exercício é arriscado, ainda que o roteiro se apoie em fontes como A Guerra das Gálias, de César, e em achados arqueológicos. Existe, naturalmente, um trabalho de interpretação - e também de imaginação -, um preço a pagar para tornar o acontecimento mais vívido.
Essa experiência sonora vai além de um áudio “tocado” para o público. O percurso é acompanhado por caixas de som que operam em hexafonia. Desse modo, a voz do chefe gaulês vem junto de ruídos da batalha, recriados com base em arqueologia experimental. Dá para ouvir, por exemplo, o som do carnyx, a trombeta gaulesa de timbre estridente que aterrorizava os legionários. O resultado é uma experiência bem construída, que ainda tem o mérito de deixar o visitante apreciar o panorama - justamente o lugar onde tudo aconteceu.
A peça central do MuséoParc, porém, fica no coração do prédio: uma reconstituição de um mosaico de uma villa romana. Em um princípio semelhante ao do Atelier des Lumières, de Paris, dez projetores espalham uma imagem de mosaico pelo chão e pelas paredes de uma sala totalmente escura. A diferença é que, aqui, a atração é interativa: ao pisar, o mosaico se “desfaz”; ao tocar nos animais na parede, eles “fogem”. O dispositivo foi criado pela empresa THEORIZ Studio, também responsável por animações da Festa das Luzes de Lyon, e exigiu oito meses de trabalho. Custo total da operação: 40 000 euros.
“A prova de que integrar o digital em um museu faz sentido”,
diz Laurent Bourdereau.
Essa animação, no entanto, não ficará muito tempo no MuséoParc: ela poderá ser visitada (sem custo adicional) de 1º a 31 de maio. Por que apenas um mês? Segundo o diretor, muitos visitantes são moradores da região (de 40 % a 50 %), o que torna necessário oferecer novidades de forma constante. Ainda assim, ele adianta:
“Outras coisas desse tipo estão previstas”.
Uma exposição permanente que já aposta no digital
Essas novidades não surgem do nada. O MuséoParc já inclui diferentes recursos digitais em sua exposição permanente. Ao lado dos objetos arqueológicos, há, por exemplo, telas transparentes com informações variadas; jogos interativos, como uma espécie de Time Crisis com um escorpião (uma grande besta romana); videoprojeções que “animam” estátuas de César e de Vercingétorix; além de telas que, em estilo de sombras chinesas, mostram como usar os objetos expostos em vitrines.
Tudo isso torna a história mais imersiva para quem não é especialista e, sobretudo, devolve vida a esses homens que deixaram sua marca. No fim das contas, não seria essa a missão principal de um museu?
O MuséoParc fica em Alise-Sainte-Reine, em Côte-d’Or. Saindo de Paris, o acesso é simples: basta pegar um TER (estação de Laumes-Alésia) e caminhar quinze minutos. O ingresso inteiro, que inclui todas as animações citadas, custa 13,50 euros.
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