A construção da linha de alta velocidade vai derrubar 17 casas e forçar a mudança de duas empresas em Estarreja. O processo de expropriações deve avançar em breve, e o início das obras está previsto para agosto.
O cronograma aponta para o começo dos trabalhos no terreno em agosto, mas, para Bruna Pereira e a mãe, Marisa Ribeiro, a angústia se arrasta há três anos. Moradoras de Avanca, no município de Estarreja, elas passaram a suspeitar que o investimento do país em uma ferrovia mais rápida custaria a casa onde vivem há 20 anos. Pouco antes, tinham trocado o telhado, estavam prestes a iniciar reformas e sonhavam com uma churrasqueira e uma piscina. Com a chegada do TGV, os planos ficaram em suspenso.
"Entramos em pânico", admite Bruna, que tem lúpus e sentiu o quadro de saúde piorar. A "ansiedade" foi tanta que Marisa precisou ficar afastada do trabalho por dois meses. "Ainda hoje sofro com isso", confessa.
Para Bruna, o momento em que a obra finalmente sai do papel é especialmente "complicado", porque as "casas estão supercaras". "Tenho receio que não nos deem tempo e dinheiro suficiente para sairmos daqui confortavelmente e arranjarmos outra casa", afirma, reforçando que quer continuar na região, onde criou raízes. "Puseram-nos uma faca em cima e, agora, desenrascai-vos. Será que nos vão dar um valor justo pela casa e pelos danos [sofridos]?", questiona Marisa.
Alternativas caras
Elas não são as únicas a serem "sacrificadas" pela alta velocidade em Estarreja. Além da linha principal do TGV, o projeto prevê a criação de um ramal de ligação à Linha do Norte. Em informações enviadas ao JN, o consórcio AVAN - que detém a concessão para concepção, projeto, construção, financiamento e manutenção do trecho da alta velocidade entre Porto e Oiã (Oliveira do Bairro) - indica que, "no concelho de Estarreja, o projeto de construção do troço da alta velocidade vai impactar diretamente 12 habitações e indiretamente cinco habitações". Nesta etapa, ainda não é possível detalhar quantas delas são residências principais. O consórcio também diz ter "identificadas duas empresas do município" que serão atingidas pela empreitada.
O empresário Pedro Silva já começou a fazer as contas. Seus armazéns em Beduído, usados por três empresas da família, serão demolidos. A notícia não o pegou de surpresa: há mais de dez anos, quando tentaram ampliar as instalações, a família não conseguiu, "porque já se falava no TGV".
"Vamos ter de deslocalizar as empresas e estamos com problemas, porque quase não há armazéns para alugar ou para comprar. O pouco que há é extremamente caro. Temos máquinas de grande porte, que são difíceis de transportar, e funcionários, que se calhar não aceitam ir para muito longe", desabafa.
A preocupação, porém, vai além. A casa dos pais, colada aos armazéns, não será derrubada como a da vizinha, mas passará a ter a linha do trem "a 24 metros" da porta de entrada. Além disso, a rua em frente será interrompida. Segundo Pedro Silva, os pais estão "muito afetados psicologicamente" com a mudança.
Minimizar o impacto
Pedro Silva diz confiar na "boa-fé da empresa" que conduzirá as expropriações no município de Estarreja.
"Já basta o que está prestes a acontecer. Espero que os peritos apresentem propostas realistas e que não compliquem, ainda mais, a vida das pessoas", afirma o empresário. Ele ressalta que entende os benefícios apontados por especialistas sobre a nova ligação do TGV para o país: "Acredito que o Governo não faça uma obra destas de ânimo leve, só para gastar dinheiro da Europa e dos contribuintes. Se é para bem do país, acho que sim. Mas que criem condições e minimizem o impacto para os portugueses que vão ser afetados".
Neste momento, a "discussão está ultrapassada. A linha vai acontecer". A frase é de Isabel Simões Pinto, presidente da Câmara Municipal (prefeita) de Estarreja, e abriu uma sessão pública de esclarecimentos promovida há poucos dias pela prefeitura.
"As preocupações centram-se, agora, nas expropriações. Há pessoas que vão ficar sem habitação, empresas que vão ter de se deslocalizar" e áreas que serão tomadas por utilidade pública devido à linha de alta velocidade, reconhece a gestora municipal. As freguesias (distritos) mais impactadas serão União de Canelas e Fermelã, Beduído e Avanca.
Peritos farão avaliação
Álvaro Fonseca, chefe de Operações do consórcio AVAN, assegurou que haverá "transparência" e que o processo de expropriação será "caro". A condução ficará a cargo da equipe da AVEXP, integrante do mesmo consórcio, e as avaliações serão realizadas por "peritos especializados independentes". Eles vão apresentar propostas de indenização, que deverão ser negociadas com moradores e empresários afetados.
Segundo Álvaro Fonseca, "já há acordos a serem feitos mais a sul" e, "nos próximos meses", o mesmo deve ocorrer em Estarreja. Entre o "final de agosto, setembro", a previsão é que comecem os primeiros serviços de construção no terreno.
No município de Estarreja, a ferrovia terá 30 quilómetros de extensão: 13,4 quilómetros correspondem ao trecho principal, e outros 16,6 quilómetros são da ligação, em Canelas, à Linha do Norte. O traçado ficará predominantemente a leste da A1 (rodovia do Norte) e incluirá obras especiais, como uma ponte sobre o rio Antuã, uma ponte no rio Jardim e viadutos de subida e descida devido à concordância em Canelas.
Centro criará emprego
O plano também prevê a implantação de um centro de manutenção, de uma nova subestação de tração elétrica e de um ponto de ultrapassagem e estacionamento de trens. Com o centro - destinado à manutenção de várias áreas da linha de alta velocidade - serão gerados cerca de "cem empregos", segundo o consórcio.
Na malha viária, o projeto inclui a recomposição de diversas estradas que serão interrompidas, para evitar que comunidades fiquem isoladas.
Ao cortar o município, a linha de alta velocidade atravessará áreas protegidas, o que exige um conjunto de ações para reduzir impactos, previstas no Título Único Ambiental emitido no licenciamento da obra. Por isso, o projeto traz medidas de proteção à ria de Aveiro e aos percursos do BioRia, incluindo corredores ecológicos, sistemas de drenagem e filtragem de água e a redução de interferências em zonas úmidas, entre outras iniciativas.
A água - tanto em volume quanto em qualidade - foi, inclusive, uma das questões levantadas na sessão de esclarecimentos em Estarreja. Um participante alertou para os efeitos da obra sobre os lençóis freáticos e o risco de "secar poços", usados para cultivar quintais e lavouras. Em resposta, a empresa afirmou que vai monitorar a água ao longo do avanço dos trabalhos.
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