Há profissionais que acumulam anos de experiência, recebem promoções, coordenam equipes e entregam resultados de forma consistente - e, ainda assim, seguem convencidos de que não merecem a posição que ocupam na hierarquia. A chamada “síndrome do impostor”, marcada pela dificuldade de reconhecer as próprias competências e pelo medo persistente de ser desmascarado como uma fraude, está longe de ser incomum no ambiente corporativo. Em um mercado de trabalho com exposição constante, comparação entre pares e cobrança permanente por performance, esse padrão pode se tornar uma barreira silenciosa para a evolução profissional.
Síndrome do impostor: um freio silencioso na carreira
Um levantamento recente da consultoria de recrutamento Hays indica que quase nove em cada dez trabalhadores já passaram por essa sensação em algum momento da vida profissional, e 48% dizem vivenciá-la com frequência.
Pesquisa da Hays: números em Portugal
O estudo ao qual o Expresso teve acesso foi realizado com base em questionários respondidos por 385 profissionais em Portugal, por meio da plataforma LinkedIn. Os resultados reforçam como o tema é recorrente: apenas 13% afirmam nunca ter sentido que não estavam à altura das funções que desempenham. Entre quem relata a síndrome do impostor, 40% dizem que ela aparece de forma pontual, enquanto 48% apontam uma presença regular no cotidiano de trabalho.
Gatilhos e caminhos para reduzir o problema
Comparação entre colegas e progressão são os principais gatilhos da síndrome do impostor
A comparação com outros colegas surge como o gatilho mais citado (39%), seguida pela insegurança típica de assumir uma nova função (27%). Em geral, a síndrome se intensifica em fases de maior exposição, avaliações ou transições de carreira e, segundo Matilde Moreira, diretora de contas estratégicas da Hays, é “altamente limitadora na procura de novos projetos a nível interno [nas empresas] e externo”. Ela também ressalta que o problema não se restringe a quem está no início da trajetória e “está também muito presente entre perfis com percursos consolidados”.
O impacto mais imediato para quem convive com isso costuma ser a autocensura: hesitar diante de novos desafios, evitar se colocar para oportunidades ou até abrir mão de possibilidades de crescimento. A especialista lembra que a última edição do estudo de intenções de contratação - que a consultoria realiza anualmente - mostrou que, em 2026, a disposição dos trabalhadores portugueses para trocar de emprego caiu para mínimos históricos (67%). E chama atenção para o fato de que “esta perceção de si próprio pode contribuir para o profissional não dar um passo no seu percurso”. Daí a relevância de conhecer e reconhecer o fenômeno, para que ele não se transforme “num fator negativo para o crescimento e o desenvolvimento profissionais”.
Ainda assim, identificar a síndrome do impostor, por si só, não resolve. Do lado das empresas, é essencial mapear os momentos em que ela tende a aparecer e saber administrá-los. Para os profissionais, ajuda construir uma relação mais objetiva com o próprio desempenho - por exemplo, registrando conquistas, pedindo feedback com frequência e comparando percepções com evidências concretas do que foi entregue.
No âmbito corporativo, “a promoção de uma cultura de feedback contínuo e comunicação aberta pode contribuir para reduzir a incerteza e reforçar a confiança das equipas”, afirma Matilde Moreira. Além disso, “impulsionar lideranças próximas que se foquem na evolução individual, e não tanto em termos comparativos entre membros de equipa, permite validar o esforço de cada um e mitigar a constante comparação, identificada como um dos fatores que dão origem à síndrome do impostor em contexto profissional”.
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