Na borda da Invicta, depois do mar de concreto e do amontoado de carros andando devagar na VCI, há um lugar que passa despercebido a quem olha de longe: “uma joia da Natureza” da Região Metropolitana. É o Parque das Serras do Porto, que completa dez anos desde a sua criação.
Em 6 mil hectares de tons verdes e azuis, alimentados pelos rios Ferreira e Sousa, caberia três vezes o conjunto de todos os campos de futebol de Portugal. O Parque se distribui pelos municípios de Gondomar, Valongo e, mais adiante, Paredes, abrangendo seis serras nas bordas do Porto: Santa Justa, Pias, Castiçal, Santa Iria, Flores e Banjas.
Classificado como Paisagem Protegida Regional, o território é administrado pela Associação de Municípios do Parque das Serras do Porto (AMPSP), criada em 18 de abril de 2016. “Hoje, as serras de Valongo, Gondomar e Paredes estão mais bem cuidadas e mais próximas dos cidadãos”, defende o prefeito de Valongo, Paulo Ferreira, para quem a criação do Parque foi “uma aposta ganha”. Do lado de Gondomar, o município faz um “balanço muito positivo” destes dez anos: o Parque “afirmou-se como um projeto ambiental de referência na Área Metropolitana do Porto, transformando uma visão partilhada” entre três municípios “numa realidade concreta de proteção da natureza, valorização do território e proximidade às populações”, afirmou o prefeito gondomarense Luís Filipe Araújo, em resposta escrita enviada ao JN.
Também reforçando que “o balanço é claramente positivo”, o prefeito de Paredes, Alexandre Almeida - que atualmente preside a AMPSP, em sistema de rotatividade entre as três autarquias - diz que “tem sido muito gratificante poder contribuir” para “cuidar” de uma área encarada como o “pulmão verde” da região. “Este património natural e cultural, paisagístico e turístico do Parque das Serras do Porto representa futuro, um legado ambiental que queremos deixar requalificado para as próximas gerações”, acrescentou, em respostas às perguntas enviadas pelo JN.
Requalificação é a pedra angular do projeto
O eixo central do projeto tem sido a requalificação de uma zona onde, por muitos anos, o eucalipto e espécies invasoras dominaram a paisagem. Com investimento global de 3,6 milhões de euros - sendo 2,1 milhões provenientes de financiamento europeu -, o programa “Life Serras do Porto” define intervenções em cerca de 423 hectares de áreas florestais e ripícolas. O plano inclui o controle de espécies exóticas e invasoras e o plantio de mais de 160 mil árvores e arbustos nativos.
Entre os diferentes objetivos, estão metas como aumentar a resiliência do território aos efeitos das mudanças climáticas, reduzir a presença de invasoras e diminuir a parcela de área florestal sem gestão ativa. A intenção é adaptar a floresta, ampliando diversidade e capacidade de resposta.
“Estamos a passar de uma floresta de monocultura, composta principalmente pelo eucalipto, para uma floresta com medronheiros, castanheiros e carvalhos”, resumiu Alexandre Almeida. Segundo ele, trata-se de uma aposta em biodiversidade “para atingir as dinâmicas económicas associadas” e, ao mesmo tempo, “criar as condições para preservar a fauna e a flora caraterística e nativa deste território”.
Encostado à cidade do Porto e aos grandes aglomerados habitacionais ao redor, o espaço verde serve de habitat a raposas e ginetas, além de espécies raras como o melro-azul e a borboleta xxxx. Para além da proteção da fauna, Gondomar ressalta como conquistas desta década a “substituição progressiva de espécies invasoras e recuperação de linhas de água”, com uso de soluções baseadas na natureza para estabilização de margens e melhoria da conectividade ecológica. Essas ações se materializaram em projetos voltados à valorização e adaptação dos rios Ferreira e Sousa às mudanças climáticas, à preservação das charnecas e à reconversão florestal de mais de 50 hectares em áreas sensíveis, como as Lagoas de Midões.
No território de Gondomar, além de 170 hectares a requalificar no âmbito do LIFE, outros 69 hectares estão contemplados no projeto Serras do Porto Natura 2030. “Este projeto procura dar resposta às principais ameaças identificadas no território, como a presença de espécies exóticas e invasoras, a degradação de linhas de água, a pressão humana e a perda progressiva de habitats sensíveis”, explica a presidência da AMPSP. Com financiamento do NORTE 2030, o plano “representa um passo decisivo para a conservação da natureza, o restauro ecológico e a adaptação às alterações climáticas” no território da Paisagem Protegida Regional Parque das Serras do Porto - cerca de seis mil hectares repartidos por Gondomar, Paredes e Valongo, em grande parte dentro da Zona Especial de Conservação Valongo da Rede Natura 2000.
Turismo e natureza convivem para o futuro
Mesmo com o que já foi feito, Alexandre Almeida avalia que ainda há muito trabalho pela frente nos próximos anos. “Dou como exemplo a necessidade de comprar terrenos, para prosseguir com a substituição de eucaliptos por árvores autóctones”, citando espécies como medronheiro, carvalho e castanheiro.
Paulo Ferreira, de Valongo, vai além nas ambições. “Gostava de ver todas as serras no domínio público com espécies autóctones e mais resilientes, com novos projetos que envolvam a comunidade e que permitam reforçar e alargar a mais pessoas este sentimento de orgulho e pertença”, afirmou, também por escrito.
Para Gondomar, o Parque “tem hoje bases sólidas, mas precisa de investimento continuado para atingir todo o seu potencial ambiental, social e económico”. O município aponta como “desafios importantes que exigem continuidade” a “valorização e recuperação do património mineiro existente na serra das Flores e a necessidade de aproximar cada vez mais a população deste território.”
Em Valongo, metas semelhantes aparecem no horizonte. “Queremos criar circuitos de visitação às minas romanas e parques temáticos que contem a história dessa presença dos romanos e das trilobites, que ocuparam o território milhões de anos antes”, diz Paulo Ferreira, ao definir o foco para este ciclo eleitoral. “De forma muito clara, queremos fazer das Serras do Porto o epicentro do turismo de natureza da Região.” Em Paredes, a intenção acompanha o mesmo rumo, com a vontade de “apostar também na requalificação e valorização turística” do território e do seu “fantástico património natural.”
Alexandre Almeida pretende ainda “dar visibilidade” ao projeto por meio de produtos com selo do Parque das Serras do Porto. O mel com marca do Parque, produzido em áreas onde a urze e a carqueja voltam a avançar à medida que as invasoras são eliminadas, “pode ser um bom pretexto de produto turístico”, acrescentou o prefeito de Paredes.
Aprofundar sensibilização ambiental
Aprofundar “a sensibilização ambiental e promover novas oportunidades económicas associadas à natureza, ao turismo sustentável e aos produtos locais ligados à identidade Serras do Porto” também está entre as metas de Luís Filipe Araújo. O prefeito de Gondomar acrescenta que o próximo ciclo “deve consolidar o Parque como território resiliente às alterações climáticas e como referência de sustentabilidade metropolitana”.
De acordo com a autarquia de Gondomar, as prioridades “passam por reforçar o restauro de habitats, proteger espécies, prevenir incêndios, recuperar linhas de água”. Paredes se alinha a esses objetivos, avaliando como “crucial” a adaptação às mudanças climáticas e definindo como meta o “controlo e da monitorização dos fogos florestais” na serra, que nos últimos dois anos foi duramente afetada por incêndios.
Ao destacar que quer “dar continuidade ao trabalho desenvolvido”, Alexandre Almeida afirma desejar que “os autarcas continuem comprometidos na boa cooperação institucional” para a gestão do Parque. “O objetivo mais importante continua a ser a conquista diária da comunidade que pretenda um envolvimento e colaboração na gestão do Parque das Serras do Porto, quer seja por parte dos proprietários dos terrenos, das autarquias, das juntas de freguesia, das escolas, das Universidades, dos habitantes locais ou dos voluntários”, argumentou.
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