Por muito tempo, a salinidade do Atlântico Norte foi tratada por pesquisadores como um tipo de “ruído de fundo” do sistema climático. Ela ajuda a indicar como a água se desloca, mas se imaginava que quem fazia o trabalho decisivo era o calor.
Um estudo recente contesta essa leitura. À medida que a circulação de revolvimento do Atlântico enfraquece, o balanço de sal da região pode oscilar com uma força maior do que em qualquer fase conhecida dos registros. Nesse cenário, o sal - e não a temperatura - passa a representar o risco mais grave.
Enfraquecimento do giro atlântico
O fenômeno é conhecido como Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC). Na superfície, ele transporta água quente e salgada para o norte. Ao chegar a latitudes mais altas, essa água esfria, fica mais densa, afunda e então retorna para o sul pelas camadas profundas.
O trabalho foi liderado pelo cientista do clima Tomoki Iwakiri, da Universidade do Havaí em Mānoa. Ele e seus colegas estenderam oito dos principais modelos climáticos até o ano de 2300, partindo da hipótese de uso contínuo de combustíveis fósseis sem controle.
Uma parte desse processo já está em curso. Observações apontam que a AMOC vem perdendo força há décadas, e um estudo associou a presença de uma mancha fria no Atlântico Norte a esse enfraquecimento. Nos modelos, a circulação recua até cerca de um quarto da intensidade atual.
Mudanças na salinidade do Atlântico
A virada do estudo não é sobre calor, e sim sobre sal. Salinidade é a medida de quanto sal existe na água do mar. Hoje, as variações mais intensas se concentram no oeste, perto da Corrente do Golfo, onde o fluxo é mais turbulento.
Com o avanço do aquecimento e o enfraquecimento da corrente, o desenho se inverte. O Atlântico central e oriental, antes mais estáveis, passam a exibir as maiores oscilações, enquanto o antigo foco do oeste praticamente se aquieta - uma reversão completa.
Até 2300, essas oscilações aumentam para mais de cinco vezes o que ocorre atualmente, superando qualquer coisa registrada no histórico do oceano. Eventos extremos passam a acontecer de três a quatro vezes mais frequentemente. O enfraquecimento da circulação era esperado; variações desse tamanho, não.
Onda de sal em movimento
Ao acompanhar episódios extremos individuais, fica mais claro como as oscilações se formam. Uma mancha de alta salinidade aparece na borda oeste da bacia. Ela se desloca para leste ao longo de seis a oito anos, ganhando intensidade durante o trajeto.
O Atlântico Norte já sofreu mudanças abruptas. Um artigo registrou, na década de 2010, o maior episódio de diminuição de salinidade em mais de um século. As novas variações, porém, não repetem esse padrão: elas alternam entre mais salgado e mais doce e se intensificam enquanto avançam.
O que faz a oscilação crescer é a atuação conjunta de sal e calor. Nos modelos, uma mancha mais salgada atrai água mais quente ao seu lado, e essa água mais quente puxa ainda mais sal, alimentando o próprio processo.
Quando essa parceria é desligada nas simulações, o crescimento desaparece - um tipo de “motor” que não havia sido identificado nessa região.
Conexão direta com a AMOC
Por trás das oscilações existem duas mudanças lentas no pano de fundo do oceano. A Corrente do Golfo perde velocidade e passa a levar menos água quente e salgada para o norte.
Ao mesmo tempo, a diferença entre a água mais salgada do sul e a água mais doce do norte aumenta.
As duas tendências se relacionam diretamente ao enfraquecimento da AMOC. Os modelos em que a circulação mais perde força também são os que mais desaceleram a Corrente do Golfo e mais ampliam o contraste de salinidade. Essa concordância nos oito modelos dá peso ao resultado.
É esse contraste mais acentuado que “alimenta” a onda viajante. Uma corrente mais fraca e uma onda mais intensa surgem juntas. Como a maioria dos modelos começa com contraste de salinidade alto demais, eles podem subestimar o que vem pela frente.
Cortar carbono não resolve completamente
Uma expectativa natural é que reduzir emissões impediria esse cenário. A equipe testou essa hipótese: elevou o dióxido de carbono até um pico e, depois, reduziu novamente rumo a níveis próximos dos atuais.
O planeta esfriou, mas as oscilações de salinidade não diminuíram. Como o oceano responde devagar, a AMOC continuou enfraquecendo por aproximadamente 50 anos após o pico de carbono. O comportamento extremo persistiu durante a fase de resfriamento.
Quando a desaceleração avança além de certo ponto, as oscilações deixam de se reverter mesmo com a redução do aquecimento. Elas permanecem por séculos, “presas” a um oceano que se reajusta lentamente. Cortar emissões reduz o impacto, mas não desfaz o processo.
Riscos para a costa atlântica da Europa
Essas oscilações não ficam escondidas no oceano. Água mais salgada é mais densa e tende a se posicionar mais abaixo; água mais doce é menos densa e fica mais acima. Esse vai e vem altera o nível do mar local, com efeito mais forte na borda atlântica da Europa.
O problema se agrava quando um extremo de salinidade coincide com nível do mar elevado. Hoje isso é raro; nos modelos, essas “duplas” se tornam comuns. O risco de alagamentos costeiros aumenta da Espanha e de Portugal até a Noruega e a Islândia.
A perda de força da corrente também remodelaria a região de outras maneiras. Pesquisas separadas indicam que ela pode intensificar ondas de calor na Europa. Já os extremos de salinidade trazem um perigo mais discreto: desestabilizam marismas costeiras que ajudam a proteger o litoral.
Um novo ritmo para o Atlântico Norte
Convencidos de que o padrão era real, os autores o batizaram de Oscilação de Salinidade do Atlântico Norte. O ciclo se repete, em média, a cada dez anos. Ainda não está resolvido se esse ritmo é imposto pela corrente ou se pode surgir do oceano por conta própria.
É possível que o padrão não pertença apenas ao futuro. Oscilações de sal semelhantes marcaram períodos de mudanças abruptas no passado distante, quando água de degelo inundou o Atlântico Norte e enfraqueceu a circulação. Isso sugere que o oceano tem uma propensão interna a esse tipo de comportamento.
O que o estudo deixa estabelecido é sólido: uma AMOC em enfraquecimento impulsiona oscilações de salinidade sem paralelo nos registros, amplificadas pela interação entre sal e calor. E elas são persistentes o suficiente para durar além do aquecimento que as desencadeia.
Para as costas europeias, a desaceleração é um risco concreto que merece mapeamento - um sinal de que o oceano pode ficar mais estranho do que o aquecimento, sozinho, fazia imaginar.
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