Um suplemento bastante popular, vendido para ajudar a aliviar dores nas articulações, pode estar associado a uma progressão mais rápida da doença de Alzheimer, segundo uma nova pesquisa conduzida na Universidade da Flórida.
De acordo com o estudo, pessoas com comprometimento cognitivo leve que afirmaram usar glucosamina apresentaram maior chance de evoluir para demência quando comparadas àquelas que não recorriam ao suplemento. Os autores também reuniram indícios de que a glucosamina pode se envolver com processos biológicos cerebrais já alterados na doença de Alzheimer.
Os achados, publicados em 9 de junho na revista Nature Metabolism, resultam de uma análise ampla de registros clínicos, combinada a técnicas avançadas de imagem em tecido cerebral humano e a experimentos com modelos de ratos com doença de Alzheimer.
Embora os dados não demonstrem que a glucosamina provoque demência - e ainda precisem ser verificados em ensaios clínicos -, os pesquisadores argumentam que o trabalho reforça o conjunto crescente de evidências de que a disfunção metabólica tem um papel relevante nas doenças neurodegenerativas.
“Nos Estados Unidos, existem cerca de 7 milhões de pessoas vivendo com Alzheimer e milhões a mais com demências relacionadas, como a demência com corpos de Lewy ou a demência frontotemporal”, disse o autor sênior Ramon Sun, Ph.D., diretor do Centro de Pesquisa Avançada de Biomoléculas Espaciais e diretor associado de inovação do Instituto Cerebral McKnight da UF. “Muitas dessas pessoas tomam ativamente um suplemento sem receita médica que pode estar piorando a progressão da doença.”
Uso de glucosamina e risco de demência
Como a glucosamina é fácil de encontrar e costuma ser usada por adultos mais velhos com o objetivo de apoiar a saúde articular, os pesquisadores buscaram entender se ela poderia interferir na doença de Alzheimer e demências relacionadas (DADR).
Para isso, a equipe aplicou inteligência artificial na avaliação de registros anonimizados do UF Health coletados entre 2012 e 2024. A análise se concentrou em pacientes com diagnóstico de demência relacionada à doença de Alzheimer (ADRD) ou comprometimento cognitivo leve (CCL).
Dentro desses grupos, o uso do suplemento apareceu com certa frequência. Ao todo, 1.896 pacientes com DADR e 2.750 pacientes com DCL relataram tomar glucosamina - algo em torno de 8% em cada conjunto.
Após ajustar a análise por fatores como idade, sexo e características demográficas, os dados indicaram que o uso de glucosamina se associou a uma chance 25% maior de pessoas com comprometimento cognitivo leve (CCL) desenvolverem demência mais adiante.
Os cientistas também notaram que o consumo de glucosamina estava ligado a um aumento de 25% no risco de mortalidade em indivíduos já diagnosticados com demência relacionada à doença de Alzheimer (DRDA). Já entre pacientes com comprometimento cognitivo leve (CCL), não foi observado aumento equivalente, o que sugere que o impacto do suplemento pode variar conforme o estágio da condição.
Uma via metabólica potencialmente importante
O trabalho ainda chamou atenção para um mecanismo biológico específico que pode ajudar a compreender essa relação.
A equipe encontrou evidências de que uma via de marcação envolvendo proteínas e açúcares está excessivamente ativa na doença de Alzheimer. Segundo os pesquisadores, esse processo pode se tornar um novo alvo para terapias futuras.
“Nossos resultados sugerem que o metabolismo alterado contribui significativamente para a progressão da doença de Alzheimer e, além disso, tratar o defeito metabólico pode ser um complemento importante às abordagens focadas nas placas e emaranhados neurofibrilares da doença”, disse Sun.
Como a glucosamina afeta o cérebro
Para aprofundar a investigação, os pesquisadores destacaram a glucosamina por se tratar de uma molécula naturalmente ligada ao açúcar e capaz de atravessar a barreira hematoencefálica. No cérebro, ela pode alimentar vias bioquímicas relacionadas à construção de estruturas complexas de açúcar em proteínas. No mercado, suplementos de glucosamina frequentemente são fabricados a partir de materiais como cascas de crustáceos ou milho.
Os resultados apontam que o efeito da glucosamina pode depender fortemente do contexto biológico em que ela atua.
“Os dados dos registros eletrônicos de saúde são muito instigantes”, disse Matt Gentry, Ph.D., chefe do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da UF e coautor do estudo. “Embora seja uma associação e não uma prova de causalidade, levanta uma importante questão clínica que agora merece muito mais atenção.”
Na avaliação de Gentry, um cérebro afetado pela doença de Alzheimer pode ser mais vulnerável a perturbações nessa via do que o tecido cerebral saudável.
Estudos com ratos e descobertas em tecido cerebral humano
Testes com camundongos geneticamente modificados deram sustentação adicional à hipótese.
Os pesquisadores observaram que a glucosamina elevou de forma significativa a ligação de moléculas de açúcar às proteínas dentro das células. Os camundongos que receberam glucosamina também passaram a apresentar déficits progressivos de memória social - isto é, a capacidade de reconhecer e lembrar de outros indivíduos.
Quando os cientistas diminuíram quimicamente a atividade desse processo de marcação de açúcar, houve melhora no desempenho de memória.
Na etapa seguinte, o grupo analisou tecido cerebral humano do Banco de Cérebro e Tecidos de Neuromedicina da UF, em colaboração com o Dr. Stefan Prokop. Em comparação com amostras controle saudáveis, os cérebros de pacientes com Alzheimer exibiram níveis substancialmente maiores de ligação de açúcar às proteínas.
Consideradas em conjunto, as evidências levam os autores a afirmar que essa anormalidade metabólica pode participar ativamente do desenvolvimento da doença de Alzheimer, e não apenas aparecer como um efeito secundário.
“As proteínas são as máquinas moleculares da célula, e muitas delas precisam de marcadores de açúcar adicionados da maneira correta para se dobrarem adequadamente, viajarem para o lugar certo e desempenharem suas funções”, disse Gentry. “O que descobrimos no Alzheimer é que esse sistema de marcação com açúcar parece estar hiperativo. O cérebro afetado pelo Alzheimer está adicionando estruturas de açúcar em excesso, e isso parece contribuir para a doença em vez de protegê-la.”
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