O Tonale é, com enorme probabilidade, o carro mais decisivo da fase recente da Alfa Romeo. Outros modelos já carregaram esse peso em outras épocas, mas desta vez há razões muito concretas para dizer: “agora é que é”.
E dá para explicar em poucas linhas: primeiro, porque segue o formato do momento (SUV); depois, porque foi desenvolvido já dentro do grupo Stellantis (com a robustez e a segurança que isso costuma trazer); e, por fim, porque assume de vez a eletrificação.
Sim, é isso mesmo. O Tonale inaugura a era eletrificada na história da marca de Arese e, após alguns atrasos, finalmente coloca nas ruas o tão aguardado SUV médio para brigar no concorrido segmento C.
Elegância italiana
Abaixo do Stelvio na gama, o Tonale preserva traços clássicos da Alfa Romeo, como a placa posicionada à esquerda do scudetto e os faróis em LED com três módulos (inspirados no monstro SZ). A isso se juntam proporções e superfícies bem elegantes, mesmo dentro do padrão de um SUV.
O teto fica suficientemente baixo para deixar claro que ele não abre mão da herança esportiva do emblema. E o vidro traseiro tem uma inclinação bem mais acentuada do que o normal nesse tipo de carroceria, reforçando o toque de cupê.
Ainda assim, é fácil achar o Tonale um pouco alto - especialmente levando em conta os referenciais da marca milanesa. A explicação está na base: a plataforma é a mesma do Jeep Compass, ainda que com ajustes.
Falando de visual, não tem muito como suavizar: o Tonale chama atenção por onde passa e é raro alguém não se impressionar com o desenho do SUV italiano. Na configuração testada, a Edizione Speciale, ele aparece num verde bem atraente (Verde Montreal, opcional de 1600 euros) que me ganhou logo no primeiro contato.
Habitáculo confirma ambições premium
Por dentro, a escolha de materiais transmite boa qualidade no geral, mas, ao explorar com calma cada detalhe, dá para notar que os acabamentos ao redor da coluna de direção e do console central poderiam ser mais caprichados.
Mesmo assim, a sensação de qualidade a bordo é bastante positiva, e a Alfa Romeo manteve elementos bem característicos - como o quadro de instrumentos “telescópico”, o canocchiale em italiano.
Os bancos são bem confortáveis e oferecem o apoio lateral necessário quando dá vontade de brincar com os modos de condução (DNA), principalmente o mais esportivo. O ponto negativo é que a posição ao volante é alta demais para uma proposta com essa pretensão esportiva.
Por um lado, isso ajuda bastante a enxergar a frente, e a visibilidade é realmente muito boa. Por outro, eu gostaria de ficar mais baixo. O chassi do Tonale pede isso (já chego lá…) e o volante - com uma pegada excelente - também.
Ainda sobre o interior, fiz uma viagem relativamente longa com dois adultos no banco traseiro e o feedback foi bem positivo.
Já o assento central atrás não deve ser encarado como solução para trajetos longos, mas funciona mais do que bem para deslocamentos curtos/médios.
Sistema mild-hybrid é (quase) inédito
Chegando ao que mais importa: o conjunto eletrificado que define este Tonale. Ele usa o novo 1.5 turbo mild-hybrid da Stellantis, que já conhecemos dos Jeep Compass e Renegade nas versões e-hybrid, que também já testamos.
Aqui, estamos falando da calibração com 130 cv e 240 Nm, embora o Tonale também ofereça uma opção mais forte, com 160 cv, turbo de geometria variável e, por enquanto, exclusiva deste modelo.
Mas o mais relevante é que este não é um mild-hybrid comum. Além do tradicional motor/gerador acionado por correia no lugar do alternador e do motor de partida, existe um segundo motor elétrico, integrado ao câmbio, entregando 20 cv e 135 Nm.
Com isso, o Tonale fica num meio-termo entre os mild-hybrid convencionais e os chamados full-hybrid (híbridos convencionais) - fiquem a saber o que distingue -, liberando recursos extras. Um exemplo é conseguir rodar alguns metros em modo 100% elétrico, algo que os mild-hybrid “normais” não fazem.
Na prática, essa função é mais útil no anda e para da cidade ou em manobras, porque basta acelerar com mais vontade ou passar dos 30 km/h para o motor a combustão “acordar” e assumir.
Mesmo assim, todo o sistema elétrico - que inclui uma bateria pequena de 0,8 kWh (instalada sob os bancos dianteiros) - influencia diretamente consumo e desempenho.
E a boa notícia é que a regeneração acontece rápido, então a bateria costuma ter sempre “elétrons” disponíveis para ajudar.
E os consumos, convencem?
Já que o tema é consumo, vale registrar: nos dias em que fiquei com o Tonale, rodei cerca de 1100 km e fechei uma média combinada de 7,6 l/100 km. Esse resultado acabou puxado para cima porque fiz mais de metade dessa quilometragem em rodovia.
Ainda assim, em percursos mistos durante a semana - com cidade, vias rápidas e um pouco de rodovia - consegui baixar para 6,3 l/100 km, um número que considero interessante para o tipo de proposta.
Também merece destaque a suavidade do Tonale no uso urbano, principalmente nas situações mais chatas de trânsito lento. Ele é bem ágil, fácil de guiar e oferece excelente visibilidade.
O isolamento acústico aparece em bom nível. Em pisos mais castigados, surgem alguns ruídos vindos da região da coluna B, mas nada que chegue a ser realmente digno de nota.
E a dinâmica?
Ao dirigir o Alfa Romeo Tonale, a primeira impressão é clara: a direção é muito leve e muito direta. O eixo dianteiro reage ao menor comando no volante, como já acontece com os “irmãos” Giulia e Stelvio.
E aqui pesa mais o gosto pessoal do que qualquer veredicto objetivo. Eu gosto e acho que isso respeita os genes da marca italiana.
Como disse antes, o Tonale é um pouco mais alto do que eu queria, e isso aparece na estrada. Para ilustrar, ele tem 1,60 m de altura, contra 1,52 m do CUPRA Formentor.
Mesmo assim, o Tonale passa uma sensação de carro bem “assentado” e transmite confiança nas curvas, muito graças à suspensão, que segura tudo com grande eficiência.
Vale notar que os engenheiros da Alfa Romeo aumentaram a rigidez da plataforma em relação ao Compass. Foi uma escolha que deu resultado e fica evidente quando adotamos um ritmo mais “intenso”.
Ainda assim, peguei-me várias vezes pensando na versão mais forte, com 160 cv, que provavelmente permite explorar melhor tudo o que este chassi tem para entregar.
Não que esta configuração seja lenta - os 130 cv são suficientemente dispostos -, mas eu queria um motor um pouco mais “enérgico” e menos progressivo, porque a verdade é que dá vontade de mais.
É o carro certo para si?
Talvez só siga por essa linha - a de ficar “pensando” nos 160 cv da opção acima - quem pretende levar o Alfa Romeo Tonale para um uso mais divertido e esportivo. Como SUV de família (afinal, essa é a missão principal, certo?), esta motorização dá conta do recado com nota alta.
Ele é relativamente econômico, muito suave na cidade e encara bem viagens mais longas em rodovia, ainda que, como é natural, o consumo suba nesse cenário.
Mas, se você quer mais deste SUV - especialmente uma postura mais esportiva e um comportamento dinâmico mais empolgante -, pode fazer bastante sentido pagar os cerca de 2000 euros que a Alfa Romeo cobra pela versão equivalente de 160 cv.
Não necessariamente porque a dinâmica desta seja ruim (pelo contrário, é referência no segmento), mas porque os 30 cv extras ajudam a amplificar tudo.
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