Preguiças são animais fora do comum: são os mamíferos que se movem mais devagar no planeta, também têm um dos metabolismos mais lentos e não mantêm a temperatura corporal sob regulação constante.
Um novo estudo de genética, porém, trouxe pistas sobre como essas criaturas tão conhecidas por não terem pressa acabaram evoluindo um modo de vida tão extremo, de baixíssimo gasto energético.
Comparação genômica da preguiça-de-dois-dedos (Choloepus didactylus)
Uma equipa internacional de cientistas realizou uma análise abrangente da preguiça-de-dois-dedos (Choloepus didactylus), colocando o seu genoma lado a lado com o de dezenas de outros mamíferos - incluindo outros xenartros, como o tamanduá e o tatu.
Ao comparar essas linhagens, os pesquisadores identificaram diversas sequências de ADN capazes de se deslocar pelo genoma ou de se duplicar e reaparecer em novos pontos.
Transposons (genes saltadores) e o registo de 30 milhões de anos
Essas sequências são conhecidas como transposons, também chamados de “genes saltadores”, e compõem uma parte central da história de como a evolução molda os animais ao longo do tempo.
No caso das preguiças - e do ramo que ocupam na árvore evolutiva - há sinais de transposons em atividade há mais de 30 milhões de anos, com evidências de que foram “saltando” pelo genoma durante esse período.
O que mais chamou a atenção da equipa, no entanto, foi que vários desses elementos estavam associados a mitocôndrias, as estruturas que atuam como centrais de energia dentro das células, além de outros genes ligados ao metabolismo.
“Os nossos resultados sugerem que as preguiças podem ter evoluído ‘sistemas de reserva’ genéticos que ajudam a compensar as suas ‘mitocôndrias relaxadas’ e sustentam o seu estilo de vida único”, afirma a genômica da biodiversidade Camila Mazzoni, do Leibniz Institute for Zoo and Wildlife Research, na Alemanha.
Em termos práticos, a ideia é que a baixa exigência energética das células da preguiça pode ter permitido que mutações se acumulassem no genoma mitocondrial, já naturalmente mais lento.
Nessa hipótese, os “genes saltadores” poderiam funcionar como uma forma de compensação, abrindo caminhos genéticos alternativos que mantêm o animal a funcionar. Mas isso ainda não pode ser confirmado sem estudos adicionais.
Outro ponto de destaque é que várias das sequências genéticas encontradas parecem ter sido preservadas ao longo de cerca de 30 milhões de anos. Ao que tudo indica, elas surgiram num ancestral comum das preguiças modernas, mas depois de as preguiças se separarem evolutivamente de tamanduás e tatus.
“Preguiças têm o metabolismo mais lento de qualquer mamífero, e ainda assim continuam saudáveis”, diz Mazzoni.
“Compreender como elas conseguem isso pode revelar novos insights sobre como as células gerem energia de forma eficiente.”
O que isto pode significar para a saúde humana
Possibilitar um modo de vida tão vagaroso pode ser o principal benefício - e os resultados deste trabalho também levantam implicações para a saúde humana.
“Muitas condições humanas - incluindo diabetes, perturbações relacionadas com o envelhecimento, neurodegeneração e perda muscular - envolvem problemas na produção de energia e no funcionamento das mitocôndrias”, explica o biólogo molecular Pedro Galante, do Hospital Sírio-Libanês, no Brasil.
Problemas como a obesidade, por exemplo, podem afetar as mitocôndrias; e a disfunção dessas “centrais elétricas” celulares já foi associada a doenças como o Parkinson.
O raciocínio é que, se o ADN da preguiça indicar como um mamífero pode manter-se saudável mesmo a operar abaixo da capacidade máxima, isso pode abrir caminhos para proteger essas unidades de produção de energia nas células humanas.
“Embora mais investigação seja necessária, linhagens celulares de preguiça podem oferecer um modelo natural para entender como os organismos lidam com estados de baixa energia - e o que falha nas doenças”, afirma Galante.
“A longo prazo, isto pode orientar pesquisas sobre preservação de tecidos, medicina de cuidados críticos, envelhecimento, doença metabólica e até viagens espaciais de longa duração.”
Cautela e próximos passos da pesquisa
Ainda assim, é essencial avançar com cuidado.
Em humanos, alterações no ADN provocadas por genes saltadores podem contribuir para doenças como o cancro - o que torna ainda mais impressionante a elevada tolerância das preguiças a esse tipo de evento genético.
Os próximos passos, segundo os autores, passam por examinar com mais detalhe esses genes de “copiar e colar” que as preguiças mantiveram por dezenas de milhões de anos e esclarecer qual é, exatamente, a sua função biológica - sobretudo no que diz respeito a mitocôndrias e metabolismo.
Esses animais intrigantes acabaram por evoluir características que, noutros contextos, poderiam ser vistas como desvantagens - normalmente, ser rápido e não lento é apontado como a opção mais segura para sobreviver - e parte da explicação para isso parece estar escrita no ADN das preguiças.
“A evolução já conduziu biliões de experiências”, diz a bioinformatista Marcela Uliano-Silva, do Wellcome Sanger Institute, no Reino Unido.
“Ao estudar animais incomuns como as preguiças, por vezes descobrimos soluções biológicas que os humanos nunca evoluíram.”
A pesquisa foi publicada na BMC Biology.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário