A Dolphin Surf deixou de ser a única opção de carro urbano da BYD. Para completar a linha, a marca traz uma alternativa híbrida, maior e mais versátil: a Dolphin G. A proposta é enfrentar de frente modelos como a Renault Clio, que hoje atua como um hatch compacto (segmento B) bastante popular na França. Para a BYD, há ainda um peso simbólico: este é o primeiro carro desenvolvido com foco exclusivo no mercado europeu.
A ambição também é clara. Em Pequim, o presidente e fundador Chang Changfu afirmou que, em cinco anos, a BYD pretende alcançar o posto de maior fabricante de automóveis do mundo. Enquanto isso, em Berlim (Alemanha), a nossa equipe pegava as chaves da Dolphin G para um teste com a imprensa europeia. Depois das novidades Atto 2 DM-i e Atto 3 EVO, a fabricante chinesa apresenta sua primeira citadina híbrida. E, como resumiu Stella Li, vice-presidente executiva da BYD e companheira de Wang Chuanfu, trata-se de um modelo “pensado exclusivamente para a Europa”.
16 cm a mais que viram espaço principalmente no porta-malas (425 litros)
No primeiro contato, a Dolphin G lembra bastante a Dolphin Surf. A diferença aparece no desenho: o hatch híbrido abandona o visual mais “tubarão”, quase de mini-superesportivo, e adota linhas mais arredondadas e alinhadas com modelos maiores da gama, como a Seal 6.
Chegando mais perto, dá para notar que ela cresceu: são 16 cm a mais no comprimento (4,16 m) e 10 cm a mais na largura (1,82 m). Esse ganho ajuda a oferecer uma terceira posição no banco traseiro, elevando a lotação para 5 lugares - contra 4 na Dolphin Surf. Mesmo assim, o crescimento beneficia sobretudo o porta-malas, que sobe de 308 para 425 litros.
Quem esperava uma melhora grande na área traseira pode ficar frustrado. O espaço para as pernas muda pouco em relação à Dolphin Surf, e o mesmo vale para a altura para a cabeça: a linha do teto incomoda passageiros acima de 1,80 m. Vale lembrar que a Dolphin G tem 1,57 m de altura (2 cm a menos que a Dolphin Surf). Na nossa visão, faz sentido a BYD ter priorizado o compartimento de bagagens: os litros extras tornam o carro muito mais prático para uma família pequena. E isso é uma provocação direta a rivais como a Renault Clio, que na versão híbrida fica limitada por um porta-malas de apenas 300 litros.
Como a Dolphin G pode passar de 1000 km de autonomia?
De todo modo, a Dolphin G foi uma surpresa dentro da linha BYD nesta primavera europeia. Mesmo com o projeto e a produção na China, nada indicava que um modelo assim entraria tão cedo na gama. A chegada, inclusive, parece ter sido apressada - não por problemas no carro, mas porque ficha técnica e preços saíram apenas algumas horas antes de dirigirmos. Em outras palavras: um lançamento relâmpago. Ainda assim, um passo relevante para transformar a Europa em um motor de crescimento e posicionar a oferta híbrida DM-i como uma alternativa popular. A própria BYD afirmou já ter ultrapassado 8,5 milhões de vendas com essa motorização.
Afinal, o que é o DM-i? De forma direta, é uma mistura entre um híbrido plug-in (PHEV) e um elétrico com extensor de autonomia. O sistema, que a BYD chama de “super híbrido”, busca reunir o melhor dos dois mundos: o motor a combustão entra principalmente para recarregar a bateria do sistema elétrico (que, por sua vez, traciona as rodas), mas também pode ajudar na força quando necessário (aceleração forte, excedente de eletricidade gerada, etc.). Ao todo, a BYD cita 5 perfis possíveis de combinação entre motor elétrico e motor a combustão.
- Modo elétrico puro (EV): a bateria alimenta diretamente o motor elétrico, que gira as rodas.
- Modo híbrido gerador: o motor a combustão liga, mas não empurra o carro. Ele funciona na faixa ideal apenas como gerador, recarregando a bateria que alimenta o motor elétrico.
- Modo híbrido combinado: em acelerações intensas ou em alta velocidade, motor a combustão e motor elétrico trabalham juntos.
- Modo de tração direta a combustão: em velocidade constante (na estrada, por exemplo), o motor a combustão assume e passa a tracionar as rodas, por ser mais eficiente do que um elétrico nesse cenário específico.
- Modo de regeneração de energia: em frenagens e desacelerações, o sistema recupera energia cinética para recarregar a bateria sem gastar gasolina.
Do ponto de vista comercial, o grande argumento do DM-i é permitir que a marca fale em autonomia “de outro patamar”. E a Dolphin G entra exatamente nessa vitrine: para um carro urbano, a BYD promete 1000 km de alcance. Dependendo da versão, o total combinado chega a 1040 km, somando 105 km (WLTP) em modo elétrico e um tanque de 42 litros.
O preço a pagar é o peso: a Dolphin G é inevitavelmente mais pesada até do que a prima elétrica (1440 ou 1550 kg, conforme a versão, contra 1330 kg no máximo na Dolphin Surf). Em compensação, quando surge a necessidade de viajar longas distâncias, ela se mostra bem mais “faz-tudo”. No uso diário, há espaço para rodar sem gastar uma gota de gasolina.
Debaixo do capô, o motor 1,5 litro (4 cilindros) entrega 95 ch. Mesmo atuando sobretudo como gerador, ele também pode somar força ao motor elétrico de 163 ch, com torque imediato de 210 Nm. O conjunto é combinado com bateria de 7,42 kWh (versão Active) ou 18,3 kWh (demais versões). No total, são 176 ch (Active) ou 212 ch (outras versões), com 0 a 100 km/h em 8,3 segundos e máxima de 180 km/h.
A diferença de potência total acontece por conta da limitação de potência da bateria embarcada - e isso também ajuda a entender por que a autonomia combinada da Active, mesmo com bateria menor, fica tão próxima das versões com bateria maior (1020 km vs 1040 km).
Um carro urbano com jeito de sedã
Rodando, a Dolphin G transmite uma sensação mais “pesada” do que a Dolphin Surf elétrica. Esse excesso aparece no comportamento: há mais inclinação de carroceria (menos agilidade) e a suspensão é mais firme, o que reduz o conforto ao filtrar imperfeições do asfalto (a Dolphin Surf é excelente nesse ponto).
Por outro lado, em rodovia a Dolphin G passa mais segurança do que a irmã. Ela tenta se colocar como um sedã em postura, ainda mais porque os consumos são razoáveis desde que você não force o ritmo (entre 4,5 e 5 L/100 km). O cenário ideal é andar com carga na bateria e aproveitar o máximo possível o modo elétrico - dá para fazer mais de 90 km com facilidade.
Por dentro, a plataforma e o conjunto de baterias parecem ter imposto assentos mais elevados. Na prática, para dirigir, é preciso deixar o banco relativamente alto. Quem prefere a posição mais baixa pode ter dificuldade para encontrar um ajuste realmente confortável. É uma pena, porque no restante a experiência é positiva: a BYD buscou aproximar a Dolphin G de modelos mais caros, com acabamento e um volante de estilo mais “sedã”. A área envidraçada também é muito boa, e a versão Comfort pode receber um grande teto panorâmico de vidro (embora não seja abrível).
Com as dimensões maiores em relação à Dolphin Surf, a Dolphin G estreia também uma nova organização para console central e painel. O conjunto transmite sensação mais premium. O carregamento sem fio mudou de lugar e está melhor posicionado. Segue existindo apenas um porta-copos, mas ele vem acompanhado de um compartimento separado onde também dá para apoiar garrafas.
Há outros espaços para objetos sob o console, abaixo do apoio de braço e nas portas (inclusive atrás). Em cores, o interior pode ser preto ou cinza claro. Já a iluminação ambiente na versão Boost (2º nível) permite adicionar um toque de cor à noite.
A partir de 23 990 euros, mas sem recarga rápida
A BYD coloca a Dolphin G no mercado a partir de 23 990 euros. Nesse valor, a versão Active vem com lista de equipamentos mais simples e bateria elétrica de apenas 7,42 kWh. Ela entrega 39 km, contra os 105 km das demais versões - Boost, Comfort e Sport - que recebem a bateria de 18,3 kWh.
Com a Active, não dá para usar recarga rápida. Só existe recarga em corrente alternada (AC), limitada a 3,3 kW. Por isso, a configuração mais interessante tende a ser a Boost: além da bateria maior, ela traz recarga a 6,6 kW e recarga rápida de 39 kW (10-80 % em 28 minutos), o que ajuda a manter o uso elétrico mesmo em viagens.
Nas versões Boost, Comfort e Sport, a BYD Dolphin G pode substituir, com tranquilidade, um carro 100% elétrico: há autonomia elétrica suficiente para a rotina sem mexer no tanque, e ainda sobra fôlego para longos trajetos sem depender de paradas longas para recarga. Já a Active é mais restrita, embora não deixe de ser atrativa como híbrida: 39 km no elétrico e mais de 1000 km no total.
A escolha da versão define autonomia e recarga, mas não explica tudo do pacote. Na Active (entrada), por exemplo, há um painel digital de 8,8 polegadas de série atrás do volante. E aqui vem a surpresa: ele inclui navegação, algo que não aparece no restante da linha BYD. Uma estreia bem-vinda - e, nas versões Comfort e Sport, ainda existe a opção de head-up display.
No centro do painel, a tela de 10,1 polegadas vira 12,8 polegadas a partir da Boost, que também dobra o número de alto-falantes, adiciona aquecimento nos bancos dianteiros e escurece os vidros traseiros.
A BYD mantém botões físicos no painel da Dolphin G, embora faça falta um controle dedicado para volume do áudio. Algumas funções, como o ar-condicionado, seguem totalmente digitais. Na parte baixa do console central, dois botões do tipo “push” servem para alternar modo de condução e modo do trem de força (para forçar 100 % elétrico ou pedir para adiar o uso da bateria).
No volante, os comandos do piloto automático adaptativo estão entre os mais “divertidos” do mercado. Em autoestrada, estradas nacionais e na cidade, o sistema continua eficiente e seguro. Porém, ele mantém uma sensibilidade alta - algo que já criticamos em outros BYD: ao ultrapassar na autoestrada, é preciso mudar de faixa bem cedo para evitar que o carro freie rápido demais e atrapalhe a manobra (ainda mais porque a retomada é especialmente lenta).
O piloto automático adaptativo vem acompanhado do ICC da BYD, para condução semiautônoma de nível 2. Assim como na Dolphin Surf, é muito positivo ver esse tipo de assistência disponível em um carro urbano. E a Dolphin G, como o restante da linha, traz o sistema de série desde a Active. É um nível de equipamento muito forte, somado à câmera de ré e ao acesso e partida sem chave.
Para o restante, a BYD incentiva o cliente a subir para a Boost - ou até a Comfort - para ter bancos do motorista e do passageiro com ajuste elétrico, rodas de liga leve bicolores de 18 polegadas (no lugar das de 16 polegadas), navegação integrada via Google Maps e teto panorâmico.
Concorrência: vale escolher a BYD Dolphin G?
Mesmo com desenvolvimento otimizado para a Europa, a BYD Dolphin G dificilmente será prioridade nas linhas de produção da marca na Hungria. A primeira fábrica europeia da BYD tende a focar nos modelos 100% elétricos, que ganham mais ao serem produzidos localmente (incluindo elegibilidade ao bônus ecológico).
Assim, na França, o preço da Dolphin G não deve cair muito - ainda mais porque o governo não ajuda mais híbridos plug-in desse tipo. Ainda assim, a partir de 23 490 euros, a BYD Dolphin G segue mais barata do que uma Renault Clio 5 híbrida (24 500 euros) ou do que a nova Clio 6 híbrida (24 600 euros).
Preço da BYD Dolphin G 2026:
- Active: 23 990 euros
- Boost: 26 990 euros
- Comfort: 28 490 euros
- Sport: 29 490 euros
Leia aqui os detalhes de versões e equipamentos da BYD Dolphin G 2026.
Naturalmente, em 2026, um carro urbano híbrido é ainda mais polivalente do que um urbano elétrico com bateria limitada. Mas o preço entra na conta. Afinal, a BYD Dolphin Surf custa menos do que a Dolphin G, por menos de 20 000 euros. Isso também acontece com concorrentes - especialmente a MG4 Urban, outro elétrico com argumentos fortes para “levar a melhor”: preço baixo (19 990 euros, como a Dolphin Surf), espaço interno impressionante e um porta-malas enorme de 480 litros.
Em dimensões, ela é maior do que a Dolphin G (4,40 m), mas, para o nosso gosto, entrega melhor versatilidade, inclusive em dirigibilidade e qualidade de construção.
Ainda assim, a BYD acertou ao caprichar na Dolphin G com um porta-malas maior que o da Dolphin Surf. O interior herdando um volante mais refinado e um mobiliário um pouco mais premium ajuda o modelo a se encaixar no momento do mercado e a roubar clientes de marcas europeias - como a nossa referência francesa, Renault. Na marca do leão, Peugeot, é preciso subir até a 308 para encontrar algo semelhante (mesmo mudando de segmento). E aí o valor muda: para um modelo com 85 km de autonomia em 100 % elétrico, será necessário pagar mais de 40 000 euros.
BYD Dolphin G
Preço: 23 990 euros
Nota geral: 8.3
| Categoria | Nota |
|---|---|
| Condução | 8.0/10 |
| Interior | 7.5/10 |
| Tecnologias | 8.0/10 |
| Autonomia | 10.0/10 |
| Preço/equipamentos | 8.0/10 |
O que gostamos
- Porta-malas de 425 litros e 5 lugares (apenas 4 lugares na Dolphin Surf)
- Mais barata do que a concorrência francesa (2x menos que uma Peugeot 308 PHEV)
- Interior mais bem cuidado do que o da Dolphin Surf
- Mais de 100 km de autonomia em 100 % elétrico e 1000 km combinados
- Condução semiautônoma desde a versão Active
O que gostamos menos
- Não há mais espaço interno; altura para a cabeça é menor do que na Dolphin Surf
- Posição de dirigir alta demais
- A “verdadeira” Dolphin G começa na versão Boost
- Menos conforto do que na Dolphin Surf (suspensão mais firme, carro mais pesado)
- A sombra da MG4 Urban: um hatch/sedã compacto mais barato e 100 % elétrico
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