Como uma nação pequena, com menos de 3 milhões de habitantes, consegue encarar o gigante russo? A presidente da Moldávia, Maia Sandu, busca caminhos para consolidar a ancoragem europeia do país - embora, por enquanto, nada esteja definido no plano político.
Antes de se tornar um Estado independente, a atual República da Moldávia compartilhou uma trajetória política com a Roménia: primeiro, na unificação dos principados em 1859; depois, no período da Grande Roménia entre 1918 e 1940, quando a Bessarábia (a parte oriental da Moldávia) foi incorporada ao reino. Essa unificação estatal foi desfeita no mesmo ano pelo pacto germano-soviético (Molotov-Ribbentrop) e, na sequência, veio a anexação do território pela URSS, que instituiu a República Socialista Soviética da Moldávia.
Por quase meio século, Moscovo tentou apagar a identidade romena da região: imposição do alfabeto cirílico, fechamento da fronteira ao longo do rio Prut para reduzir trocas culturais, deportação de elites intelectuais romenófonas para a Sibéria, imigração forçada de populações russas e ucranianas para alterar a demografia do país… Uma sovietização acelerada que alguns historiadores e pesquisadores já não hesitam em classificar como “genocídio cultural”.
Com o colapso do bloco soviético, em 1991, a Moldávia recupera a independência, mas segue desde então dividida internamente e comprimida entre dois polos de poder. De um lado está a Roménia - integrante da União Europeia desde 2007 - para onde Chișinău poderia, a longo prazo, orientar-se. Do outro, está a Rússia, que mantém uma presença militar considerada ilegal pela comunidade internacional, com cerca de 1 500 soldados estacionados na Transnístria, enclave separatista no leste do país.
Essa fissura nunca pareceu tão profunda quanto nas últimas semanas. Enquanto Moscovo mobilizou 350 milhões de euros (2% do PIB moldavo) para tentar distorcer as eleições parlamentares de 2025, a Moldávia se questiona, mais do que nunca, sobre o próprio futuro. Como se livrar da ofensiva russa: aderir à União Europeia? Voltar a unir-se à Roménia? Embora as ambições europeias existam desde os anos 1990, a hipótese de uma reunificação com o vizinho voltou recentemente ao debate político.
Moldávia-Roménia: a proteção final contra o Kremlin?
Mesmo que a união ainda não tenha se transformado em um projeto institucional formal, o cenário geopolítico está tão tensionado que a ideia - tida como tabu até pouco tempo - pode surgir como uma boia de salvação para a Moldávia. Em 27 de janeiro, Maia Sandu viajou à Polónia e foi questionada sobre sua posição pessoal diante de um possível referendo de reunificação. A líder afirmou, sem hesitar, que votaria “sim” se essa grande questão fosse colocada ao povo.
Essa declaração, ainda que pessoal e hipotética, teve repercussão imediata em Bucareste. Ao microfone da RFI, o primeiro-ministro romeno Ilie Bolojan disse: “Nas condições em que a questão de um referendo desse tipo fosse colocada no nosso país, eu votaria sim”.
São afirmações, é verdade, mas suficientemente diretas para fazer com que a união deixe de ser um tema inexistente e passe a ser uma hipótese discutida no mais alto nível do Estado. Para Bolojan, caso essa convergência venha a ocorrer, ela seria o desfecho lógico para a Moldávia, que apresentou sua candidatura em 2022 para integrar a União Europeia.
“É uma declaração que apenas confirma a atitude que ela adotou durante todos esses anos em que foi presidente da República da Moldávia. É uma atitude que confirma o que ela realizou no seu cargo, fazendo todo o possível para que a Moldávia se desenvolva, para que seja um país seguro, um país europeu. E isso significa, antes de tudo, um caminho para a Europa que passa pela Roménia”, afirma.
A União Europeia: uma proteção mais realista
Naturalmente, antes de se projetar uma união, a prioridade central da Moldávia continua sendo a adesão à UE, já que Sandu está convencida de que ela é “a garantia de segurança, de democracia e de liberdade mais clara”.
Desde o fim de janeiro, o debate alcançou também a esfera mediática do Ocidente, ainda que nenhum calendário tenha sido apresentado. Apesar do otimismo exibido pelos dois dirigentes, a aprovação do povo moldavo continuará sendo a última barreira a vencer para que o projeto avance, caso chegue a se materializar. Se as gerações mais jovens olham para a UE, uma parcela significativa da população - mais velha - ainda está marcada por décadas de propaganda soviética e russa.
De acordo com sondagens recentes, cerca de um terço dos moldavos se diz favorável a uma unificação com a Roménia, mas a maioria é contra ou permanece indecisa - uma realidade reconhecida pela própria Maia Sandu. A adesão à UE aparece à frente, com 60% de apoio. Na Roménia, por sua vez, 56% da população afirma apoiar uma potencial unificação. Seja a reunificação, seja a entrada na UE o caminho que aguarda a Moldávia, Moscovo sai perdendo nos dois cenários: o país ficaria sob proteção ocidental. A Rússia seria forçada, com o tempo, a retirar suas tropas da Transnístria, perdendo assim um ponto de apoio militar a oeste da Ucrânia, a apenas algumas centenas de quilómetros de Odessa.
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