O Ártico pode parecer uma região remota e gelada, mas hoje está no centro de um problema global em expansão. O gelo está a derreter rapidamente e, por baixo dele, há petróleo e gás.
Um novo estudo ajuda a visualizar, com precisão, onde indústria, vida selvagem e populações humanas estão a ser impactadas ao mesmo tempo.
O aquecimento do Ártico acelera
O Ártico está a aquecer muito mais depressa do que o resto do planeta. O degelo avança a um ritmo elevado e transforma a região em tempo real. À medida que a cobertura de gelo recua, navios e empresas de perfuração passam a ter mais facilidade para entrar.
Isso alimenta um ciclo vicioso: as empresas extraem petróleo e gás; esses combustíveis são queimados e libertam mais gases que retêm calor. O aquecimento resultante intensifica o degelo e abre ainda mais espaço para novas operações.
Metas climáticas sob pressão
Especialistas em clima afirmam que, para conter o aquecimento global, uma parte significativa dos combustíveis fósseis precisa permanecer no subsolo. Cerca de 60 por cento das reservas de petróleo e gás não deveriam ser exploradas se a meta for manter o aquecimento dentro de limites seguros.
Mesmo assim, o Ártico continua a produzir petróleo e gás. Em 2022, a região respondeu por 5.5 por cento da produção mundial, o que aumenta a pressão sobre os objetivos climáticos.
A expansão de petróleo e gás ganha um mapa
Pesquisadores da Universidade de Pádua elaboraram um mapa detalhado da atividade de petróleo e gás em todo o Ártico.
A equipa recorreu a dados abertos para acompanhar poços, oleodutos e gasodutos, além de áreas de exploração. O levantamento apontou operações em larga escala por toda a região.
“Nosso atlas revela a dimensão impressionante do desenvolvimento de petróleo e gás no Ártico: mais de 500,000 quilômetros quadrados já estão cobertos por licenças, uma área comparável à Espanha”, observaram os autores.
“Identificamos mais de 44,000 poços, quase 40,000 quilômetros de oleodutos e gasodutos, e quase 2 milhões de quilômetros de linhas sísmicas em todo o Ártico.”
Os dados deixam claro o quanto a atividade industrial já se espalhou pelo território ártico.
A Rússia domina a atividade de petróleo
A Rússia concentra a maior parte da atividade de petróleo e gás no Ártico, com cerca de 69 por cento de todos os projetos. Em seguida aparece o Canadá, com aproximadamente 18 por cento.
Além disso, a Rússia é responsável pela maior parte da queima de gás em flare na região, o que agrava a poluição e contribui para as mudanças climáticas.
Os projetos de petróleo e gás também coincidem com áreas essenciais para várias espécies. O estudo analisou, entre outros, ursos-polares, caribus e o mergulhão-de-bico-amarelo.
Vida selvagem e áreas protegidas
Cerca de metade de todas as áreas de petróleo e gás sobrepõe-se a habitats de ursos-polares. Muitas também coincidem com zonas de ocorrência de aves e com áreas utilizadas por caribus.
No Alasca, a sobreposição é ainda mais elevada: a maior parte das concessões de petróleo e gás encontra-se dentro de áreas frequentadas pelas três espécies avaliadas.
A atividade de petróleo e gás chega inclusive a áreas protegidas. Aproximadamente 7.57 por cento dos projetos se sobrepõem a essas zonas.
Em alguns casos, os limites de áreas protegidas foram alterados para permitir a passagem de oleodutos e gasodutos ou viabilizar outros empreendimentos. Isso levanta dúvidas sobre o grau de proteção efetiva desses espaços.
Sobreposição com territórios Indígenas
Diversas comunidades Indígenas vivem no Ártico e dependem da terra para manter modos de vida e subsistência. O estudo indica que projetos de petróleo e gás frequentemente se sobrepõem aos seus territórios.
“Além disso, mais de 73% das concessões de petróleo e gás no Ártico se sobrepõem às terras dos Povos Indígenas, levantando questões críticas sobre justiça espacial e governança”, afirmam os autores.
Na Rússia, essa sobreposição é ainda maior. Já em locais como o Alasca, mesmo quando os números oficiais parecem mais baixos, as comunidades estão muito perto de grandes projetos petrolíferos.
Dados difíceis de localizar
Os pesquisadores constataram também que as informações sobre petróleo e gás no Ártico estão dispersas e são difíceis de aceder.
“Um desafio recorrente na nossa pesquisa é a falta de dados acessíveis e integrados sobre a indústria de petróleo e gás”, destacou a equipa.
“No Ártico, as informações sobre petróleo e gás são altamente fragmentadas, então um dos nossos principais objetivos foi sistematizar essas fontes dispersas numa única ferramenta aberta que possa apoiar pesquisas futuras e a tomada de decisão.”
O novo mapa reúne esse material num só lugar e facilita a consulta.
A atividade de petróleo e gás entra em choque com a natureza
O estudo sublinha um ponto essencial: ele indica onde a atividade de petróleo e gás colide com prioridades ambientais e humanas. Esse tipo de evidência pode apoiar decisões sobre onde a perfuração deveria ser interrompida.
“Identificar onde a extração de petróleo e gás se sobrepõe a prioridades ecológicas e culturais ajuda a definir não apenas ‘quando’, mas também ‘onde’ os combustíveis fósseis devem permanecer no subsolo”, escreveram os pesquisadores.
“Se as metas climáticas forem cumpridas, o Ártico pode ser uma das regiões onde os combustíveis fósseis devem permanecer no subsolo. O Atlas do Ártico fornece novas evidências espaciais que fortalecem o argumento a favor de uma zona de não proliferação de combustíveis fósseis no Ártico.”
O Ártico está a mudar depressa e já não é um assunto distante. O que ocorre ali repercute no planeta inteiro.
Ao tornar o cenário mais legível, este novo mapa mostra que decisões energéticas também são decisões sobre fauna, pessoas e o futuro da Terra.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário