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Estudo global alerta para a pressão sobre a água subterrânea costeira

Dois homens analisam amostras de água em um poço antigo no solo seco e rachado à beira-mar.

A água subterrânea armazenada nas proximidades das zonas costeiras do mundo sustenta o abastecimento de água potável de um número enorme de pessoas. Um novo estudo indica que esse recurso vem sofrendo pressão crescente.

Em muitas áreas litorâneas, alterações importantes nos níveis de água subterrânea já estão a ocorrer, o que pode facilitar o avanço da água do mar para o interior e a contaminação das reservas de água doce.

Os resultados foram obtidos por uma equipa liderada pelo professor Robert Reinecke, do Instituto de Geografia da Universidade Johannes Gutenberg de Mainz, e por Annika Nolte, do Centro de Serviços Climáticos da Alemanha, em Hamburgo.

Segundo os autores, a combinação entre a extração excessiva de água subterrânea e a elevação do nível do mar está a criar um cenário perigoso para regiões costeiras em todo o planeta.

“Entre 1990 e 2024, mais de 20 por cento das áreas costeiras que estudámos apresentaram mudanças significativas nos níveis de água subterrânea. Em alguns casos, os níveis caíram mais de 50 centímetros (cerca de 20 polegadas) por ano”, disse Reinecke.

“Isso aponta para a extração excessiva e, consequentemente, para a potencial intrusão de água do mar e a salinização associada.”

Mapeamento global da água subterrânea costeira

O estudo chama a atenção também pela escala dos dados utilizados. Os investigadores reuniram informações de cerca de 480,000 poços distribuídos por diferentes países.

Trata-se da maior compilação global de medições de água subterrânea costeira reunida até agora. Com essa base ampla, a equipa conseguiu comparar condições hidrogeológicas entre regiões muito distintas de forma consistente.

Em vez de se apoiar apenas em estudos locais isolados, foi possível construir uma visão mais abrangente do que está a acontecer ao longo das linhas de costa no mundo.

“O nosso estudo traz três contribuições principais”, afirmou Reinecke. “Primeiro, converte os dados de medição disponíveis de diferentes locais em métricas comparáveis globalmente, permitindo pela primeira vez uma avaliação em grande escala.

“Segundo, identifica áreas com risco particular e destaca as mudanças que ali ocorrem. Terceiro, oferece indicadores que podem ser usados para modelar a evolução em litorais que antes não eram monitorizados.”

As quedas tornaram-se mais frequentes

Os resultados mostram que os níveis de água subterrânea não seguem uma única tendência em todos os lugares. Em alguns pontos, eles subiram; em outros, recuaram.

Ainda assim, o padrão geral tornou-se mais preocupante nos últimos anos. A equipa observou que, desde 2016, as quedas nos níveis de água subterrânea passaram a ser mais disseminadas.

Essa mudança é relevante porque a diminuição da água doce pode deixar os aquíferos costeiros mais vulneráveis à intrusão de água do mar.

O estudo também indica que as alterações nem sempre se distribuem de forma homogénea dentro de uma mesma região. Áreas próximas podem apresentar comportamentos muito diferentes.

“A magnitude da mudança no nível da água subterrânea varia significativamente, mesmo em pequena escala dentro de muitas regiões”, disse Reinecke.

Por isso, médias regionais amplas podem ocultar focos locais de problema. À primeira vista, um trecho costeiro pode parecer relativamente estável, enquanto segmentos específicos já enfrentam forte pressão.

Principais áreas de perda de água subterrânea

As quedas mais intensas foram registadas sobretudo ao longo das costas dos Estados Unidos e da América Central, em torno do Mediterrâneo, na África do Sul, na Índia e no sul da Austrália.

Nesses locais, os sinais de alerta são particularmente evidentes. A preocupação não se limita ao facto de os níveis estarem a mudar, mas às consequências que tais mudanças podem desencadear.

Quando a água doce baixa demasiado, o equilíbrio entre a água subterrânea em terra e o mar torna-se mais fácil de ser rompido. Nesse cenário, a água salgada pode começar a avançar para reservas subterrâneas de água doce.

O estudo descreve essa interação como especialmente grave porque é impulsionada simultaneamente por duas forças.

De um lado, a extração intensa de água subterrânea enfraquece o sistema; do outro, as mudanças climáticas, por meio da elevação do nível do mar, aumentam a pressão sobre os aquíferos.

Muitas zonas costeiras estão em alto risco

Os investigadores também analisaram quais zonas costeiras estão mais expostas à intrusão salina. A avaliação aponta dois fatores de risco principais.

O primeiro é um lençol freático que já se encontra próximo do nível do mar. Nessas áreas, mesmo variações relativamente pequenas podem ser suficientes para desequilibrar o sistema e permitir que a água do mar avance mais para o interior.

O segundo fator é a forte dependência de água subterrânea em regiões secas. Em áreas áridas, as comunidades muitas vezes dependem intensamente de água subterrânea porque outras fontes de água doce são limitadas, tornando qualquer perda de qualidade da água um problema muito mais grave.

“Áreas costeiras onde o lençol freático está próximo do nível do mar correm risco especial, assim como regiões áridas em que as populações dependem fortemente de água subterrânea”, disse Reinecke.

“O nosso estudo oferece evidências globais de que a água subterrânea costeira está ameaçada pela salinização e deve ser priorizada para monitorização e gestão.”

Uma ameaça à alimentação e aos ecossistemas

O alerta vai muito além dos próprios poços. Se a água subterrânea costeira se tornar salgada demais, os impactos podem espalhar-se pela vida quotidiana, pela agricultura e pelos habitats naturais.

O risco pode alcançar todas as regiões costeiras nas próximas décadas. Trata-se de um aviso marcante, especialmente porque mais de 30 por cento da população mundial vive em áreas costeiras.

Qualquer dano de longo prazo a essas reservas pode afetar não apenas o abastecimento doméstico, mas também a produção de alimentos e os ecossistemas litorâneos que dependem de condições estáveis de água doce.

A água subterrânea costeira é um recurso essencial, porém está sob tensão crescente. Sem monitorização mais próxima e uma gestão mais eficaz, muitas regiões podem ver uma das suas fontes de água doce mais importantes tornar-se progressivamente menos fiável.

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