O que realmente pesa na política internacional muitas vezes não aparece de imediato.
Choque de energia e gargalos logísticos
A 4ª guerra do Golfo desencadeou um abalo na oferta de petróleo e gás natural. Nas últimas dez semanas, a capacidade de Teerã de ameaçar o tráfego energético pelo estreito de Ormuz retirou do mercado global cerca de 1 bilhão de barris, elevou as cotações internacionais e contribuiu para a redução das reservas de petróleo em diversos países.
Diante do risco ampliado em Ormuz, produtores árabes de petróleo e gás natural vêm alterando infraestrutura e rotas logísticas para se ajustar o mais rápido possível. Na Arábia Saudita, portos e terminais de exportação no Mar Vermelho passam a ser encarados como alternativa aos do Golfo Pérsico. Nos Emirados Árabes Unidos, o oleoduto Habshan–Fujairah assegura saída direta para o golfo de Omã e, dali, para o oceano Índico. Ainda assim, a ampliação desses sistemas exigirá investimentos elevados e tempo até ficar pronta.
Três fatos por trás da crise no estreito de Ormuz
Esse choque energético encobre três elementos que tendem a pesar no rumo da política internacional. Em primeiro lugar, mesmo que Irã e EUA cheguem a um entendimento diplomático que resulte na reabertura do estreito de Ormuz, o estrangulamento não será desfeito rapidamente. Do ponto de vista logístico, a recomposição levará meses - ou anos.
O segundo ponto é que a base industrial de países como os europeus não pode continuar dependente do Golfo Pérsico e do estreito de Ormuz. Nesta nova fase histórica, a base de inovação industrial avançada - sobretudo a vinculada à Defesa - precisará voltar ao Velho Continente ou migrar para aliados realmente confiáveis.
Por último, a hesitação de Donald Trump em empregar a Marinha dos EUA para garantir a liberdade de navegação entre o Golfo Pérsico e o Índico terá efeitos na Ásia. O precedente sugere que podemos estar entrando no período de maior contestação marítima dos últimos 40 anos.
Pequim, Trump e a leitura chinesa da 4ª guerra do Golfo
Nesta semana, Pequim comunicou a Teerã que “um cessar-fogo abrangente com os EUA era urgentemente necessário”. A China tem procurado equilibrar seus interesses no Irã e nos países árabes do Golfo Pérsico, e a reabertura do estreito de Ormuz lhe convém. Ainda assim, para Pequim, o essencial não é o Irã, mas a avaliação cuidadosa de Trump e das capacidades militares dos EUA. Na capital chinesa, muitos entendem que a 4ª guerra do Golfo enfraqueceu Washington em reputação internacional, em alianças na Ásia e na Europa, em logística militar e em disciplina estratégica.
A principal vantagem de Xi Jinping na cúpula com Trump marcada para a próxima semana, em Pequim, é ter atravessado a Revolução Cultural, um período de desordem catastrófica na história chinesa. Trump quer remodelar a ordem política interna dos EUA e também a ordem internacional, com o objetivo de preparar seu país para uma nova etapa histórica e, ao mesmo tempo, resguardar seu poder e sua riqueza pessoal. Para isso, é necessário assumir riscos e estimular a desordem. Para Xi, nada disso é novidade, embora seja para a maioria dos americanos. Que avaliação, então, fará de Trump o presidente-adolescente, na capital chinesa?
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário