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Ford Ka: após 12 anos, retorna como novo compacto com DNA Fiat

Carro branco Ford New Ka 2026 em exposição, com teto e retrovisores dourados, em showroom moderno.

Dá para achar curioso: um carro que rodou o mundo por 12 anos e, ainda assim, muita gente não sabe ao certo como dizer o nome. Até dentro da própria Ford rola confusão entre “K-A” soletrando, “Ka” com “a” curto ou “Ka” como em “car”. E isso apesar de ele já ter somado 1,4 milhão de vendas globais - sendo impressionantes 500 mil só no Reino Unido. É como se ninguém soubesse pronunciar “Coca”.

A boa notícia é que ainda vai dar tempo de continuar treinando (certo ou errado), porque o Ka antigo saiu de cena e entrou uma geração totalmente nova. Ele foi desenvolvido em parceria com a Fiat, então Panda e o novo 500 dividem uma boa parte da engenharia com o Ka. Todos os motores do Ka vêm da Fiat - e isso é positivo, já que a Fiat manda bem em motores pequenos a gasolina e a diesel. E, hoje em dia, não dá mais para ficar com medo daquela velha história de qualidade de construção: os italianos melhoraram bastante nesse ponto nos últimos anos.

Então, ao comprar um Ford Ka novo, você escolhe entre um 1,2 litro a gasolina ou um 1,3 litro diesel. Não há confirmação do 1,4 a gasolina da Fiat, mas eu apostaria que ele deve aparecer em algum momento. O mesmo vale para uma versão ECOnetic do Ka. Considerando que o Fiesta ECOnetic, maior e mais pesado, faz 76,3 mpg e emite 98 g/km, o Ka “verde” deve ser dos mais ecológicos da categoria.

São oferecidos quatro níveis de acabamento - Studio, Style, Style Plus e Zetec - mas o Ka vai além disso. Assim como dá para personalizar um 500, também dá para mexer no visual do Ka. Você pode escolher entre Tattoo, Grand Prix e Digital Art, que mudam a aparência por dentro e por fora. No Digital Art, por exemplo, entram várias listras verdes na carroceria - pense numa espécie de “zebra eco”.

Só que isso não soa como um bom sinal. A genialidade do Ka anterior - e o motivo de ele ter durado incríveis 12 anos e ainda terminar como o mais popular da classe - era ser muito bem projetado e muito bem desenhado. Coisas simples, executadas de forma brilhante. Sempre me dá um certo receio quando as montadoras enchem um carro de “pacotes fofinhos” de estilo: parece que estão tentando compensar o quê?

E, no caso do Ka, a Ford tem algo para disfarçar: todo esse DNA Fiat. Do ponto de vista econômico, dividir tecnologia com outras marcas faz sentido. Mas carros ainda precisam ter personalidade própria. Caso contrário, você cai no cenário Golf/A3, em que um quase vira o outro.

A Ford diz que acertou o Ka de um jeito diferente do Panda e do 500, para ele continuar “com jeito de Ford”. Só que, na prática, eles não mexeram o bastante naqueles primeiros pontos de contato. A chave é de um Fiat, as hastes de seta são Fiat - até o cheiro é Fiat. Soa nerd, mas é verdade.

Também não dá para reclamar demais. O 500 atual ganhou prêmios por todo lado, inclusive aqui. O motor 1,2 litro é uma joia: é suave e, mesmo entregando só 68 bhp (cerca de 69 cv) e 75 lb ft (aprox. 102 Nm), o Ka não parece fraco. O legal é que dá para rodar de boa em marchas mais altas e, quando você pede força, nem sempre precisa reduzir. Até acelerar a partir de 70 mph (cerca de 113 km/h) em quinta marcha funciona bem. O único ponto negativo é que, com apenas cinco marchas, a quinta fica relativamente curta para manter o carro esperto. Assim, a 85 mph (aprox. 137 km/h) o motor gira a 4.000 rpm - não chega a ser barulhento, mas dá para ouvir aquele zumbido.

Outro ganho de compartilhar plataforma é que o espaço interno surpreende. Eu saí de um Fiesta quatro portas e entrei no Ka, e ele oferecia bem mais espaço para pernas e cabeça - não é à toa, já que o Ka novo é 10 cm mais alto que o antigo. Além disso, a qualidade dos plásticos e o desenho do interior estão anos-luz à frente do Ka anterior. O painel clássico em “gota” desapareceu e deu lugar a um painel no estilo Fiat 500, então os comandos principais ficam bem à mão, incluindo a alavanca de câmbio montada no painel. O design funciona, mesmo sem aquele último toque de “chique” do 500.

Mas a parceria com a Fiat não traz só boas notícias. Como eu disse, os pontos de contato gritam Fiat - e a rodagem e o comportamento dinâmico também. A Ford afirma que fez todo o acerto do Ka internamente, então direção e suspensão deveriam ter um tempero bem Ford. A única explicação que me vem é que tinha muito engenheiro da Fiat disfarçado de funcionário da Ford nessa fase, porque 500 e Ka acabam ficando quase iguais. Ok, a direção do Ka é um pouco mais pesada e não tem exatamente aquela assistência elétrica que você sente no 500 ou no Panda. E a suspensão não pula tanto quanto a dos Fiat, mas estamos falando de diferenças mínimas.

O problema é que aquela sensação crucial de “go-kart” do Ka antigo - sua principal raison d’etre, seu diferencial, chame como quiser - sumiu. O Ka novo está longe de ser tão “jogável” quanto o anterior: aquela fluidez de direção e chassi evaporou. Saí do Ka e fui direto para um Fiesta e, na hora, me senti muito mais contente - até o câmbio parecia mais firme.

A Ford sabe fazer carros modernos e divertidos de guiar, mas não com este Ka. É estranho, porque eu gosto muito do Fiat 500 e do Panda. São carros excelentes. E, até certo ponto, o Ka novo também é. Tem visual ok, embora pareça um pouco alto visto de trás, anda ok, leva quatro pessoas ok. Só que você compra um 500 pelo estilo ousado. Você compra um Panda por praticidade e custo-benefício. E você deveria comprar um Ford pela forma como ele dirige. A Ford transformou a marca nisso - até o SUV Kuga é gostoso de guiar. Mas este Ka novo não entrega. Ele não tem o tempero Ford, o DNA Ford. E não vai durar 12 anos, não importa como você pronuncie o nome.

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